Crítica de Livros

Elias Canetti e o prazer do ensaio

O que se pode dizer deste livro, no seu todo, é aquilo que se pode dizer do bom ensaísta. Cada um dos ensaios não merecia apenas uma resenha, merecia tornar-se um livro independente.

Elias Canetti e a mulher, Hera Buschor

Getty Images

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “A Consciência das Palavras”
Autor: Elias Canetti
Editora: Cavalo-de-ferro


Aqui a ordem inverte-se: muitos se chamam ensaio, mas não são mais do que uma encenação. Monos académicos completíssimos, chamados ensaios como salvaguarda cobarde contra um esquecimento qualquer; colunas mal-arquitectadas de jornais promovidas a ensaio, como que a insinuarem que há no autor muito mais conhecimento do que aquele que esparge pelo povo; o ensaio é um tubo largo para qualquer experiência filosófica, qualquer recolha antropológica ou qualquer veneta política. Tudo se pode ensaiar e de todas as maneiras. No entanto, o puro, o verdadeiro, o original ensaio tem uma tradição específica que é provavelmente um dos maiores encantos da leitura.

O abastardamento do género é facilmente verificado: basta, por exemplo, entrar numa livraria e procurar a secção de ensaio. Nalguns casos, a secção vem mesmo acoplada às ciências sociais, ensaio/ciências sociais, separada apenas por uma barra que na verdade não barra coisa alguma. O autêntico ensaio, o ensaio que, à boa maneira religiosa, tem Montaigne como princípio e fim, causa e modelo, não se confunde com nenhum tipo de obra. Não é um estudo à maneira científica, como resultado de uma investigação, mas um estudo à maneira da pintura, concentrado nos traços gerais e nas particularidades mais curiosas.

O ensaio, no seu sentido primordial, é a antítese do trabalho académico. Quando Maguel escreveu sobre Chesterton, um dos príncipes do género, essa foi uma das características que considerou mais importantes: “A sua prosa é o oposto da prosa académica, é rejubilante”, disse. E, de facto, ao contrário do estilo académico, em que cada opinião é defendida por um exército de estudiosos, no ensaio o autor só responde perante o seu gosto e a sua cabeça; ao contrário do estilo académico, em que o estudo aturado dessora as emoções em prol de uma objectividade académica, do ensaio recende de cada linha a impressão do autor.

Esta é uma das características que torna mais difícil a existência de um bom ensaio. Por um lado, é a forma em que a inteligência está mais exposta: não se escuda em senadores filosóficos, não troca a argúcia da análise pela exegese minuciosa, é um trabalho de génio e não de persistência. Por outro, se não se tratar de um ensaio filosófico ou ideológico, exige um extraordinário poder evocativo. O ensaio de Thackeray sobre Swift não tem os malabarismos lógicos dos ensaios de Chesterton; contudo, é a mais cabal prova do seu brilhantismo como escritor. A intercadência de factos e apartes literários é tão viva, tão ritmada, que o leitor quase cora de se ver imerso na vida íntima de Swift; Thackeray não biografa propriamente Swift: escolhe uma centelha da sua vida e alarga-a com a imensidão do seu génio.

Os grandes ensaios precisam de uma grande inteligência ou de uma grande capacidade evocativa precisamente porque estão voluntariamente postos num lugar mais baixo da hierarquia intelectual. Na tradição de Montaigne, os ensaios poucas vezes são sobre a essência das coisas. Não se perdem em análises de definições ou em fórmulas novas, são mais ilustrativos do que dogmáticos. Montaigne prefere dar exemplos da lealdade de La Boétie para ilustrar a amizade a perder-se em manobras escolásticas de definição.

A arte do ensaio passa muito por este método. O leitor despreocupado não nota as cadências lógicas. A movimentação de uma ideia para as suas consequências é lenta e imperceptível, através de histórias e historietas, de tal forma que cada episódio vale por si mas também como elo numa invisível cadeia lógica. A leitura de um bom ensaio é descansada porque as teses, o abstracto, mais do que provadas, são mostradas.

Quem lê os ensaios de George Steiner consegue perceber bem a mestria deste movimento: há uma volúpia cultural que é saciada no vaivém de cafés e círculos intelectuais da europa, e que ameniza a discussão dura sobre os problemas da essência da linguagem ou da tradução.

Há no bom ensaio um estilo impressivo próprio do grande escritor, uma cópia de informação própria do sábio e uma clareza na formulação de problemas própria do Homem inteligente. Um bom ensaísta é a potência de todas as faculdades do Homem de letras, sem que nenhuma esteja absolutamente trabalhada. Não é um vate, nem um erudito, nem um filósofo, ou pelo menos não deixa que nenhum destes aspectos subjugue os outros.

Como o próprio Canetti admite, é difícil recensear um livro cuja unidade está apenas na mesma capa a envolver todos os ensaios. É possível, de facto, olhar para os ensaios um a um. As linhas sobre Karl Kraus são das que melhor explicam o atractivo e o método do martelo da burguesia austríaca, o ensaio sobre Broch faz dele a síntese de uma figura que merecia ser mais explorada – a figura do “escritor nacional” – e o longo ensaio sobre as relações entre Kafka e a sua noiva, além de humanizar o escritor checo, prova um conhecimento assinalável da sua obra e espírito.

O que se pode dizer deste livro, no seu todo, é aquilo que se pode dizer do bom ensaísta. Cada um dos ensaios não merecia apenas uma resenha, merecia tornar-se um livro independente. Nisto não é como Orwell, que estende os ensaios à medida do problema: com Elias Canetti pode haver casos mais ou menos curiosos, mas há sempre um fundo importante, nunca uma bagatela ou um simples entretém. Canetti tem uma invejável capacidade de expressar aquilo que na leitura é vago ou confuso. É, de facto, mais fácil perceber o que nos fascina em Broch ou em Karl Kraus depois de ler Canetti do que depois de ler Kraus ou Broch. Aquilo que é mais interessante em Canetti não são os seus pensamentos originais – é a forma como desvenda o modo humano de olhar para as coisas. Mais do que olho de poeta, tem olho de médico, que do sintoma extrai o cerne da doença.

De resto, o seu modelo ensaístico é realmente aquele que dá o maior prazer do ensaio. É cosmopolita e profundo, sente-se-lhe a Europa debaixo dos pés, eleva o leitor ao diálogo constante e íntimo com a cultura Europeia. Terá, talvez, como tantos apaixonados pela cultura, o problema da tolerância: de tanto admirar tantos e tão contraditórios mestres, não pode amar nenhum com o fervor de apóstolo. É, talvez, a única paixão humana que lhe parece estar vedada; é também a única, porém, em que não parece estar interessado.

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