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Sporting. Vicente Moura demite-se de vice-presidente dos leões

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Vicente Moura apresentou a demissão do Sporting. Clube fala em razões de saúde, ex-vice admite não ter gostado das críticas de Bruno de Carvalho. E decidiu sair antes da inauguração do Pavilhão.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Comandante Vicente Moura, antigo líder do Comité Olímpico de Portugal, apresentou a demissão da vice-presidência do Sporting. O pedido, irrevogável, entrou ontem, quarta-feira, mas apenas hoje foi tornado público. O clube alegou oficialmente razões de saúde para a saída, mas o dirigente assume que não gostou da forma como Bruno de Carvalho, presidente dos leões, criticou de forma aberta o desempenho desportivo das modalidades no último post que fez no Facebook. E acabou por precipitar uma decisão que, ainda assim, só deveria acontecer depois da inauguração do novo Pavilhão João Rocha.

“O Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting Clube de Portugal informa que, alegando motivos de saúde, o vice-presidente para as modalidades do clube, Comandante José Vicente de Moura, lhe solicitou a dispensa do cargo executivo que desempenhava até agora”, explica o clube verde em branco em comunicado.

“Ao Comandante Vicente de Moura, e em nome dos órgãos sociais e dos sócios do Sporting Clube de Portugal, agradeço todo o esforço, dedicação e devoção com que sempre serviu o clube e manifesta o reconhecimento devido pelo contributo que deu para o engrandecimento do Sporting e para que o ecletismo continuasse a ser parte indispensável do nosso ADN”, termina a missiva assinada pelo líder da Assembleia Geral, Jaime Marta Soares.

À Rádio Renascença, Vicente Moura confirmou os dois motivos para o afastamento: razões de saúde e descontentamento com as recentes declarações de Bruno de Carvalho. “Se ser vice-campeão europeu de futsal é considerado um desastre, o que faço? Não faço nada. É uma visão diferente do presidente mas isso tem a ver com a pátria desportiva, que vê sempre dois contendores: um que ganha e outro que perde. Até agora, foi fácil conciliar estas duas visões mas agora não vou continuar a prejudicar a minha saúde quando não apreciam o meu trabalho. Tenho mais que fazer e tenho de cuidar da minha saúde, que é o mais importante”, destacou.

Como o ciclismo fortaleceu a relação com Bruno de Carvalho

Vicente Moura passou pela primeira vez pelo Sporting em 1995, aquando da presidência de Pedro Santana Lopes, como coordenador da iniciação desportiva e da manutenção desportiva das modalidades então praticadas Nave. Ainda assim, foi um período curto, ao contrário do atual: entrou como vice-presidente para as modalidades dos leões no elenco de Bruno de Carvalho em 2013, tendo mantido o cargo no recente sufrágio.

De acordo com algumas fontes contactadas pelo Observador, a saída de Vicente Moura era um dado adquirido ainda antes da publicação de Bruno de Carvalho no Facebook, que visava também o rendimento das modalidades. Aliás, o próprio Comandante, que está há algum tempo a escrever um livro com as suas memórias, sempre disse que não continuaria depois das eleições de 2017, mas acabou por ficar em nome da estabilidade do projeto liderado pelo atual presidente e também para poder ter aquilo que apelidou de “honra” de inaugurar o novo Pavilhão João Rocha. Em termos estatutários essa possibilidade mantém-se, porque a resignação poderá só ter efeitos práticos a 30 de junho.

Com um extenso currículo na área do dirigismo desportivo, tendo chefiado diversas Missões aos Jogos e liderado o Comité Olímpico de Portugal entre 1990 e 1993 e 1997 e 2013, Vicente Moura foi encarado como Bruno de Carvalho como uma peça fulcral para o renascimento das modalidades do Sporting. Nos últimos anos, além do regresso do hóquei em patins e do ciclismo ao clube, o clube inaugurou diversas novas modalidades, estando agora acima das 50. A Taça CERS de hóquei em patins de 2015 e a Taça dos Clubes Campeões Europeus de Atletismo da equipa feminina em 2016 foram os dois títulos mais emblemáticos entre muitos conquistados desde 2013.

