Pompoar, a rainha da ginástica do prazer

18 Dezembro 2016557

É uma técnica oriental que melhora a saúde e o prazer das mulheres através de exercícios com os músculos vaginais. O Observador esteve num workshop de pompoarismo, a arte que revoluciona casais.

Educação sexual para adultos

Ana conhecia Helena, que por sinal era amiga de longa data de Maria, e tinha trabalhado na mesma empresa de Alexandra. Marcaram encontro às 18h30 na casa de Ana nos arredores de Lisboa, apesar de apenas se terem “conhecido” num grupo de conversa da aplicação WhatsApp criado uma semana antes. De leggings pretas e com um colchão de ioga debaixo do braço, cumpriram a rigor as indicações que tinham recebido da formadora por e-mail, dias antes. A campainha toca. “É a Carmo, a professora de pompoar”, ouve-se.

Do lado de cá, quatro mulheres prontas para aprender a arte do controle e movimento dos músculos vaginais, mais conhecido por pompoarismo. “São três horas de workshop. Vamos ter tempo para falar de tudo”, começa por explicar Carmo Gê Pereira, especialista em sexualidade feminina.

Os preparativos são simples. Carmo pede às alunas para se descalçarem, colocarem o colchão no chão e criarem um círculo, de forma a que “todas se vejam”. A roupa colante permitirá à professora ver os exercícios. “Quero-vos o mais confortável possível”, diz enquanto coloca em linha reta alguns objetos como vibradores, bolas e lubrificante. “Este é o meu útero e a minha vagina”, explica enquanto mostra dois peluches, cinza e rosa, respetivamente.

Os peluches que representam o útero e a vagina. © André Marques/Observador

A expectativa é grande. A cara das alunas na casa dos 30 anos não engana. “Vamos falar da história e tradição do pompoar, da fisiologia feminina e auto imagem, e, claro, fazer exercícios”, começa Carmo Gê Pereira. Tem 34 anos, é formada em Comunicação, uma pós-graduação em Estudos sobre Mulheres e Sexologia e várias formações como assessora erótica. “Defino-me como uma educadora sexual para adultos.”

A consultora está ligada à sexualidade feminina portuguesa desde 2008. “Comecei a interessar-me pela área quando trabalhei numa empresa de tuppersex no Porto”, recorda às alunas. A falta de conhecimento das pessoas chamou-lhe à atenção. “ Quando ficavam sozinhas comigo, contavam coisas mais íntimas e pediam-me conselhos”, lembra Carmo.

Decidiu procurar informação. Fez um curso em Serralves com Júlio Machado Vaz, começou a participar em encontros de ativistas e sex positiv. “Conheci o trabalho da Betty Dodson, uma senhora que começou a fazer educação sexual nos EUA nos anos 60 e que fez uma digressão pelo país para mostrar os desenhos de vulvas e mostrar como elas podem ser diferentes”, explica às alunas enquanto pega no peluche cinza. Dodson tem hoje 87 anos e é considerada a mãe da masturbação nos EUA. Foi ela quem escreveu Sex For One, a bíblia do feminismo sexual.

Pompoar, a arte de controle e movimento dos músculos vaginais

Feitas as apresentações, voltemos ao apartamento de Ana e ao workshop de pompoar. As alunas seguem atentas as informações. Com raízes orientais, entre a Tailândia, Japão e Índia, Carmo explica que a técnica do pompoar foi parcialmente adaptada ao ocidente pelos exercícios do Dr. Kegel. “Esta técnica traz benefícios à saúde, entre os quais se contam melhoria da flora vaginal, prevenção e cura da incontinência urinária e prolapso uterino. Além de melhorar a vida sexual da mulher e do casal”, descreve a professora. Sente-se de imediato na sala um entusiasmo nas participantes. É altura de elas falarem e apresentarem os motivos que as levaram ali.

