Oito pessoas morreram e 46 ficaram feridas na sequência de um incêndio na Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, no concelho de Tondela (Viseu). O Observador explica-lhe como tudo se passou e o que falhou neste fogo.

Como começou e como se propagou o incêndio?

Os bombeiros receberam o alerta às 20h53. Em declarações ao Observador, José António de Jesus, presidente da Câmara de Tondela, explicou que “uma salamandra de aquecimento terá provocado um foco de ignição na cobertura do teto falso do primeiro piso” do edifício.

O aparelho de aquecimento tinha um tubo que o ligava ao telhado do edifício, mas que passava por um teto falso, que continha placas de gesso cartonado, com material de isolamento e fibra de vidro, e que rapidamente “ganhou combustão”. De acordo com Ricardo Ribeiro, presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (AsproCivil), os materiais do teto falso além de serem “inflamáveis”, podem emanar “gases tóxicos” caso se incendeiem.

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O comandante Carlos Dias, dos Bombeiros Voluntários de Tondela, explica que “o aumento da temperatura em contacto com aquele tipo de material [do teto falso] fez com que os gases que se acumulam no topo da chaminé saturassem, começassem a descer. Os gases solidificaram, acumularam-se ali [entre o teto falso e o telhado], e no contacto com aquele material inflamável, entram em combustão.” Isso levou a que o teto desabasse e o ar ficou saturado de partículas tóxicas.

O autarca referiu ainda que a abertura de uma janela terá permitido “a entrada de massa de ar” e “acelerado a combustão”, criando uma densa massa de fumo e fazendo com que as pessoas ficassem desorientadas e perdessem as “fontes de referência” no momento da fuga. “Este tipo de fogos resolve-se sem água, basta tirar o oxigénio. Aqui, com o pânico, as pessoas abriram as janelas, o ar entrou e foi aí que houve a explosão”, acrescenta o comandante Carlos Dias. “Tanto que quando lá chegamos [os bombeiros], não havia chamas.”

Quantas pessoas estavam no local?

De acordo com o presidente da Câmara de Tondela, estavam entre 60 a 70 pessoas na associação recreativa no momento do incêndio enquanto que a Proteção Civil fala em cerca de 70. No primeiro andar decorria um torneio de sueca enquanto no rés-do-chão havia outras pessoas a jogar snooker e a ver o início do jogo entre o Benfica e o Sporting de Braga.

Por que morreram tantas pessoas?

As pessoas que morreram estavam no primeiro andar do edifício e precipitaram-se pelas escadas para fugir ao fogo. Segundo o autarca de Tondela, o pânico levou a que algumas pessoas caíssem entre as escadas e a porta que dava para o exterior do edifício. Com as pessoas caídas, não foi possível sair, uma vez que a porta abria para dentro do edifício. Foi preciso um jipe para arrombar a porta, que estava fechada devido ao frio.

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Só havia uma saída?

Não. Existia uma segunda porta no salão onde se encontrava o bar e a televisão, que transmitia o jogo de futebol, e pela qual terão saído grande parte daqueles que se encontravam no rés-do-chão. “Se [as pessoas que desceram as escadas] tivessem virado à esquerda, teriam um salão com outra porta para o exterior”, explica José António de Jesus. O autarca acredita que o pânico e a densidade do fumo levou a que as pessoas não discernissem que havia uma saída alternativa.

“Quando chegámos, os bombeiros encontraram uma pilha de corpos. De certeza que não conseguiram sair pela porta da esquerda porque se pisaram e amontoaram uns em cima dos outros, quando caíram das escadas”, acrescentou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela.

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Em que estado estava o edifício?

De acordo com o presidente da Câmara de Tondela, a associação recreativa existia há mais de 30 anos e o edifício, localizado no centro de Vila Nova da Rainha, apesar de já ter “alguns anos” estava “em bom estado de conservação”. Também o presidente da Assembleia Municipal de Tondela, Carlos Cunha, refere ao Observador que o edifício não se mantinha no seu estado “de raiz”, tendo sofrido acrescentos e obras na última década, nomeadamente no piso superior.

