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Dois filhos na mochila

Em Buenos Aires nunca se está tempo demais

Da história de Evita às personagens de Quino, dos passos de tango à arte provocante de Yoko Ono, não faltaram motivos de interesse na semana que passámos na cidade com mais pinta da América do Sul.

Com as mais famosas personagens de Quino, no bairro de San Telmo.

A nossa semana anterior no reino da bicharada, em espírito National Geographic, deixou-nos com alguma fome de urbanidade. Pudemos saciá-la em Buenos Aires, onde as avenidas largas chegam a ter seis faixas em cada sentido e o estilo da construção faz-nos pensar que estamos em Paris ou Madrid. Ficámos nove dias, e poderíamos ter ficado outros tantos.

Viajar com os miúdos altera as nossas prioridades turísticas. Em vez de procurarmos uma milonga de tango ou de irmos admirar os prédios de art nouveau, fomos primeiro ao Parque de la Costa, uma feira popular nos arrabaldes.

Outro sucesso junto das crianças foi o banco onde a Mafalda do Quino e os seus amigos nos esperavam em San Telmo, o bairro onde viveu o seu autor. Mesmo sem a Luisinha conhecer a contestatária personagem com um penteado igual ao seu, nem o nosso Manelinho saber da avareza do seu homónimo da BD, foi amor à primeira vista e os nossos petizes não descansaram enquanto não subiram para as cavalitas das estátuas.

Uma boa surpresa foi o Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, onde estava uma exposição de Yoko Ono, cheia de saudáveis provocações e de convites à participação dos visitantes. Habituados a serem policiados nos museus para que não toquem em nada, os miúdos nem queriam acreditar que ali podiam (e deviam) mexer em tudo.

Estivemos instalados no maior hostel da Argentina, onde a média de idades devia estar a meio caminho entre a nossa e a dos miúdos. A cozinha partilhada atenuou no nosso orçamento o efeito da inflação galopante no custo de vida deste país. Os preços que vinham no nosso guia Lonely Planet de 2013 triplicaram nos últimos três anos e, durante a nossa estadia, foi anunciado um aumento de 300% nas tarifas do gás.

Aproveitámos para fazer dois percursos guiados a pé. O primeiro levou-nos até ao bairro La Boca, dominado pelo azul e amarelo do Boca Juniors. Contou-nos o guia que o clube começou por ter um equipamento cor-de-rosa, mas havia outra equipa a vestir a mesma cor. Fizeram um jogo entre os dois para decidir quem podia manter essa cor, e o Boca perdeu. O presidente do clube foi até ao porto, que fica perto do estádio, e disse que ficaria com as cores do primeiro navio que chegasse. Calhou ser um navio com a bandeira sueca.

Apesar da concentração de turistas e lojas de souvenirs à volta da colorida rua do Caminito, o bairro é um dos mais pobres da cidade e as suas casas antigas, construídas com chapas e madeira dos navios, obrigam a chamar com frequência os bombeiros, como pudemos testemunhar ao vivo.

A outra visita guiada foi pelo bairro do Retiro, com lojas chiques e antigos palacetes transformados em embaixadas e edifícios públicos. O passeio terminou no Cemitério de Recoleta, curiosamente o local mais visitado da cidade. Ali estão sepultados quase todos os Presidentes da República e vários notáveis, mas o jazigo mais popular é um dos mais discretos, onde repousam os restos de Evita Perón. Passados mais de 60 anos da sua morte, continua a ser uma figura muito popular na Argentina.

Para acabar em grande a estadia em Buenos Aires, foi lá que festejei os meus 36 anos, dividido entre a curiosidade do espírito e os prazeres da carne. Curioso de saber mais sobre a biografia do Papa Francisco, levei a família a fazer o circuito de autocarro oferecido pelo município, que vai desde a sua infância no bairro de Flores até à zona da catedral onde era arcebispo. Terminámos junto ao quiosque para onde Bergoglio telefonou de Roma, a avisar para não lhe enviarem mais o jornal.

Ao jantar, fomos ao “templo da carne”, como se autointitula o restaurante La Brigada, decorado com camisolas de futebol e abrilhantado pelas dedicatórias de Maradona e Messi. Quando o empregado trouxe para a mesa os nossos bifes, serviu-nos cortando a carne com uma colher. Acho que não é preciso dizer mais nada sobre a sua consistência.

Falta-nos agora um mês de viagem. Nos próximos dias, vamos cruzar o Uruguai, o país mais pequeno do nosso percurso, até entrarmos no sul do Brasil. Até à próxima crónica, siga as nossas descobertas no blogue O Verbo Ir, no Facebook e no Instagram.

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