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Começa mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar das contestações na rua por causa da habitação. Olá, Eduardo. O Eduardo escreveu que estas contestações são um sinal. Quando um jovem protesta por causa da habitação, está também a manifestar-se pelo seu futuro?
Olá, Edite. Evidentemente que estas manifestações depois são instrumentalizadas, aproveitadas ou tomadas por alguns grupos, alguns partidos e outros tipos de plataformas. E eu queria pôr esse lado de parte, se me permite, e tomar, sobretudo, em consideração aquilo que são as manifestações, inicialmente em França e depois que se foram espalhando um pouco pela Europa, protagonizada por jovens, jovens estudantes, nomeadamente jovens universitários, mas não só. E é aqui que eu acho que é importante que nós nos possamos centrar. A mim preocupa-me, particularmente, que às vezes acabemos por parecer um pouco distraídos pra realidade que estes jovens vivem. A verdade é que eles são muito mais atentos do que à primeira vista pode parecer e naturalmente, nós esperamos que eles aproveitem as oportunidades de formação que lhes colocamos ao dispor. Aquilo que eu acho que é, de facto, preocupante é que quando eles olham pra frente, tenham a noção que tudo o resto que está à sua espera pode não ser o que há de mais estimulante. O mundo parece estar muito adoentado. O nível de vida que os pais têm hoje talvez pareça muito mais distante do que eles às vezes imaginariam. E depois, há muitas crises. A crise da habitação é só uma das crises, a crise ambiental, a crise migratória, a crise financeira, etc. E no meio destas crises todas, aquilo que a mim preocupa é que às vezes nós não paramos uns minutos para perguntar: mas qual é a motivação deles quando olham por diante? No sentido de dizer: "Eu vou prosperar, eu vou crescer, eu vou ter uma vida boa", porque a impressão que dá é que eles não têm essa perspectiva no imediato e, portanto, parecem alheados. Às vezes os políticos acham que eles não ligam à política. Eu não acho nada disso. Eles não ligam é à maior parte dos políticos, porque me parece que eles não falam para os jovens de maneira clara e de maneira a darem-lhes um sentido de esperança. E depois as escolas e os pais não tomam estas aspirações em consideração e, portanto, eles ficam muito sozinhos, Edite. E quando há um pretexto que pega fogo, de repente, o pretexto traz outros tipos de protestos. E aquilo que a mim me preocupa é que muitos dos protestos que eles podem ter acabem por ser de uma maioria silenciosa que protesta muito discretamente, mas eu tenho medo que um destes dias, quando eles começarem a sentir que podem estar um pouco encurralados em relação aos sonhos que não podem ter, estes protestos escalem. E, portanto, o que eu acho que é urgente é que nós comecemos a pôr na agenda, nós e a política em particular, os anseios destes jovens em relação a um futuro, porque obviamente eles têm anos, mas muitas vezes parecem viver distraídos, tal é o lado opaco de páginas em branco que o futuro lhes parece trazer.
O Eduardo fala de um silêncio resignado dos pais e dos professores. O que é que deveríamos estar a dizer-lhes?
Edite, é tão estranho, sabe? Porque mesmo quando se fala da habitação, aquilo que nós observamos são jovens, portanto, aquela faixa etária que vai até os 20 e tais, e muitas vezes os avós dos jovens. É estranho que os pais dos jovens não apareçam nisso tudo. E obviamente, isto é, de facto, um silêncio mais ou menos resignado. Nós não podemos perder de vista que ao fim de 12 anos de escolaridade obrigatória e, por hipótese, quatro anos de formação universitária, quatro ou cinco, tomando em consideração os jovens que têm o privilégio de poder estudar até mais tarde, nós estamos a falar de 17 anos de formação. Não conto sequer com o jardim de infância, que é também um período particular, mas nós estamos a falar de 19, 20 anos de formação e, portanto, é um esforço que se faz no sentido de uma aprendizagem, mas que a seguir esbarra numa realidade que não pode deixar de nos apertar o coração. Isto é, eles vão ganhar como primeiro ordenado 920 €, o que não me choca, devo dizer, se for ali num período de estágio razoavelmente pequeno, como não pode deixar de ser, mas depois eles não têm forma de poder aceder a um conjunto de direitos que não são privilégios, são direitos que eles têm e que nós precisamos que eles tenham. E de facto, quando se fala de uma renda moderada de 2.300 € para ordenados de 920, há uma discrepância tão grande que é inquietante perceber que numa cidade como Lisboa, eu conheço pessoas que têm profissões diferenciadas, formações universitárias, experiências de mais de 10 anos, que vivem num quarto Isto é que nos deve alertar para toda uma realidade que se calhar vai ter que ser profundamente repensada. Não acho que seja só a habitação, mas vai ter que ser profundamente repensada com a participação destes jovens, de maneira que nós lhes possamos devolver a esperança, porque depois quando eles parecem alheados, pouco envolvidos, pouco sintonizados, mesmo com a discussão política, venha de onde vier, mas com implicação cívica, nós podemos perceber que eles estão numa espécie de terra de ninguém, entre uma formação imensa, que privilégio, e depois um futuro que parece muito gelatina do Royal, do qual eles têm muito medo de pensar e, evidentemente, que aqui é que nós temos que entrar, porque de outra forma, o que vai ser o futuro deles?
