Quando a Igreja Católica preferiu os pobres, os pobres preferiram as Igrejas Evangélicas. Esta frase virou uma espécie de provérbio entre os sociólogos mais dados aos assuntos da religião e voltei a ouvi-la nos últimos dias da boca do pensador brasileiro, Luiz Felipe Pondé. Há muito tempo que a observação se verifica, mais agora que o Brasil regressa a eleições marcadas pelo crescimento dos evangélicos diante da ainda maioria católica.

Isto da Igreja Católica preferir os pobres tem muito que se lhe diga. Até porque ser pobre não é ser parvo. Espero que possamos partir do princípio que um pobre pode notar que é alvo de preferências e que isso pode suscitar nele reacções diversas. O pobre pode gostar que o prefiram do mesmo modo que pode odiar ser preferido, se com isso se sentir inferiorizado. Ser preferido pode ser, nesse sentido, não um elogio mas um paternalismo. Haverá até quem possa concluir que pior do que ser pobre é poder não se revoltar contra o paternalismo do privilegiado.

Sempre me espantou que uma instituição tão respeitável como a Igreja Católica dissesse à boca cheia preferir os pobres sem pensar no insulto para eles que daí podia sair. Só com muita falta de imaginação não se pode pensar no crescimento das Igrejas Evangélicas nos Séculos XX e XXI como uma espécie de resposta. O Catolicismo julgava agraciar os pobres com a teologia da libertação e os pobres preferiram a teologia da prosperidade do neo-pentecostalismo. É tramado quando os pobres que preferimos não nos fazem a vontade.

Este não é no Século XX e XXI apenas um erro católico mas é também um erro da esquerda; é, no fundo, um erro de qualquer forma de poder. Luiz Felipe Pondé parece ter entendido isto na sua coluna Sem Dó: “se você se vê trabalhando com o suor do seu rosto, como diz a tradição bíblica, isso gera experiência de dignidade”. A esquerda devia ter aprendido com o catolicismo que contar com o apoio dos que afirmamos cuidar pode não significar nem garantir coisa nenhuma. Mas a esquerda, como o catolicismo, facilmente se deixa tentar pela vaidade presunçosa das afirmações bonitas, como se o diabo não praticasse a mesma arte.

Nunca fui pobre mas também nunca fui rico. Recordo que me chocou a primeira vez que ouvi que a Igreja Católica preferia os pobres. Afinal, na Igreja Evangélica suburbana onde cresci sempre ouvi que os cristãos não deviam ter preferências, fossem elas sociais ou de outra ordem. Pelo contrário, a Bíblia repetia que o caminho era não haver “acepção de pessoas”. O perigo de destacar os ricos que deveria ser combatido nunca era nas Escrituras uma preferência pelos pobres. Até porque, sejamos sinceros, nos deparamos com uma estranha reciprocidade: só os ricos se podem dar ao luxo de preferir os pobres, e, sem surpresa, os pobres geralmente preferem os ricos.

Uma das certezas que me sossega em pastorear uma Igreja de uma imensa maioria não-rica é não adicionar-lhe qualquer mistificação de preferir os pobres. Os pobres, que sempre teremos connosco e que, de certa maneira, também sempre seremos, não querem preferência, querem perder a pobreza. Talvez o primeiro passo seja quebrar o paternalismo e reconhecer que não há nada para preferir nos pobres. A pobreza preferida de Jesus não era económica, era espiritual. Até os políticos brasileiros, na sua manha, começam a entender a lição. E nós?