“Esta técnica traz benefícios à saúde, entre os quais se contam melhoria da flora vaginal, prevenção e cura da incontinência urinária e prolapso uterino. Além de melhorar a vida sexual da mulher e do casal.”
Carmo Gê Pereira, especialista em sexualidade feminina

”Pomp o quê?”, perguntou uma amiga de Ana na primeira vez que a gestora de comunicação comentou que andava a aprender a arte do controle e movimento dos músculos vaginais. A jovem de 30 anos tinha morado no Brasil e frequentou alguns módulos do curso lá. Assim que regressou procurou uma professora cá para continuar a técnica. “Começou por brincadeira, uma amiga que tinha acabado de ficar solteira depois de muitos anos de namoro. Fui para lhe fazer companhia e acabei por gostar”, conta.

Foi essa curiosidade que a fez juntar a Helena, Maria e Alexandra num workshop de 180 minutos. “Estou numa relação há muitos anos e quero aprender e descobrir novas coisas”, diz Maria. Tal como ela, Alexandra quer “surpreender” o marido e melhorar os momentos a dois. “Estou curiosa”, comenta, entre risos, Helena. Carmo escuta cada uma delas atentamente. “É isso que vamos fazer. Tornar as relações sexuais ainda mais prazerosas.”

“No sexo não se nasce ensinado”

Ensinar as mulheres a conhecerem o seu próprio corpo, a masturbarem-se, a intensificar e desbloquear os orgasmos são algumas das técnicas trabalhadas pela professora de 34 anos. “Não tenham vergonha de dizer que não sabem o que é ou como se faz. Estamos sozinhas. Sintam-se livres”, diz.

Carmo explica que um dos motivos que a fez abraçar este projeto é a falta de informação. “ A educação sexual que nos foi ensinada na escola fala apenas dos órgãos reprodutores”, afirma. Considera que a educação sexual dos jovens em Portugal é deficiente, com preconceitos e noções erradas. Isso traduz-se numa vida sexual pobre na vida adulta. “Há mulheres que não sabem localizar o próprio clitóris”, conta.

Musculatura do períneo feminino.

A musculatura do períneo feminino. © Wikimedia Commons

O tema começa a levantar perguntas junto das participantes. Ana interroga, por exemplo, se todas as mulheres ejaculam como “vemos nos filmes pornográficos”. Carmo ri-se. “Ainda bem que falas nisso. É um dos assuntos que me deixa doente pela falta de informação”, começa. Há quem confunda a ejaculação feminina ou squirting (termo inglês mais usado) com incontinência urinária, informa a professora. “ Está errado. Vocês sabiam que isso é provocado pelas glândulas de Skene e está provado que nem todas as mulheres possuem estas glândulas?”

É altura de outra aluna levantar outra questão. “Sinto que já faço sexo de forma automática. O que posso mudar?”, questiona uma das participantes. Carmo esclarece que é importante as mulheres conhecerem o seu próprio corpo, procurarem outras formas de prazer para além do orgasmo. “Vocês sabem qual é o lado mais sensível do vosso companheiro? E o vosso qual é? Já pararam para pensar nisso?”, interroga.

Os workshops

O workshop de Pompoarismo dado por Carmo Gê Pereira discute a história e tradição do pompoar, fisiologia feminina e auto imagem, exercícios básicos, ferramentas para a prática do pompoar, exercícios avançados e uso de técnicas pompoaristas na relação sexual. Próximas datas:

  • Pompoarismo & Auto-Erotismo, Conhecimento e Prazer – 8 de janeiro em Lisboa e 21 de Janeiro no Porto (local a confirmar);
  • Sexo e Intimidade: 22 de janeiro no Porto e 4 de fevereiro em Lisboa (local a confirmar).

Das quatro alunas presentes, não há respostas. Nunca tinham pensando nisso. “Então descubram os vossos corpos. Sentem-se frente a frente, vocês e o vosso parceiro, nus e comecem a descobrir qual é o lado que vos deixa mais sensível e dá aquele arrepio na pele”, aconselha. “O toque é fundamental.”

