O termo “influenciador” parece indissociável das redes sociais, uma invenção do nosso tempo. Mas se olharmos através da lente da História, percebemos que a capacidade de alguns influenciarem a grande maioria acompanha a nossa espécie desde os primórdios. E essa influência serviu-se sempre dos meios de comunicação mais eficazes de cada época: das pinturas rupestres às estátuas romanas, passando pelos clássicos gregos. Não é, pois, de estranhar que, neste presente em que os ecrãs tomaram de assalto o espaço público e privado, tenhamos celebridades a privilegiar as redes sociais como meio de ligação com o público.
As democracias liberais devem proteger a liberdade de expressão e a polarização afectiva crescente não deve alavancar movimentos de cancelamento, frequentemente injustos. Na área da saúde, há muitos profissionais que utilizam bem as redes sociais, criando espaços de partilha sobre promoção da saúde e prevenção da doença. Não obstante, multiplicam-se os exemplos de desinformação clara. Destaco os movimentos antivacinas, o aconselhamento pouco criterioso de suplementos alimentares e a ideia, cada vez mais veiculada, de que o protector solar causa doença e deve ser evitado. Sugestões sem contraditório, sem contexto e sem informação sobre o risco causam dano às populações.
Um artigo publicado em Julho de 2026 na prestigiada revista The New England Journal of Medicine, assinado por investigadores de Harvard e da Universidade Técnica de Munique, ilustra bem este problema a propósito dos medicamentos para a obesidade e a diabetes, os agonistas do receptor do GLP-1. Em Março de 2024, Oprah Winfrey apresentou um programa televisivo sobre fármacos para perda de peso, com a participação de consultores pagos pelos fabricantes da semaglutida e da tirzepatida; meses depois, a Food and Drug Administration (FDA) concluiu que o programa tinha transmitido uma imagem enganosa de segurança, ao minimizar os riscos associados a estes medicamentos. Em Agosto de 2025, foi a vez da tenista Serena Williams protagonizar uma campanha nas redes sociais de uma plataforma de telemedicina, na qual afirmou que o seu corpo “precisou” destes fármacos depois do parto, sem nunca nomear o medicamento em causa. Ao contrário do caso de Oprah, esta campanha não gerou qualquer acção da FDA, apesar de correr os mesmos riscos de desequilíbrio entre benefícios e riscos. Os autores citam ainda um levantamento de mais de 84 mil publicações sobre medicamentos sujeitos a receita médica, no qual celebridades e influenciadores geraram 43% do conteúdo mais visto, e no qual apenas um terço das publicações mencionava os riscos dos produtos anunciados.
Não precisamos de muita regulação, mas de boa regulação, sobretudo na área da saúde. O objectivo não é impedir uma atleta ou uma apresentadora de partilhar a sua experiência pessoal: é garantir que quem tem milhões de seguidores, e um interesse financeiro directo ou indirecto no que promove, não se esconde atrás da liberdade de expressão para vender uma meia-verdade. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a confundir uma opinião de celebridade com um conselho médico, e a pagar a factura em saúde, não em seguidores.