Como estudar o cérebro se ele está encerrado dentro do crânio? Em vida existem uma série de métodos mais ou menos invasivos, como a imagem por ressonância magnética, mas depois de morto o cérebro pode ser estudado a fundo – a morfologia do cérebro saudável ou doente e as inúmeras variações individuais. Quando há possibilidade de comparar os exames feitos em vida com o que se pode observar no cérebro depois de retirado do crânio ainda melhor. É este o objetivo do Observatório do Cérebro na Califórnia (Estados Unidos).

O observatório está a construir uma base de dados digital que conta já com 300 doações, noticia a BBC. Depois de doado, o cérebro é seccionado e digitalizado. Dessa forma é possível comparar o aspecto físico do órgão com o resultado dos exames realizados durante as avaliações clínicas do doador. Criar uma relação exame-cérebro vai permitir melhores diagnósticos no futuro, quando os médicos compararem um exame que tenham em mãos com a base de dados digital.

De que outra forma teria Leonardo da Vinci conseguido realizar os desenhos anatómicos com o rigor que lhe era característico se não tivesse realizado 30 dissecações de corpos humanos durante a vida? O interesse, a curiosidade e o estudo da anatomia animal remonta à pré-história, embora só mais se começaram a dissecar humanos. Da Vinci começou pelo esqueleto e músculos, mais tarde dedicou-se aos órgãos internos, sobretudo pulmões, coração e cérebro.

Tempos houve em que eram os presos ou os indigentes que involuntariamente cediam o corpo ao estudo anatómico. Mesmo em Portugal, eram os corpos daqueles que tinham sido desprezados pela sociedade que acabavam por contribuir para o avanço da ciência. Atualmente privilegia-se a doação do corpo em vida para fins científicos e académicos.

Doar o corpo para o avanço da ciência

Assim como a equipa do Observatório do Cérebro apela às doações também os departamentos de Anatomia das universidades portuguesas apelam às doações cadavéricas. Um ato de generosidade e altruismo do doador, como o classificam as instituições, e uma forma de o futuro médico treinar competências técnicas para a profissão.

Os cadáveres doados são igualmente essenciais na formação avançada de médicos. Por um lado, as novas formas de exames intrusivos ou de intervenções cirúrgicas serão melhor desenvolvidas se houver a oportunidade de testá-las e aperfeiçoá-las em cadáveres doados. Por outro, o estudo aprofundado dos órgãos permite revelar lesões ou particularidades que antes não tinham sido detetadas.

É o caso do cérebro mais famoso que está na coleção do Observatório do Cérebro. Depois de seccionado, digitalizado e analisado, foi possível detetar outras lesões no cérebro de Henry Gustav Molaison, eventualmente algumas causadas pela cirurgia a que foi sujeito, refere a Wired. Em 1953, Molaison foi sujeito a uma intervenção cirúrgica experimental, que lhe retirou porções do cérebro, com o objetivo de o curar de uma epilepsia severa. Curiosamente, após a cirurgia o doente conseguia ter memórias anteriores à intervenção, mas não reteve nenhuma memória depois disso. Quando morreu em 2008, com 82 anos, o cérebro foi entregue ao Observatório do Cérebro, fatiado em 2.401 secções e disponibilizado a todos quantos queiram estudar este caso.