O ciclismo foi, aliás, um motivo que fortaleceu, e muito, a relação entre Vicente Moura e Bruno de Carvalho: em dezembro de 2015, o Comandante sofreu um enfarte, naquele que descreveria mais tarde como o maior susto da sua vida, pouco depois da quebra do acordo entre os leões e a W52 para a constituição de uma equipa que permitisse o regresso da modalidade ao clube. Foi nesse momento que o presidente leonino assumiu as rédeas do processo, esteve em contacto com três equipas e chegou a acordo com o Clube de Ciclismo de Tavira. No dia seguinte a apresentação do Sporting CP/Tavira, em Alvalade, num clássico com o FC Porto, Bruno de Carvalho foi visitar Vicente Moura e levou consigo um poster dos 11 corredores (faltou um) formados com o equipamento verde e branco.

Como as críticas às modalidades levaram à saída de Vicente Moura

No entanto, a ligação acabou por quebrar após o post colocado por Bruno de Carvalho na passada terça-feira, no Facebook, onde o presidente leonino deixou duras críticas às modalidades. “A cada mau resultado (…) lá vem a onda de apoio aos ‘meninos’. Nas modalidades é confrangedor. Perdemos jogos e lá estão as bancadas a aplaudir os ‘seus meninos’ e a acarinhá-los. (…) Neste clube, treinadores e atletas têm como missão dar-nos bons momentos e evitar os maus. (…) Estes ‘meninos’ têm que ser sempre homens e ganhar os seus jogos e conquistar títulos, sem desculpas, sem estar sempre a falar de arbitragens, sem usar adversidades inexperadas ou o azar, percebendo que têm de fazer muito mais”, escreveu na longa publicação deixada na rede social.

Vicente Moura soube mensagem antes de ser publicada. E logo aí terá dito que não gostou da forma como Bruno de Carvalho se manifestou contra os resultados das modalidades, mesmo sabendo que vieram no seguimento de um fim-de-semana em que o futsal perdeu nas meias-finais da Taça de Portugal com o Benfica e em que o andebol voltou a vacilar nos instantes finais contra o FC Porto, num jogo onde os leões precisavam de ganhar por dois golos mas sofreram o 28-27 no último segundo… do meio-campo. O dirigente sente que todas as equipas das maiores modalidades foram reforçadas como deveriam mas que, no desporto, pode ganhar-se ou perder-se. No caso do futsal, por exemplo, os três Campeonatos, duas Taças, duas Supertaças, duas Taças da Liga, três Taças de Honra e duas finais europeias da UEFA Cup desde 2013 não mereciam o duro ataque após a pesada derrota contra o Inter Movistar, no Cazaquistão.

O agradecimento pelo trabalho e pela disponibilidade… e o regresso do voleibol

À noite, através de um post colocado no Facebook pelo diretor de comunicação social, Nuno Saraiva, o clube voltou a abordar a questão. E Bruno de Carvalho agradeceu a Vicente Moura a passagem pelo clube, num texto que confirmou também oficialmente o regresso do voleibol aos leões, que já tinha sido assumido pelo ex-vice-presidente.

“Foi com a atual direção que o Sporting passou de 35 modalidades para 53. Mas, esta época, fez-se muito mais, duplicando o orçamento nas chamadas modalidades profissionais. Todo este dinheiro foi conseguido com muito esforço e trabalho e não veio de subsídios ou apoios estatais, pelo que não nos podemos dar ao luxo de ficar contentes com pouco pois os Associados fazem um esforço muito grande para pagar as suas quotas. Aqui, no Sporting, não podemos ficar contentes apenas com alguns sucessos. Temos que aspirar a ganhar, vencer tudo. Talvez quem sempre tenha tido todos os recursos possa ter um grau de exigência pequeno quando os resultados são parcos. Mas quem teve de trabalhar, 24h sobre 24h para financiar tudo, tem que ter respeito por si, pela sua equipa e pelos seus adeptos e associados”, escreveu.

“Não abdicamos da excelência e da exigência máxima. E para o Sporting ser segundo tem de corresponder sempre a ser o primeiro dos últimos. Se não for assim, o que interessa servir este clube? Queremos agradecer o trabalho do Comandante Vicente de Moura que não queria, de facto, continuar devido à sua saúde e que episódios recentes provocaram novos alarmes. Decidiu acrescentar mais comentários à sua saída. No que respeita ao presidente do Sporting, este agradece a sua disponibilidade e trabalho mas promete aos sportinguistas que continuaremos sempre a trabalhar de dentro para fora e não de fora para dentro, e a zelar pelos superiores interesses do clube. E estes são honrar e dignificar o desporto português e ganhar sempre. Que o Comandante mantenha uma vida de sucesso e saúde, e o Sporting continuará a ter a visão de ser, mais do que tão grande quanto os maiores da Europa, tão grande quanto os maiores do Mundo”, completou.

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