Devido à sua organização quase militar, o lugar tem um aspeto austero. Tudo está etiquetado, todas as caixas têm um código. O armazém da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) em Castelo Branco, o maior em Portugal, tem 2.000 metros quadrados. Visto de fora, parece um hangar de aviões.

Paulino Matos, responsável pela gestão dos armazéns da ASAE, ajusta o lugar de uma garrafa de azeite confiscada – que pode não conter azeite, “mas sim óleo alimentar, como já aconteceu há alguns anos” – em cima de uma palete, como um lojista que quer arrumar a melhor montra possível para exibir os seus produtos. Um pouco mais à frente do azeite, encontramos recargas para cigarros eletrónicos, uma tendência ainda recente em Portugal, mas que já tem resposta na contrafação.

Nesta quinta-feira, vai ocorrer um evento raro: uma visita ao espaço, onde só mesmo cinco pessoas dentro da ASAE a nível nacional têm o código de entrada, como parte do evento da apresentação dos resultados do primeiro semestre de 2014 da instituição. Para isto, nos últimos três dias, um grupo de pessoas esteve a preparar uma “mostra” de todos os produtos que são apreendidos pela instituição governamental. O Observador visitou o espaço quando já se faziam os últimos preparativos.

Avalanche!

No canto esquerdo de quem entra no armazém parece que aconteceu uma avalanche de caixas de papelão. Trata-se do resultado da maior apreensão de sempre da ASAE, numa fábrica de calçado, na zona de Vila do Conde. É a primeira coisa que salta à vista, devido à disposição aleatória das caixas, quando comparado com o resto do espaço formatado em prateleiras gigantes de quatro andares. Foram necessários três camiões TIR para trazer todo o material. “Cada um carregava 22 toneladas, por isso multiplique por três”, diz Paulino Matos. No dia desta apreensão, trabalharam das 7h30 da manhã de um dia às 8h da manhã do dia seguinte, para conseguirem catalogar e armazenar tudo. É tudo feito à unidade: a ASAE é obrigada a saber a localização e quantidade de objetos apreendidos por caixa.

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Paulino Matos, responsável pela gestão dos armazéns da ASAE em Portugal.

Na montra preparada por Paulino, encontra-se de tudo: perfumes que é melhor afastar da sua pele, pois podem conter “resíduos fecais”; roupa e malas de marcas de luxo como a Gant ou Timberland – até as etiquetas são impressas em papel de alta qualidade; moldes de solas de sapatos. A diferença entre uma peça de roupa de contrafação ou original “pode ser só um fio”, diz Ana Oliveira, responsável pela comunicação da ASAE. “Qualquer um de nós era enganado”, acrescenta.

Continuando: muitas motosserras que “imitam aquela marca conhecida STHIL”; cópias do FIFA 99, uma raridade para os aficionados no jogo de futebol; e filmes clássicos como a “Febre de Sábado à Noite” ou o “Apocalipse Now”. Na montra improvisada, está ainda um espaço vazio para acolher fotografias de apreensões de produtos alimentares no dia seguinte, dado que não podem estar expostos de forma física devido a poderem-se estragar.

Mais de 3.500 máquinas de jogo em depósito

Cada objeto exposto tem uma história associada. Por exemplo, os rolamentos fazem parte de uma operação conjunta com forças de fiscalização espanholas. “Em Itália, ocorreu um acidente que se conseguiu provar que se deveu ao uso de um rolamento contrafeito”, conta Ana Oliveira.

E este armazém não é o único da ASAE em Portugal. No Mercado Abastecedor da Região e Lisboa (MARL), em Loures, existe outro espaço com 1.280 metros quadrados. Lá, estão “mais de 3.500 máquinas de jogo em depósito”, diz Paulino. As que nesta quinta-feira estão expostas na montra improvisada, para a visita do secretário de estado-adjunto da Economia, Leonardo Mathias (CDS), e responsável pela tutela da ASAE, são só uma “amostra”.

Este material em particular, que “não pode ser doado”, é destruído. Uma empresa certificada é contratada para fazer a destruição, que tem de ser assistida por três inspetores da ASAE. A empresa em questão “faz a recolha deste tipo de material de forma gratuita e o serviço também”, conta Paulino, ao falar de uma empresa em particular. “Fecham uma parte da fábrica exclusivamente para este serviço” ao Estado, conta. Porém, a ASAE não recebe nada pelo material.

No site da ASAE, existe um formulário de registo para Instituições de Solidariedade Social que queiram receber doações, sendo que este encaminhamento do material só é feito “depois do processo já ter sido julgado”. Mas caso as quantidades de material sejam muito reduzidas e “não se justifique o pedido judicial”, a ASAE manda destruir, conta Paulino.

“Não é só fogo de vista”

“Todas as caixas estão cheias de material apreendido, não é só fogo de vista”, diz Paulino Matos, de peito cheio, ao observar os corredores apilhados do armazém. Para provar isto, pede para abrirem uma caixa ao acaso, para mostrar o seu conteúdo. E assim foi. O volume estava cheio de imitações de carteiras da marca de luxo Louis Vuitton, de uma apreensão de 2007, ou seja, com sete anos. Questionado sobre a demora dos processos judiciais, Paulino justifica-se que em média demoram quatro anos e que aquele seria uma exceção.

Ao darmos um passeio pelo espaço, o responsável pelos armazéns da ASAE vai fazendo os últimos preparativos da apresentação do dia seguinte. “Ponha ali na mostra”, diz a um funcionário presente, ao apontar para “dois instrumentos utilizados na apanha ilegal de bivalves”. Encontramos também rolos gigantes de tecido fáceis de identificar pela imitação do padrão da marca Burberry. Numa das prateleiras, vemos um computador embrulhado em plástico transparente, que faz lembrar um prato guardado no frigorífico para comer no dia seguinte. Paulino adjetivou-o de “potente” e contou que era utilizado em cópias de DVD.

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Vitor Veríssimo, funcionário permanente do armazém.

Dá a sensação, devido à organização milimétrica do espaço, que estamos no IKEA da contrafação, ao olhar para caixas em que temos de confiar em que todas as peças estão lá dentro. É um trabalho de precisão, porque grande parte pertence a processos judiciais ainda a decorrer. A qualquer momento, podem ter de devolver o que foi apreendido. Mas, Vitor Veríssimo, 36 anos, um dos funcionários a tempo inteiro do armazém, acha que “na realidade é muito simples. É só seguir o programa e os códigos, com o aparelho leitor”.

Paulino tem umas olheiras cravadas no rosto e olhos esbugalhados, devido à “maratona” dos últimos três dias. Mas a montra está preparada, principalmente devido ao regime militar imposto por ele. E nada o impede de confessar a rir, já no final da visita, que quando começou a trabalhar para a ASAE, há quatro anos, que quase lhe “dava um piripaque.”