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Alzheimer

Café retarda doença de Alzheimer. Novo estudo explica como

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Um novo estudo vem mostrar como é que a cafeína atua no cérebro de maneira a retardar ou até reverter a perda da capacidade de memória. Mas investigadora pede "cautela" na extrapolação dos resultados.

Vários estudos já vieram mostrar que a toma de café tem um papel protetor da doença de Alzheimer

Getty Images

O café é um bom aliado na guerra contra o envelhecimento, nomeadamente no que diz respeito à perda de memória. E isto até nem é novidade. Mas um estudo publicado recentemente permite perceber, pela primeira vez, como é que a cafeína atua no cérebro de maneira a atrasar a progressão destes défices cognitivos e, por sua vez, do Alzheimer.

“Já sabíamos que a cafeína tem um papel protetor da doença de Alzheimer e défice cognitivo associado ao envelhecimento, sobretudo em mulheres, mas não se sabia o mecanismo. Neste estudo revelamos o mecanismo pelo qual a cafeína pode ter este papel”, começou por explicar ao Observador Luísa Lopes, investigadora do Instituto de Medicina Molecular (iMM) e coordenadora do estudo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Durante três anos, esta equipa constituída por cientistas alemães, norte-americanos e franceses, pegou em animais jovens e aumentou os recetores de adenosina (A2A, um importante neuromodulador do sistema nervoso), nas áreas em que estes aparecem aumentados nos humanos com a idade. E perceberam que “só por aumentar este recetor, aumentámos a resposta ao stress, ou seja, aumentámos a produção de cortisol, uma hormona com efeitos nas áreas ligadas à memória”.

Altas taxas de cortisol, com o passar dos anos, levam a uma dificuldade em aprender e reter novas informações, pois conduzem a uma perda de memória de curto prazo. Os idosos e sobretudo os portadores da doença de Alzheimer têm altos níveis de cortisol.

E quando os investigadores deram “um análogo da cafeína” os efeitos foram bastante satisfatórios.

Quando demos um análogo de cafeína aos animais revertemos esta resposta ao stress e normalizámos os níveis do cortisol, normalizando também a função da memória”.

Isto não só permitiu identificar “a sobreativação do recetor A2A como possível desencadeador das alterações que ocorrem com o envelhecimento”, como “lançou pistas importantes na relação entre o stress crónico e as perdas de memória ligadas ao envelhecimento”, acrescentou a investigadora do IMM.

Fazia falta perceber o mecanismo e quais os alvos celulares. Espero que este estudo [pré-clínico] tenha sido um contributo para convencer a indústria farmacêutica de que vale a pena apostar neste tipo de fármacos para este tipo de défices cognitivos associados ao envelhecimento.”

E Luísa Lopes explicou porque foi utilizado um “análogo da cafeína”. É que a cafeína tem outros efeitos para além de bloquear o recetor da adenosina e este análogo tem apenas o efeito bloqueador, pelo que “é mais eficaz” e mais dirigido ao alvo, sem risco de toxicidade que pode decorrer da toma excessiva de café.

A investigadora sublinha que este “é o melhor resultado possível” e que “é muito entusiasmante”, mas pede “cautela” pois, para já, o teste foi feito em ratos de laboratório e extrapolar para humanos pode não funcionar, lembrando muitos exemplos do passado. Assim como não é possível perceber, para já, se a toma de café diária é também suficiente para ter o mesmo efeito no cérebro que tem este fármaco “análogo à cafeína”.

“Não sabemos é se este fármaco, nesta configuração, tem um efeito ainda mais eficaz.”

Esta quarta-feira comemora-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer. A estimativa de prevalência da demência em Portugal ronda as 90 mil pessoas.

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