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“O meu sonho é ver o Brasil em festa”, desabafava no final Júlio César, o herói dos penáltis (3-2), que se desfazia em lágrimas. Quem viu não ficou indiferente. O guarda-redes estava com o coração apertado e, gentilmente, tratou de oferecer o mesmo sentimento a quem tinha os olhos nele. As lágrimas no rosto do brasileiro representavam o orgulho que é vestir a camisa do escrete. “Graças a Deus deu tudo certo no final”, disse.

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O Brasil deixou para trás o Chile depois de uma grande batalha. O jogo foi fraco: lento e muitas vezes mal jogado. Aliás, a única equipa que tentava colocar a bola no chão e trocar entre os seus jogadores foi, curiosamente, o Chile. O Brasil está irreconhecível. Falta-lhe magia, alegria e cor. A equipa de Scolari usa e abusa do passe longo. Até podia ser só estratégia, com o fim de não desmontar a “zaga”, mas mais parece falta de capacidade. Não faz sentido apostar somente no futebol direto para explorar as costas da defesa rival quando se tem um avançado como Fred. Alan Shearer, o antigo avançado do Blackburn e Newcastle, foi implacável há alguns dias e quase que apetece dar-lhe razão. Fred muitas vezes só atrapalha. Que saudades de Ronaldo…

Um dado curioso deste duelo prende-se com a experiência dos 22 jogadores titulares: o Chile contava com 54 jogos em Mundiais no seu onze contra 41 do Brasil. Não sabemos se terá tido influência mas muitas vezes via-se um Chile mais sereno e maduro. Já a seleção brasileira corria para dilatar o seu jejum de derrotas caseiras para competições oficiais: não acontece desde 1975, quando perdeu contra o Perú (1-3). Com esta vitória sobre o Chile, são já 61 jogos sem perder na terra do samba.

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Algo que palpitou logo à primeira vista foi a garra do Chile. Estes jogadores não sabem encolher os ombros. Não desistem. Lutam pela bola como quem luta pela vida. Neymar foi o primeiro a sentir isso na pele. Não havia espaço para jogar, aqueles chilenos salivavam pela bola. O craque brasileiro teve o seu jogo mais apagado na Copa e isso deveu-se, claramente, à forma guerreira como os chilenos defendem.

O golo do Brasil chegou à passagem do minuto 20, de canto. Neymar bateu, Thiago Silva desviou ao primeiro poste e Jara traiu Claudio Bravo, 1-0. Este era o quinto golo na própria no Mundial-2014. O recorde está fixado em seis: França-98. O mais difícil estava feito. Só três seleções em 80 anos de história de Campeonatos do Mundo conseguiram dar a volta ao marcador contra o Brasil: Uruguai (1950), Noruega (1998) e Holanda (2010). O Mineirão, o palco desta partida, estava virado do avesso: “Ohhhhhhhhhh o campeão voltou, o campeão voltou, o campeão voltou, ohhhhhhhhhhh…”, ouvia-se.

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O termómetro cantava 26º e 45% de humidade, mas não tardaria muito para descer vertiginosamente, qual idade do gelo. Tudo começou com um lançamento: Marcelo marcou para Hulk, que tocou de primeira mas ficaria curto. Eduardo Vargas, qual espartano incansável, recuperou a bola e passou a Alexis Sanchéz, que já estava dentro da área. Dois toques: receção e remate cruzado. Um-um no marcador — décimo golo de Sánchez nos últimos 14 jogos pela seleção. Hulk nunca conseguiu convencer o seu povo e assim ficava ainda mais difícil…

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Até ao intervalo, apenas Neymar e Dani Alves tentaram a sorte. O número 10 procurou o quinto golo no torneio de cabeça, mas a bola ressaltou num chileno e rasou o poste. O lateral foi mais ousado: rematou de muito, muito longe, mas Claudio Bravo defendeu para canto, fazendo por merecer o seu apelido. O descanso chegava e o empate era justo. Até ver, era um jogo clássico de mata-mata, como Scolari gosta de dizer: nervos, mal jogado e durinho. Esta partida acabaria com 51 faltas cometidas (Brasil-28; Chile-23). É dose.

