Era só uma simples dupla jornada da Liga das Nações — mas depressa se tornou num assunto de Estado, uma questão geopolítica e um debate sobre até que ponto as decisões e convicções políticas devem entrar e ter influência no desporto. De repente, o facto de a Irlanda ter de jogar com Israel na Liga das Nações tornou-se o assunto da semana.
Contudo, na verdade, tudo começou ainda em fevereiro. Na altura em que o sorteio da Liga das Nações decretou que Irlanda e Israel ficariam ambos no Grupo G da competição, assim como Áustria e Kosovo, a Federação Irlandesa de Futebol foi desde logo pressionada a boicotar as jornadas contra os israelitas devido à ação militar do país em Gaza. Em maio, a contestação dos próprios adeptos irlandeses subiu de tom quando um jogo particular contra o Qatar, em Dublin, foi interrompido duas vezes com o lançamento de bolas de ténis com a bandeira da Palestina para dentro do relvado.
???????????????? Tensions are escalating ahead of Ireland's Nations League games vs Israel.
Ireland coach Heimir Hallgrímsson said his team is "playing against genocide," prompting the Israeli FA to hit back.
More than 160 Irish athletes and celebrities have called to boycott the games. pic.twitter.com/38L1ocKnif
— DW Sports (@dw_sports) September 22, 2026
Tendo em conta o caráter claramente divisivo do assunto, a Federação optou pela democracia e levou o caso a uma votação: em julho, 75 dos delegados do organismo votaram a favor da realização dos jogos, enquanto que os restantes 32 defenderam a decisão de boicotar. No fundo, tal como explicou no comunicado em que anunciou o resultado da votação interna, a Federação optava pelo caminho que parecia causar menos danos ao futebol irlandês a longo prazo, escapando a eventuais sanções da UEFA e à perda de milhões de euros em receita.
Ainda assim, a ideia de receber Israel em Dublin ou de jogar em território israelita estava fora de questão. Os dois países acabaram por concordar com a realização do primeiro jogo, no próximo domingo e correspondente ao que seria em casa de Israel, em Debrecen, na Hungria, com o segundo, a 4 de outubro e correspondente ao que seria em casa da Irlanda, a acontecer em Backa Topola, na Sérvia.
Os adeptos irlandeses não tiveram acesso a quaisquer bilhetes para nenhum dos jogos, enquanto que os israelitas poderão ocupar uma pequena parte das bancadas da partida de Debrecen, no domingo. Além disso, a RTE, a estação de televisão pública da Irlanda, anunciou que vai somente “cumprir a obrigação contratual” de transmitir os jogos, mas apenas com as imagens — sem narrador, comentador, qualquer análise da partida antes, ao intervalo e depois, rejeitando ainda todas as eventuais receitas de publicidade ou patrocínios das duas transmissões.
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A decisão de não boicotar os jogos, porém, continua longe de ser pacífica. Adeptos de vários clubes irlandeses mostraram tarjas e entoaram cânticos contra Israel nas últimas semanas, enquanto que, na segunda-feira, 160 atletas do país assinaram uma carta aberta da Irish Sport for Palestine a exigir o boicote, incluindo Tyrone McKenna, conhecido pugilista, e Ciara Mageean, campeã europeia dos 1.500 metros.
Entretanto, a Federação Irlandesa de Futebol anunciou que a UEFA rejeitou um pedido para que os países não voltassem a poder ficar emparelhados em sorteios futuros, com o diretor de futebol do organismo a descrever os jogos como “uma situação muito desconfortável para toda a gente”. Já Heimer Hallgrimsson, o selecionador nacional irlandês, foi mais longe e disse que o facto de a Irlanda ter aceitado disputar os jogos não significa que esteja a legitimar um “genocídio”.
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“Não vamos jogar com o genocídio, vamos jogar contra o genocídio. Vamos jogar contra Israel, não com Israel”, acrescentou o treinador islandês. Em resposta, a Federação Israelita de Futebol lamentou o facto de ainda não ter sido encontrada “uma cura para a estupidez, a ignorância e a hipocrisia”. Pelo meio, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda lembrou que a visão do país é “clara” e defende que a “lei internacional está a ser violada” através de “uma tentativa de apagar uma população”.
Na verdade, a Irlanda tem sido um dos países europeus a condenar a ação militar de Israel em Gaza de forma mais vocal. Em maio de 2024, em conjunto com Espanha e Noruega, reconheceu o Estado da Palestina, juntando-se depois à ação interposta pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça que acusa diretamente os israelitas de genocídio. Os irlandeses têm ainda boicotado a Eurovisão devido à participação de Israel, enquanto que, no futebol, a Bélgica também recusou receber os israelitas em 2024, jogando também em Debrecen, e tanto a Noruega como a Turquia já defenderam a suspensão das seleções nacionais e dos clubes do país de todas as competições europeias.