Ia lhe perguntar, do ponto de vista psicológico, o que é que custa viver neste presente que não se consegue transformar em autonomia?
Isso faz lembrar as miras técnicas que dantes existiam na televisão. Mas, de repente, o que é que nós temos? Temos um futuro que é uma floresta de pontos de interrogação. E aquilo que era muito importante que nós tivéssemos a noção é que nós precisamos de eleger desejos. Desejos! "Quero ir por aqui." Porque é isso que, de alguma forma, da multiplicidade imensa das escolhas que temos à nossa disposição, nos permite depois ter a determinação, a motivação de que se fala, para conviver com sacrifícios, com estratégias de crescimento para lá chegar. E aquilo que a mim me parece é que depois, perante tantas interrogações, o desejo pode não ser possível, porque depois aquilo que fica é o que se tiver mais à mão. E a diferenciação profissional, a singularidade de cada um, a maneira de cada um se afirmar com tudo aquilo que tem de diferente e de privilégio, que traz massa crítica aos sítios onde estão, para que eles também possam crescer, fiquem envolvido nesta espécie de estado atormentado que faz com que o crescimento deles seja muito inquietante. Ou seja, nós damos tudo e mais alguma coisa para que os nossos filhos tenham um futuro melhor e esta conjuntura toda faz com que eles perguntem: "Futuro? Mas que futuro?" Quando nós falamos com adolescentes é tão desconcertante, porque quando nós perguntamos a um adolescente: "Olha lá, mas quais são os teus sonhos, pensando aquilo que podes fazer?" E alguns, certamente os mais insolentes, aqueles que manifestam de uma forma mais desafiadora muitas das dúvidas e das inseguranças que têm, são aqueles que perguntam: "Mas os sonhos são importantes para quê? É importante sonhar para quê?" E, portanto, quando eles não podem sonhar, quando eles não podem desejar, nós estamos a fazer tudo bem feito. Esquecemo-nos de lhes criar esse condimento indispensável ao seu crescimento e sem ele, eu receio que eles tenham competências imensas, possam é não crescer.
O perigo maior é o protesto ou a indiferença?
Não. O protesto é uma coisa muito bonita. Eu devo dizer que é muito bonita. Volto a dizer que o protesto, fora de todos os exageros e de todos os aproveitamentos maus que muitas vezes aparecem em tudo isto, o protesto é uma manifestação de esperança. É bom, é um rasgo de esperança. Afinal, eles não estão a dormir. O pior de tudo é mesmo a indiferença. É quando eles parecem envolver-se numa espécie de tanto faz, como se tudo lhes fosse razoavelmente indiferente em termos sociais, em termos políticos, em termos cívicos. E, portanto, o protesto de que se fala com algum alarme, e por isso é que eu acho que nós devíamos tomar isto como um sinal, é, porventura, dentro de tantos silêncios que às vezes eles parecem ter, um primeiro sinal de esperança. Eles não estão a dormir. Agora é só aproveitarmos a vitalidade destes jovens e corresponder-lhes dando-lhes a esperança ou legitimando a esperança que eles precisam de ter para que o futuro não seja uma miragem.
Eduardo, ficamos por aqui hoje. Voltamos na segunda-feira com mais um tema, amanhã é fim de semana. Bom fim de semana, até segunda-feira. Um grande abraço.
Também para si, até segunda-feira. Muito obrigado, Isabel.