Uma equipa de investigadores internacionais está a ser financiada pelo Governo britânico para compilar provas contra militantes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) que tenham levado a cabo atrocidades no Iraque e Síria, noticia a BBC, nesta quinta-feira. Ao que parece, ao longo dos últimos meses, esta equipa já preparou cerca de 400 processos sobre os líderes do grupo e os seus combatentes.

Documentos internos do ISIS, na posse dos investigadores, mostram que muitas das atrocidades executadas tem “responsabilidade no comando”. Trabalhando em extremo secretismo, escreve a BBC, a equipa de especialistas passou quase um ano a investigar os comandantes do Estado Islâmico (EI) e os seus militantes para compilar informações que possam ser usadas em processos judiciais de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. São casos de rapto, decapitações, crucificações, tortura e execuções sumárias. A barbárie num estado cru.

Na quarta-feira, o presidente norte-americano, Barack Obama, prometeu destruir a organização terrorista após a divulgação da decapitação do jornalista Steven Sotloff. Duas semanas antes, o ISIS tinha decapitado o jornalista James Foley. Contudo, apesar destes casos serem os mais propagados nos meios de comunicação, dezenas de soldados curdos também já sofreram este destino.

No documentário sobre o Estado Islâmico do Iraque e do Levante da VICE, é possível ver essa prática na parte do “califado” controlado na Síria.

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Este assumir de um compromisso por Barack Obama, que até agora tinha estado muito contido nos seu discurso sobre o ISIS, surge após o organização humanitária Humans Rights Watch ter descoberto novos locais de “assassinatos em massa” na cidade Tikrit, localizada no norte do Iraque. Supõe-se que os jihadistas terão assassinado mais de 500 soldados iraquianos após terem capturado um grande base militar na cidade, em Junho, escreve a BBC.

Organizados e perigosos

Iraqi security forces and Turkmen Shiite fighters, who volunteered to join the government forces, hold a position on August 4, 2014 in Amerli, some 160 kilometres (100 miles) north of Baghdad, as the city has been completely surrounded by Islamic State (IS) Sunni militants for more than six weeks. Residents say a humanitarian disaster is imminent in the town, which has been without power and drinking water for days. IS fighters, who run large swathes of neighbouring Syria, launched a blistering offensive on June 9 that saw them capture the Iraqi city of Mosul and move into much of Iraq's Sunni heartland. AFP PHOTO / ALI AL-BAYATI        (Photo credit should read ALI AL-BAYATI/AFP/Getty Images)

Até agora, a equipa de investigadores que se está a debruçar sobre os crimes de guerra e contra a humanidade tem evitado ao máximo publicidade, ao trabalhar num edifício não identificado. Mas, numa entrevista à BBC, revelou que está a ser financiada pelo Governo do Reino Unido – 43,000 libras por ano, por pessoa – e empregam “fontes” tanto na Síria como nos países vizinhos.

“Nós queremos que os assassinos do jornalista James Foley sejam trazidos à justiça”, afirmou um dos coordenadores da investigação à BBC. “Tendo dito isto, esses indivíduos em particular [jihadistas sem cargos de liderança] e outros como eles não são o foco da nossa investigação.”

“De quem nós estamos atrás é dos altos escalões do Estado Islâmico, porque esses indivíduos são tão responsáveis pela morte de inúmeras pessoas como aqueles que utilizaram as próprias mãos”, acrescentou. “De facto, esses líderes são mais responsáveis, porque eles não matam uma pessoa ou duas. Eles são responsáveis por todas as mortes.”

De acordo com a BBC, a equipa de investigadores tem “caixas de provas contrabandeadas da Síria”, consistindo em documentos, cartões de memória e testemunhos pessoais. O jornal New York Times publica nesta quinta-feira um vídeo muito sensível sobre que está a acontecer no Iraque e a história de um soldado que conseguiu escapar ao Estado Islâmico – não aconselhado para pessoas sensíveis.

As provas reunidas vão aos mais pequenos detalhes. Por exemplo: a gravação de uma reunião provincial do Estado Islâmico, onde se emite uma ordem para os guardas de Aleppo serem proibidos de dormir depois das 7h30 da manhã.

Ao longo do tempo da investigação, os especialistas internacionais conseguiram construir uma imagem da estrutura do EI, onde, como já era conhecido, Abu Bakr al-Baghdadi é o autodenominado líder do califado. Abaixo dele estão destacados quatro conselheiros: um responsável pela lei islâmica, um conselheiro estratégico, um responsável pelas forças militares e outro pela segurança.

