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Centro Cultural de Belém, 21 horas. O palco escuro, apenas algumas luzes em tom amarelo. Do lado esquerdo, um piano de cauda, um computador, um tablet, e um sintetizador. Ao meio quatro cadeiras para dois violinos, viola de arco e violoncelo, e à direita outro sintetizador, um metalofone e um acordeão. Um certo ambiente de orquestra, quase formal.

Primeiro o islandês. Sobe ao palco para fazer as honras da casa, que é como devem ser recebidos os convidados. Mais tarde junta-se a ele Rodrigo Leão, quase toda a sala (esgotada) estava à espera dele. Pensava eu.

Rodrigo Leão foi fundador dos Sétima Legião e dos Madredeus, antes de seguir caminho a solo em meados dos anos 90. Compositor e interprete, tem uma longa experiência na composição de música para o grande (e pequeno) ecrã, e esteve recentemente na lista de pre-seleção dos nomeados para Óscar de melhor banda sonora original, pelo filme “O Mordomo” de Lee Daniels.

Pouco conhecido entre nós e 22 anos mais novo, o islandês Ólafur Arnalds tem (necessariamente) um percurso diferente, mas segue a mesma linha sonora. Desenha paisagens com mestria, explora como poucos uma característica transversal à composição clássica tradicional, que é a de nos fazer realizadores do nosso próprio filme. Talvez por isso, Ólafur Arnalds é muito requisitado para compor música para cinema e televisão (ganhou um Bafta este ano), e arrisco a dizer, nem precisa de se esforçar muito: toda a sua obra é uma imensa banda sonora.

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O cruzamento de Rodrigo Leão com Ólafur Arnalds era por isso previsível, no bom sentido, de tão óbvio que deveria resultar. Pois bem, “umas trocas de e-mails e dois dias de ensaios”, e tudo pronto para três concertos em Portugal, em Coimbra, Porto e Lisboa, como contou Rodrigo Leão ao Observador no fim de semana passado. Dito assim parece fácil.

Quando Ólafur Arnalds entra em palco, diz “olá” e começa a falar durante cinco minutos. Bem disposto, simpático, quase pueril. Diz umas piadas enquanto o computador reinicia, e depois pede ao público para dizer um “AAAAA” prolongado em uníssono, explicou-nos que era para usar numa música dele. E foi mesmo. Arrancou finalmente com o tema “You Are The Sun” (2010), usando as vozes gravadas do público como base. A partir daí foi um desfile de temas do último álbum “For Now I Am Winter”, com a participação do compatriota Arnór Dan, que cantou, entre outros, o tema “Old Skin”, uma interpretação dificílima mas bem conseguida.

Ólafur Arnalds é um explorador de silêncios e ali, ao vivo, com o som (magnífico) do grande auditório do CCB, o que perdeu em profundidade a solo, ganhou em simplicidade. Até que se junta a ele Rodrigo Leão (teclas) e Celina da Piedade (acordeão e metalofone), num primeiro cruzamento de talentos.

O islandês retira-se, e o concerto segue com Rodrigo Leão, e o assombroso “As Ilhas dos Açores” (álbum “Existir” – Madredeus, 1990). Passou depois por momentos de “Ave Mundi Luminar”, e chamou ao palco a soprano Ângela Silva para cantar em latim. O quarteto de cordas esteve muito bem afinado pela batuta do maestro Leão, cuja música e coordenação lhes ofereceu a oportunidade de mostrarem todo o seu valor.

Formal e cortês, apresentou os músicos, e na despedida pediu mais aplausos para o descontraído Ólafur Arnalds. O público responde, ouve-se bravo! e o músico islandês regressa ao palco sozinho para o encore. Diz mais uma piada, e explica que o solo de piano que se seguiria foi escrito a pensar na sua avó, que em miúdo o obrigava a ouvir Chopin quando o que ele queria era encher os ouvidos com death metal. Depois, os oito em palco, Arnór Dan canta “Sleepless Heart” de Rodrigo Leão. Já em pé, todos nós agradecemos à avó de Ólafur. E ao Rodrigo, claro.