Ao que o Observador apurou junto dos moradores, as obras iam sendo feitas com o dinheiro que a associação ia conseguindo recolher, nomeadamente através de almoços, jantares convívio, como o que acontecia no final dos dois meses de torneio de sueca. O piso de cima, onde decorria o torneio, era também usado para aulas de ginástica. “Mas era um piso secundário, a maior parte das atividades da associação decorria no andar de baixo”, conta uma frequentadora dessas aulas de ginástica, que não se lembra de ver extintores nas instalações. “Se houvesse era no andar de baixo, porque o de lá de cima quase não era usado”, insiste.

O que poderia ter sido feito para evitar este incêndio?

No que toca à salamandra, Ricardo Ribeiro, presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (AsproCivil), não tem dúvidas: tendo em conta o material inflamável do teto falso, a descarga deveria ser feita diretamente para a rua por uma “parede de alvenaria” ou por “uma janela”. “Nunca por um teto falso.”

Também o comandante Carlos Dias, dos Bombeiros Voluntários de Tondela, considera que “não é correto” que o tubo de uma salamandra dê para o teto falso, mas considera que é prática recorrente. “Normal é, não é é correto”, disse ao Observador. E se não houvesse aquele tipo de teto falso? “Isso é fazer futurologia, mas de certeza que evitava muita coisa, porque as pessoas foram banhadas com o produto inflamado a cair em cima delas”, acrescentou o comandante.

Para Ricardo Ribeiro, contudo, o grande problema não foi a salamandra, mas sim a falta de “medidas de prevenção de incêndios urbanos naquele espaço” e a “falta de medidas de segurança para receber um evento de 70 pessoas”. Recorde-se que esta era uma iniciativa que ocorria no mesmo local há 16 anos, todos os sábados dos meses de janeiro e fevereiro.

O espaço respeitava as medidas de segurança?

Ricardo Ribeiro não tem dúvidas de que o espaço não cumpria as medidas de segurança necessárias para receber um evento com 70 pessoas. A primeira questão é a de não ter portas com barras anti-pânico, isto é, portas com uma barra de metal a meio que permitam uma abertura e saída rápidas. “A porta abria para dentro e, no meio do pânico, as pessoas encaminharam-se todas para a porta. A primeira pessoa que chegou tentou abri-la, mas não conseguiu porque foi empurrada pelas outras”, explica. E mesmo que a porta abrisse para fora, acrescenta o responsável pela AsproCivil, era necessário ter a barra anti-pânico para que, quando o aglomerado de pessoas fizesse força para sair, ela se abrisse automaticamente.

O Regulamento Técnico de Segurança contra Incêndio em Edifícios, publicado em Diário da República a 29 de dezembro de 2008, define as características das portas que podem ser utilizadas por mais de 50 pessoas. Uma delas é “abrir facilmente no sentido da evacuação”, o que não aconteceu no caso desta porta.

O presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil destaca ainda a necessidade de haver “planos de evacuação e de emergência”. O regulamento refere também que os edifícios devem ter “no seu interior meios próprios que permitam a atuação imediata sobre focos de incêndio”, nomeadamente “extintores portáteis e móveis”, e devem “ser equipados com instalações que permitam detetar o incêndio e, em caso de emergência, difundir o alarme para os seus ocupantes, alertar os bombeiros e acionar sistemas e equipamentos de segurança”.

Os bombeiros, contudo, não souberam esclarecer se a associação tinha planos de emergência ou de evacuação, extintores ou detetores e alarmes de incêndio, uma vez que, de acordo com o comandante Carlos Dias, os licenciamentos e a fiscalização do alvará são da responsabilidade do município.

É possível que isto volte a acontecer?

Ricardo Ribeiro não descarta a possibilidade de uma tragédia destas se voltar a repetir. O especialista sublinha que esta falta de medidas de segurança é recorrente em muitas associações em todo o país, visto que se trata de associações sem fins lucrativos e com “muitas condicionantes financeiras”. “Mas isto não pode justificar as oito mortes”, defende.

A solução, acrescenta, passa ou por proibir “este tipo de eventos com um determinado número de pessoas em locais sem condições de segurança” — o que não seria a melhor solução, tendo em conta o “serviço” que estas associações prestam à população — ou “o Estado desenvolver apoios que permitam a estas associações terem medidas de segurança nos eventos que promovem”.

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