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Dois filhos na mochila

Da beleza das Cataratas à terra prometida de São Paulo

Em Iguaçu, deixámo-nos molhar pelas Cataratas e pusemos um pé no Paraguai. Seguiu-se o prometido encontro com os primos em São Paulo e uma visita a uma comunidade que nos cativou em Montes Claros.

As Cataratas do Iguaçu foram a maior beleza natural que vimos na nossa viagem.

Getty Images/iStockphoto

Eleitas entre as Sete Maravilhas da Natureza, as Cataratas do Iguaçu eram um ponto imperdível no nosso percurso. E merecem ser vistas dos dois lados, brasileiro e argentino. Assim fizemos, não sem antes termos ficado um dia presos no hotel por uma bátega de chuva. Água a cair com força é, de facto, a especialidade daquela terra.

Se do Brasil dá para tirar fotografias mais panorâmicas, no lado argentino vamos por umas passadeiras até ver de cima as quedas de água. Num e noutro, é inevitável sairmos encharcados, porque dá para ir até muito perto das cataratas. O animal mais presentes no parque natural é o quati, primo do guaxinim, que tem um ar fofinho mas ataca quem tiver comida; também vimos tucanos e até um macaquito.

Já que tínhamos perdido a Bolívia, aproveitámos a oportunidade de ter o Paraguai à distância de uma ponte para voltarmos a ter oito países na história desta viagem. Mas dez minutos na cidade de Punta del Este, um gigante e desorganizado mercado ambulante, bastaram para nos pôr em debandada. Cruzámos de novo para o Brasil, para logo apanharmos um autocarro para o lado argentino das Cataratas. Pisámos assim três países em 45 minutos.

Fora as Cataratas, a cidade é feiinha, mas tivemos a sorte de ficar alojados mesmo ao lado do restaurante número 1 do TripAdvisor, o Empório Com Arte, onde também comemos com os olhos. Parecia que estávamos a almoçar em casa de uma avó, e todos os elementos de decoração podiam ser comprados. Tivéssemos nós espaço para os levar…

Alguma coisa acontece no meu coração, canta Caetano, e assim foi para os nossos filhos a chegada a São Paulo. Os primos não moram no cruzamento do Ipiranga com a Avenida São João, mas num elevadíssimo andar do bairro de Pinheiros, e as últimas semanas — até o último percurso de metro! — foram medidas na contagem decrescente de quando dias (ou paragens) faltavam para chegarmos aos primos.

Nem foi preciso “fazer programas”, bastou mesmo brincarem juntos de manhã à noite, coisa rara para quem quase só se encontra no Natal. Também deu para os nossos matarem a fome de brinquedos e desenhos animados — e eu saciar a fome de ver futebol português em direto, já agora.

Domingo foi dia de irmos ao clube, lugar seguro de descanso e diversão para quem vive numa cidade menos segura. A meio da brincadeira, uma menina perguntou à Luísa “quem é a tua babá?”, e ela ficou sem saber o que responder.

A meio da estadia com a família, fomos passar cinco dias a um lugar onde sempre fomos felizes. O desvio ao interior de Minas Gerais não foi ditado pelo interesse turístico, mas por uma história de afetos. Durante a faculdade, fiz uma missão de voluntariado num bairro da periferia de Montes Claros. E, como somos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos (e que nos cativam), passei por lá de cada vez que voltei ao Brasil. A última tinha sido na nossa lua-de-mel, por isso fazia todo o sentido voltarmos agora para apresentar os filhos.

O bairro cresceu e as ruas, que eram de terra, já têm asfalto. Os miúdos que conheci pequenos estudaram e têm hoje mais oportunidades de emprego. Neste pedaço do “Brasil real”, as casas são pequenas e humildes, mas há sempre um abraço apertado para nos receber e um suco para refrescar a conversa. Como está fulano e sicrano? Casou, já tem filhos?

A Luísa foi apaparicada pelas outras meninas, e ao primeiro dia já estava com as unhas pintadas. Na casa onde ficámos, o Manel era sempre o primeiro a acordar e saía sozinho para o quintal, para correr atrás das galinhas. O muito calor que se sentia era cortado por um banho de mangueira. À noite, juntávamo-nos aos vizinhos na rua e no boteco da esquina.

Antes de regressarmos a São Paulo, perguntámos à Luísa se achava aquele bairro parecido ou diferente de onde nós vivíamos. “Diferente”, respondeu. “Aqui não há prédios, só casas…” Apenas notou isto, como quem só vê a vantagem de ter mais espaço para brincar. É esse olhar puro que queremos preservar neles o mais que pudermos. Essa empatia espontânea com o outro, venha donde vier, é um tesouro.

“Essa porta fica aberta até ‘cê voltar.” Assim se despediu a Vó Nela, acenando do portão, com a graça dos seus 82 anos. Qualquer dia voltamos a bater-lhe à porta.

Estamos mesmo a queimar os últimos cartuchos. Vamos agora a caminho do Rio Janeiro e depois voltamos a São Paulo, de onde apanhamos o avião de regresso para Lisboa. Acompanhe a última semana da nossa viagem no blogue O Verbo Ir, no Facebook e no Instagram.

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