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“Uns bolinhos de Pirarucu, primeiro, e depois uma banda de Tambaqui.” Pirarucu e Tambaqui são dois dos peixes mais famosos, e melhores, dizem, do rio Amazonas. Os bolinhos são a entrada, e vêm envoltos em farinha, como se de um pastel de bacalhau se tratasse. A banda de Tambaqui é, basicamente, metade de um peixe, que vem acompanhado de baião de dois (arroz com cebola e feijão frade), farofa e vinagrete.

Rui Conde fez questão que o almoço fosse aqui, bem no centro de Manaus, no Largo S. Sebastião, para que eu pudesse provar “dois dos melhores pratos do mundo.” O presidente do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso-brasileira do Amazonas vive há oito anos em Manaus. Veio com a mulher, brasileira manauar (nascida em Manaus) quando estava grávida, “ela veio ter a criança ao pé da mãe e eu vim também, claro.” Acabaram por ficar porque ele decidiu investir aqui. Começou por uma empresa de formação e depois abriu uma de engenharia (civil e eléctrica).

” Vive-se bem. Com muito calor. Estamos encostados à maior floresta do mundo, ao maior rio do mundo, com a maior biodiversidade. O amazonas tem mais espécies e quantidade de peixes que todo o Oceano Atlântico. É a maior bacia hidrográfica do mundo. A zona onde relampeja mais no mundo. É tudo em grande aqui.”

A comunidade portuguesa no estado do Amazonas é relativamente grande, cerca de quatro mil pessoas. E tem vindo a aumentar nos últimos tempos. São sobretudo jovens licenciados que têm chegado. “É uma massa crítica grande e boa que vem de Portugal. Engenheiros florestais, engenheiros químicos, de materiais, farmacêuticos, biólogos… muitos.”

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É o mais recente capítulo de uma relação que vem de longe. Desde que em 1637 Pedro Teixeira partiu do Perú com uma expedição para tomar a região do Amazonas para o Império Português, passando pelo que ficou conhecido como o “período áureo da borracha”, os portugueses criaram raízes no Amazonas. “As grandes fortunas de Manaus, quando isto se chamava Paris dos trópicos, eram de portugueses. No século XIX havia ruas com borracha no chão, para que as carruagens não fizessem tanto barulho. As senhoras de Manaus iam a Paris comprar roupa, não iam ao Rio ou a São Paulo, iam a Paris nos transatlânticos.”

Depois as sementes dos seringais foram exportadas para a Malásia, o preço da borracha caiu dramaticamente para a região, e os tempos foram complicados em termos económicos.

Nova vida

Perante a decadência da borracha era preciso criar atractivos para a região e a solução passou pela criação de uma zona franca industrial. Nasceu então, a Zona Franca de Manaus, na década de 1960. “Dá, neste momento, origem a 100 mil postos de trabalho diretos e 300 mil indiretos. Tudo o que você imagina de marca está cá, Honda, Nokia, Samsung, Harley Davidson…”

Os incentivos são tão fortes que compensam o facto de estarmos perante uma “cidade-ilha”. A Manaus só se chega de barco ou avião. A única estrada que sai e entra daqui é para a Venezuela, e não é muito usada. Rui Conde fala numa cidade com um custo de vida elevadíssimo. “Um apartamento numa zona bem localizada custa 2 milhões de reais, temos a internet mais cara do Brasil, , a gasolina está a 3,19 reais, em Salvador está a 2… Isto é Manaus.” Mas as coisas funcionam, e o Distrito Industrial conseguiu recentemente a ampliação do prazo dos incentivos por mais 50 anos. “No Amazonas é tudo em grande”, repete Rui Conde.