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O meu filho já experimentou álcool. E agora?

Primeiras noitadas, primeiras cervejas, primeiros shots. E as primeiras bebedeiras. O contacto com o álcool pode começar na adolescência, por curiosidade ou pressão de grupo. Como reagir a isto?

Há adolescentes que experimentam pela primeira vez uma bebida alcoólica quando pedem um gin tónico numa saída à noite com amigos. Para outros, a experiência é feita com uma cerveja, no café ao pé da escola. Outros talvez assaltem o armário das bebidas em casa, quando os pais não estão. Mas seja como for que acontece o primeiro contacto, em grande parte dos casos costuma ser cedo. E os pais não sabem.

Portugal é um dos países com maior consumo de álcool da OCDE: 11,9 litros de álcool puro por pessoa com 15 ou mais anos, contra uma média da OCDE de 8,5 litros. Esta realidade social e cultural faz com que a primeira experiência de consumo, aconteça, frequentemente, muito cedo. De acordo com os dados do Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências (ECATD-CAD 2024) feito a alunos do ensino público português com idades entre os 13 e os 18 anos, o consumo precoce de álcool é elevado: 30% dos alunos ingeriram uma bebida alcoólica com 13 anos ou menos.

De acordo com o mesmo estudo, a maioria dos inquiridos (58%) já ingeriu pelo menos uma bebida alcoólica e os consumidores atuais de álcool — ou seja, aqueles que beberam nos trinta dias anteriores — são cerca de 30%. As percentagens mostram ainda que há padrões de consumo de risco muito significativos: 22% dos inquiridos embriagaram-se no último ano e 17% ingeriram bebidas alcoólicas de forma binge (cinco ou mais doses numa mesma ocasião) no último mês.

“O consumo de álcool é frequente na adolescência, mas isto não significa que seja inofensivo, tanto que a venda a menores é ilegal”, diz a psicóloga Rita de Oliveira. Sendo a adolescência uma fase de exploração, procura de autonomia e grande influência dos pares, isso favorece a experimentação, reconhece a psicóloga. “Mas o álcool é uma substância psicoativa e os adolescentes são particularmente vulneráveis aos seus efeitos, num período em que a maturação cerebral, sobretudo das funções ligadas ao controlo dos impulsos e à avaliação do risco, ainda está em curso”.

"O álcool é uma substância psicoativa e os adolescentes são vulneráveis aos seus efeitos, num período em que a maturação cerebral, sobretudo no controlo dos impulsos e avaliação do risco, ainda está em curso”, diz a psicóloga Rita de Oliveira. Aumenta a probabilidade de acidentes, quedas, violência e relações sexuais desprotegidas ou não consentidas. “Falar antes de existir consumo permite aos pais transmitir expectativas e limites e ao adolescente colocar as dúvidas que possam existir.”

Alguns estudos referem que o consumo de álcool durante a adolescência está associado a alterações no desenvolvimento e funcionamento cerebral, mas esse não é o único problema: quanto mais cedo começa o consumo, maior é o risco de desenvolver problemas relacionados com o álcool no futuro. Por outro lado, o consumo de álcool também representa um risco no imediato: diminui a capacidade de avaliar riscos, aumenta a desinibição e afeta a coordenação, pelo que está associado a um aumento de acidentes, quedas, violência e relações sexuais desprotegidas ou não consentidas.

Uma primeira experiência, contudo, não significa necessariamente que exista um problema. O consumo problemático, de acordo com Rita de Oliveira, envolve outros sinais, “nomeadamente, um início muito precoce, episódios de embriaguez, beber sozinho, beber para lidar com as emoções ou consumos que começam a ter reflexo na escola, no sono ou na vida diária”.

Os pais não podem impedir o adolescente de beber, mas há atitudes que podem reduzir o risco de consumo, entre elas estão “uma relação próxima e de confiança, comunicação frequente, regras claras relativamente ao álcool e uma supervisão adequada à idade”, explica a psicóloga. A comunicação sobre o tema deve ser franca, para que o adolescente saiba qual é a posição dos pais relativamente ao álcool e quais são as regras.

Idealmente, estas conversas devem acontecer antes de surgir o primeiro episódio de consumo e manter-se ao longo da adolescência. “Falar antes de existir consumo permite que os pais transmitam expectativas e limites e que o adolescente tenha oportunidade de colocar as dúvidas que possam existir”, diz Rita de Oliveira. Quanto à forma, a especialista considera que, habitualmente, conversas curtas e naturais, por exemplo, a propósito de uma notícia ou de uma situação concreta com um amigo, funcionam melhor do que uma conversa formal marcada para o efeito.

Se os pais perceberem que o adolescente bebeu, tenham ou não existido conversas prévias sobre o tema, Rita de Oliveira deixa algumas ideias:

  • A primeira prioridade é a segurança do adolescente: se estiver alcoolizado, esse não é o momento para ter uma conversa. É preciso garantir que está bem e falar no dia seguinte, com calma;
  • Importa compreender o que bebeu, em que quantidade, com quem e em que contexto. Esta informação ajuda os pais a distinguir uma experiência pontual de um padrão que merece atenção;
  • São de evitar os extremos: por um lado, as ameaças, a humilhação ou o castigo, que podem levar o adolescente a esconder os consumos e tornar menos provável que recorra aos pais numa situação de risco. Por outro, a banalização: minimizar o episódio transmite a mensagem de que não há motivo para alarme.
  • O que tende a funcionar melhor é combinar apoio, quando necessário, com regras e expectativas claras e assertivas. A mensagem deve ser firme e não se esgota numa conversa única.

Rita de Oliveira é psicóloga clínica e de saúde e trabalha com adultos e adolescentes.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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