No meio da sua formação, Carmo Gê Pereira fez também cursos em tantra. A professora defende que é importante a descoberta para melhorar o sexo. Não é uma questão de performance como todos pensam. É o próprio ato sexual que é preciso aprender. “No sexo não se nasce ensinado”, diz.

Por isso, Carmo não fecha portas. Trabalha com mulheres e casais hetero, gay, lésbicas, trans, queer e/ou poliamorosos. “O género está para além do corpo. Uma vulva ou uma vagina não tem que ser de uma mulher, por exemplo”, diz. “A sociedade empurra-nos para determinadas situações. O que sai fora disso, passa a ser anormal”, acrescenta a educadora sexual que iniciou o projeto Carmo Gê Pereira em 2012 para dar respostas a estes casos também.

Sexo na terceira idade existe e não deve ser tabu

Através de aconselhamento privado e terapêuticas de curta duração, a especialista pretende arranjar soluções para os problemas que encontra. Seja no seu consultório no centro de Lisboa ou nos workshops mensais entre Lisboa e Porto. Sempre com lotação esgotada. “Gostava de chegar a mais gente. Preocupa-me o isolamento das pessoas que não vivem nestas duas cidades”, afirma. Confessa que é mais difícil juntar pessoas para estas sessões em cidades pequenas pela “vergonha de ser reconhecida, dos julgamentos de valor”.

O sexo na menopausa ou na terceira idade são alguns dos temas que Carmo teima em falar. “Colaborei em alguns programas de televisão em que as senhoras mais velhas ficavam com o contacto e ligavam-me com dúvidas”, recorda, acrescentando que foi uma oportunidade de chegar a outros públicos e falar sobre saúde sexual. Por isso, faz aconselhamento por Skype também, conta às alunas.

Carmo Gê Pereira começou este projeto em 2012 e atua com equipas multidisciplinares como psicólogos, psiquiatras, urologistas e ginecologistas. © André Marques/Observador

Atua com equipas multidisciplinares como psicólogos, psiquiatras, urologistas e ginecologistas. “Quando sinto que é do foro clínico, passo os meus alunos para colegas profissionais”, acrescenta. Auto imagem, dificuldade em ter prazer, fixação pelo orgasmo ou dificuldade em atingi-lo são algumas das principais dúvidas que fazem Carmo Gê Pereira ter uma agenda preenchida, inclusive aos fins de semana. “ Sinto que há um desencontro grande entre os casais. Não há comunicação e nem sabem quais os desejos que cada um tem”, diz.

Um, dois, três: vamos a isto

Passamos para a parte prática. É hora de Ana, Maria, Helena e Alexandra começarem a exercitar, aprender as primeiras técnicas e intensificar o músculo da vagina. Antes disso, uma pergunta. “Alguém tem xixi? É importante esvaziar bem a bexiga antes de começar os exercícios”, diz a professora. Com as pernas cruzadas ao chinês, Carmo pede às alunas para respirarem fundo. “Vamos ao reconhecimento dos anéis”, diz. O primeiro exercício é o movimento de contração de ascendente, descontração descendente. É para conhecer os vários anéis que a vagina tem. “Apertar o primeiro anel, subir para o 2º e 3º”, explica.

Há quem feche os olhos e acompanhe o movimento com a mão. “Tenham calma. No primeiro momento, pode parecer que não estão a fazer nada. Vamos treinando”, afirma. Há quem se deite, de barriga para cima e com as pernas fletidas, para sentir mais os movimentos. Enquanto isso Carmo acompanha as alunas, uma a uma, e coloca a mão na barriga para ajudar. As calças pretas justas vestidas e os muitos anos de prática denunciam os erros das alunas. “Ah, estás a fazer com muita força e saltas o segundo anel. Faz de novo”, insiste com Alexandra.