Não se percebe o que pretende Scolari. Hulk na esquerda é quase um desastre. Oscar na linha perde a sua natureza, a tal que grita uma grande visão de jogo. Neymar é um “vagabundo” e é provável que Felipão lhe diga apenas “diverte-te” antes dos jogos. É justo: é o craque. Marcelo e Dani Alves são um desperdício nesta equipa: o facto de o escrete não conseguir dominar na posse de bola, não permite que os laterais subam no terreno com outra consistência. O Chile registou 53% de posse de bola no primeiro tempo, mas tinha 62% à passagem da meia hora. O Brasil prefere estar sossegado atrás e lançar em velocidade Neymar e companhia.

Chutão para a frente. Foi do que se viu mais no segundo tempo. De parte a parte. O Chile continuava a morder os calcanhares aos brasileiros e a tapar Neymar, a fonte de magia desta equipa. Restava-lhes procurar as costas da defesa chilena. E foi assim mesmo que chegaram ao golo, que acabaria por ser anulado por Howard Webb. Hulk recebeu na área e desviou de Bravo. O Mineirão estava outra vez louco, e Hulk tinha já corrigido aquela sua asneira no golo do Chile. Mas Howard Webb colocou um ponto final na festa canarinha e anulou: mão na bola.

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O Chile esteve muito perto do golo aos 64′. Uma bola triangulação na direita culminou com um remate de Sánchez já dentro da área. Júlio César, o homem que a FIFA daria o prémio de homem do jogo, arrancou uma enorme defesa.

O relógio continuava a sua marcha e as pernas do jogadores começavam a fraquejar. Mas Hulk, qual super herói, tem pilhas que nunca mais acabam e voltou a fazer mossa. Agora foi pela esquerda, onde costuma fazer menos estragos. O ex-extremo do FC Porto cruzou para o segundo poste, onde estava Jô à espera para o toque glorioso, aquele que ia fazer o Brasil gritar a uma só voz. O avançado do Atlético Mineiro falhou um golo que parecia fácil e levou ao desespero as suas gentes.

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Um, dois, três. Foi este o número de chilenos que Hulk, a sete minutos do apito final, ultrapassou para rematar com potência com o seu pé direito. A defesa de Bravo foi enorme. O Brasil tentava evitar um prolongamento que se adivinhava penoso… Sem sucesso. Webb apitaria pouco depois para o final. Haveria mais meia hora de futebol.

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A história, essa, abraçava o Brasil com amor e carinho. É que os brasileiros só foram eliminados uma vez nas seis ocasiões que jogaram o prolongamento: caíram contra os franceses em penáltis em 1986.

Hulk continuava a ser o jogador mais inconformado. Bravo continuava a roubar-lhe a glória. Rio Ferdinand, ex-central do Manchester United, dava conta disso no Twitter: “Hulk está a dizer aos colegas ‘eu trato disto!!'”. Felipão ainda tentou agitar as águas ao lançar Willian, mas ninguém teria arte e engenho para desbloquear o empate. Pelo meio, Medel, um pequeno gigante (1,72m) da defesa chilena, foi substituído completamente preso por arames. Fez um jogo enorme.

O jogo continuava pobre e mastigado. Se há jogos que merecem ser decididos nos penáltis era este. O Brasil está sem identidade. O Chile começou bem mas só tinha gasolina para 90 minutos. Quando já nos preparávamos todos para os penáltis, eis que Pinilla, ex-avançado do Sporting, deixou meio mundo de boca aberta. No último suspiro do prolongamento, o chileno tabelou com um colega e enviou uma autêntica bomba à trave de Júlio César, que mais parece abençoado pelos deuses. Pinilla quase imitou Alcides Ghiggia (Maracanazo de 1950) e transformou o Mineirão num “Mineirazo”. O ferro rejeitou. Não haveria zebra, o termo que os brasileiros usam para surpresa ou resultado inesperado.

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Seriam precisos penáltis para definir um vencedor. A última vez que o Brasil teve de recorrer aos mesmos foi no Campeonato do Mundo de 1998, em França, contra a Holanda de Bergkamp. Nessa meia-final, o herói foi Cláudio Taffarel.

O destino quis que o Brasil se mantivesse na sua Copa. O destino e Júlio César, claro. O guarda-redes brasileiro defendeu dois penáltis e mantém vivo o sonho do hexa. No final, Neymar e David Luiz choraram e agradeceram aos céus. O momento mais emocionante deste jogo? Veio a seguir. Façamos como no “monopólio” e avancemos até à casa de partida para o primeiro parágrafo deste texto.

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