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Terão sido problemas financeiros os que levaram Robin Williams a cometer suicídio? É uma das especulações neste momento, numa altura em que as reações à morte do ator se acumulam e em muitos meios de comunicação mundiais há declarações de amigos e familiares que se contradizem entre si.

Se, por um lado, a fortuna de Robin Williams teria rondado, em tempos, os 130 milhões de dólares (97 milhões de euros), por outro, os dois divórcios do ator saíram-lhe caros e significaram um rombo nas finanças pessoais. “O divórcio é caro. É arrancarem-te o coração através da carteira”, disse à Parade no ano passado. Nessa entrevista, Williams assumia que voltara a participar numa série de televisão, The Crazy Ones, mais de 30 anos depois da última série que fizera, porque havia “contas para pagar”. Além disso, Williams pôs também à venda o seu rancho, em Napa Valley, na Califórnia, avaliado em 35 milhões de dólares e ainda à espera de comprador.

Por tudo isto, um amigo do ator terá dito a vários órgãos de comunicação que Williams tinha “sérios problemas de dinheiro”, uma afirmação posteriormente desmentida por um outro amigo do ator. Seja como for, Robin Williams chegou a afirmar, por mais do que uma vez, que apenas aceitou alguns papéis no cinema para “pagar as contas”, como foi o caso de Duas Amas de Gravata, um filme de 2009.

De acordo com o Telegraph, seria também esse o caso da sequela de Papá para sempre, que muito provavelmente será cancelada após a sua morte. O jornal inglês falou com um vizinho e amigo que garantiu que “Robin prometeu a si mesmo não fazer mais [deste tipo de papéis] porque ele investia tanto em cada um que ficava esgotado e particularmente vulnerável a episódios depressivos”. E, outra vez, a questão monetária. “Ele aceitava-os [os filmes] por pura necessidade. Não era pobre, mas o dinheiro já não entrava [como antigamente] e a vida é cara quanto se tem de pagar a duas ex-mulheres e se tem uma família para sustentar”, adianta a mesma fonte, que, à semelhança de muitas outras, recusou identificar-se.

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O seu historial de depressões, abuso de álcool e drogas não era novidade. O próprio admitira-o frequentes vezes. E, ainda assim, era um trabalhador incansável, diz quem conviveu com ele de perto. É o caso de John Bailey, diretor de fotografia do filme The Angriest Man in Brooklyn (filme que ainda não estreou), que afirmou ao New York Times ter visto a “escuridão do coração de Robin”. “Era o primeiro a chegar ao estúdio”, garante, apoiado por um agente de Hollywood, que reitera que Williams era “1000% confiável”.

Seria então o excesso de trabalho uma causa de perturbação para Robin Williams? Ao que parece, não. Trabalhar ajudava-o a não ter de lidar com os seus problemas pessoais, de acordo com pessoas ligadas ao cinema que conviveram com ele. E, nos últimos tempos, não trabalhou só em séries de televisão e filmes para o cinema, tendo igualmente participado em anúncios.

Fossem financeiros ou emocionais os motivos de Williams para cometer suicídio, o que é certo é que o ator se enquadrava numa tendência cada vez mais relevante nos Estados Unidos: o suicídio de homens com idades compreendidas entre os 35 e os 64 anos aumentou 28% desde o início do século XXI naquele país. As razões, essas, são difíceis de compreender, dado o suicídio ser um ato pessoal e radical. “É no grupo dos baby boomers [pessoas nascidas entre 1946 e 1964, sensivelmente] que vemos as maiores taxas de suicídio”, explicou Ileana Arias, do Centers for Disease Control and Prevention, uma associação norte-americana de prevenção de doenças. “Há qualquer coisa nesse grupo, na forma como [as pessoas desse grupo] encaram a vida e as suas escolhas, que pode explicar a diferença”, acrescenta.