Estrutura EI

(A estrutura do EI, dada à BBC pela equipa de investigação)

Segundo os investigadores, o número de estrangeiros que se querem juntar ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante tem vindo a aumentar desde que, no início deste verão, se declarou um califado. Estima-se que a sua força militar tenha crescido, nos últimos meses, de 10.000 para 30.000 militantes.

Existe uma grande diversidade de capacidades nos soldados, dizem os especialistas, sendo que os tunisinos e os chechenos são indicados como os mais valiosos quando se fala de infantaria, devido à “agressividade e experiência no campo de batalha.”

O Reino Unido tem um problema em casa

Com poucas exceções, os investigadores tendem a acreditar que os jihadistas britânicos optam por passar a fronteira da Turquia para a Síria sem qualquer experiência militar e com muito pouco conhecimento religioso. Este também é um dos percursos apontados para os jihadistas portugueses, como o Observador já noticiou.

Depois de passarem por três meses de “recruta”, onde recebem o treino militar básico e assimilam a doutrina religiosa deturpada e extremista, os novos jihadistas são destacados para locais e tarefas específicas. Este tipo de procedimento demonstra o alto nível de organização que o Estado Islâmico tem.

“À maioria dos ocidentais são dadas tarefas e cargos de baixo nível, porque eles tendem a chegar sem qualquer capacidade para combater”, disse outro investigador à BBC – nenhum membro da equipa de investigação foi identificado. “Então é assumido que eles são melhores a providenciar apoio ao grupo, pois é pouco provável que eles tenham a especialização religiosa ou militar que o Estado Islâmico está à procura.”

(Os investigadores já conseguiram estabelecer uma série de relações do líder do Estado Islâmico. Documento completo aqui.)

Apesar do principal suspeito pelas decapitações dos dois jornalistas norte-americanos ser um jihadista britânico, pensa-se que nenhum está numa posição de liderança do Estado Islâmico. O Governo britânico aponta que entre 500 a 600 cidadãos do país viajaram para a Síria estejam agora de volta ao país, conta a BBC.

Esta informação pode ajudar a explicar muitas das decisões políticas que David Cameron tem assumido nos últimos dias.

Na segunda-feira, David Cameron anunciou uma série de medidas na Câmara dos Comuns, depois de o Reino Unido ter elevado o nível de alerta de ameaça terrorista para “grave”, dado o risco que representam os combatentes radicais de origem britânica que regressam do Iraque e da Síria com experiência de combate. As medidas reforçadas incluem a possibilidade de polícia confiscar o passaporte a suspeitos de terrorismo, o fornecimento atempado, pelas companhias aéreas, das listas de passageiros para identificar possíveis extremistas e a proibição de entrada no território de ‘jihadistas’ que tenham viajado para o estrangeiro. Cameron sublinhou que a ameaça que “a barbárie” do Estado Islâmico representa exige uma “resposta firme”, com dois objetivos: evitar que extremistas viagem para o estrangeiro e atuar contra os que se encontram dentro do país.

Uma organização eficaz

Uma das principais conclusões a que a equipa de investigadores chegou é que o Estado Islâmico é tudo menos uma guerrilha não organizada. De acordo com uma investigação da CNN, divulgada esta semana para jornalista Christiane Amanpour, a maioria dos membros da liderança do Estado Islâmico é mestrado ou doutorado em especializações militares e alguns faziam parte do Governo de Saddam Hussein, que foi deposto pelas forças militares norte-americanas. Estes elementos devem ser os principais incitadores do ódio ao ocidente, explicou a jornalista.

“Esta revelação chegou talvez há dois ou três meses atrás, quando nos debruçamos sobre as provas que tínhamos reunido”, afirmou o investigador chefe à BBC. “Apercebemo-nos que não estávamos a olhar para uma organização miliciana. Nós estávamos a ver o processo de um nascimento de uma nação.”

Provisão de serviços, “tomar conta da população”, ou seja, o básico para a criação de um Estado está assegurado e pensado.

Os investigadores esperam que os seus processos mais importantes estejam completos até ao final deste ano, mas admitem que trazer qualquer um dos suspeitos a tribunal vai ser “quase impossível neste momento”, porque estes estão bem protegidos e escondidos. O objetivo final é que estes venham a ser julgados em Haia.