Quinze minutos por dia são suficientes e podem ser feitos em casa, no trabalho ou enquanto esperam pelo autocarro. “Ninguém repara. É um músculo interno.”
Carmo Gê Pereira, especialista em sexualidade feminina

São estes os movimentos mais importantes para quem inicia a prática. Nos primeiros três meses, cinco vezes por semana ou “para as mais preguiçosas, três vezes”, aconselha. “A regularidade com que realizar os exercícios irá condicionar os resultados” — 15 minutos por dia são suficientes e podem ser feitos em casa, no trabalho ou enquanto esperam pelo autocarro. “Ninguém repara. É um músculo interno”.

Passamos para o segundo exercício. De novo deitadas de costas com a barriga para cima e pernas fletidas, Carmo pede às alunas que prendam os anéis mais espaçadamente, como se fossem prender o abdominal, e que sustenham a respiração. “Ai que fico sem ar”, atira uma das alunas. A respiração é fundamental para fazer os movimentos e ajudar a encontrar cada ponto. Pompoarismo exige, basicamente, consciência corporal. Depois, é necessário tempo. E prática, claro.

“Chegou a hora de suar”, diz Carmo enquanto explica que o terceiro exercício também queima calorias. A professora exemplifica: deitada de barriga para cima, levanta a anca e começa a fazer o reconhecimento dos anéis, ao mesmo tempo que mexe a anca. É o movimento do períneo. “ É como se fosse uma aula de ginásio. Dividam por três níveis e trabalhem os três anéis”, explica. Os exercícios dados animam as participantes. “Assim parece mais fácil”, atira Helena.

Depois é hora do movimento circular, em que a pélvis vai para cima e para frente e depois o quadril vai para a esquerda e em seguida as nádegas devem ser empinadas para trás. Por último, o quadril vai para a esquerda. “Este exercício é fantástico para eliminar dores lombares, além de dar maior flexibilidade ao canal vaginal”, diz a professora.

A partir do segundo mês de treino, os orgasmos podem parecer mais fáceis e intensos. A praticante de pompoar pode conseguir já apertar levemente o pénis ou os brinquedos.

Corrida, gravidez e parto podem tornar os músculos vaginais mais frágeis

Com 20 dias de treino, em média, os primeiros resultados são sentidos. A ideia é que treinem em casa. A partir do segundo mês de treino, os orgasmos podem parecer mais fáceis e intensos. A praticante de pompoar pode conseguir já apertar levemente o pénis ou os brinquedos. Aos oito meses, o controle muscular é muito maior e visível e poderá conseguir sugar o pénis ou os brinquedos com movimentos vaginais constantes, entre outras técnicas. Por isso, a educadora sexual para adultos criou uma apostila de pompoarismo com uma grelha que deve ser preenchida todas as semanas. “Estes workshops servem para que possam receber as técnicas. Depois é praticar”, diz.

Com o passar dos anos os músculos da vagina ficam flácidos, o que pode afetar a vida sexual da mulher e trazer problemas como a incontinência urinária. © Getty Images/iStockphoto

O treino deve ser acompanhado com os acessórios que Carmo trouxe para a aula: um vibrador e um ben-wa, as chamadas bolas chinesas. “São eles que vão ajudar-vos a dar força a este músculo enquanto fazem os exercícios que vos ensinei”, explica. O vibrador com pesos diferentes ajuda a despertar o músculo e segurar a vagina. Já as bolas ajudam na força, para introduzir e treinar os movimentos de contração e sucção. “Está tudo explicado na vossa apostila”, acrescenta.

Com o trabalho de casa passado, Carmo pergunta por dúvidas, dificuldades, receios. Ana está entusiasmada. “ Quando fazia no Brasil, fiquei com mais desejo e mais excitada. Não é que não gostasse de sexo mas ficava mais sensível”, confidencia à turma. Carmo abana com a cabeça e sorri. “Como há uma maior atenção a esta parte do corpo e estimulação, é normal que haja um aumento da libido”, refere. O sorriso é unânime entre as presentes. O relógio na sala marca 21h45. Mais de três horas depois, é hora de assimilar o conhecimento e regressar a casa. “Agora é colocar em prática”, conclui a professora.

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