A mira da chamada acertou ao lado. Foi por pouco. “Espera aí, vamos agora cantar os parabéns. Liga daqui a cinco minutos, ok?”, diz Edgar Marcelino, do outro lado, apressado para não perder os ‘parabéns a você’ que estavam prestes a serem cantados à mesa de um qualquer restaurante em Goa, na Índia. Não seriam para ele — mas para Robert Pirès, o aniversariante que, aos (agora) 41 anos, aceitou a aventura de voltar a jogar à bola.

Já não o fazia desde 2011, quando disse ‘c’est fini‘. Ou melhor, ‘é o fim’, em bom português, como o que usa para falar ao telefone com o Observador, pouco depois de ouvir os parabéns a que tinha direito. Domina a língua quase sem problemas. Culpa do pai português que, antes de Robert nascer, emigrou para França na década de 70, por não querer acabar em África a combater a Guerra Colonial. O resto é história. E houve muita a ficar colada ao nome de Robert Pirès: com a França venceu um Mundial (1998) e um Europeu (2000) e conquistou duas Premier Leagues com o Arsenal (2001/02 e 2003/04).

Pelo meio esteve na equipa que aguentou 49 jogos sem perder no campeonato inglês. É obra. Como também é o facto de Robert Pirès não ter feito a vontade ao pai e, por vontade própria, ter optado por não ir para o Benfica quando a oportunidade lhe bateu à porta, aos 20 anos. Hoje, mais de duas décadas depois, está a jogar no FC Goa, na Índia.

Olá Robert. Parabéns.

Muito obrigado. E boa tarde, não? Já deve ser aí em Portugal.

Sim, já vamos a meio.

Ah, pois, aqui são 23 menos um quarto [risos].

Alguma vez tinha imaginado que, aos 40 anos…

Quase. Acabei de fazer 41. Mas obrigado! [ri-se outra vez]

Peço desculpa. Imaginava que com 41 anos ainda iria estar a jogar futebol na Índia?

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Não, nunca. Mas não estou aqui por mim. Vi e ganhei muitas coisas em França, na Inglaterra, na Espanha e na seleção francesa. Estou aqui, com três portugueses também [além de Edgar Marcelino, Bruno Pinheiro e Miguel Herlein também estão no FC Goa], para ajudar o país e os seus jogadores. Estamos também para jogar, claro, mas sobretudo para ajudar. No futebol devia haver sempre alegria. É assim que vejo a vida e o futebol, também.

Mas nunca teve a alegria de jogar no Benfica.

Sim, sim, isso era o sonho do meu pai, que é português. Ainda tenho família em Portugal. Em Lisboa e perto de Braga. Ali em 2007/2008, quando estava no Villarreal, só não aconteceu porque renovei com o clube espanhol. Mas eu sou benfiquista.

E não houve hipótese de assinar pelo Benfica quando era miúdo?

Sim, sim, tive essa oportunidade. Quanto tinha 20 anos e estava em França, com o Metz. Mas vou ser sincero. Não quis jogar pelo Benfica. Era um grande de Portugal, um grande da Europa, e eu achava que, naquela altura, com aquela idade, era grande de mais para mim. Tinha acabado de sair da formação do Metz e quando ouvi que o Benfica me queria contratar fui logo contar ao meu pai. Mas era demasiado grande. Portanto fiquei em França, depois fui para o Marselha e, uns anos depois, acabei no Arsenal.

O pai não empurrou o filho para o lado português?

[Muitos risos] Claro, o pai empurrou, a família também. O meu pai era um grande adepto do Benfica. Eu estava contente, mas não podia ir. Na altura era muito grande para mim. Queria jogar e ter muita alegria, e sabia que no Metz iria jogar.

Jogou três vezes contra Portugal pela seleção francesa [em 1997, 2000 e 2001]. Chegava para dividir o coração?

Sim, sim, claro. É normal. Por um lado tinha que jogar para o meu país, para a camisola francesa, porque nasci lá e formei-me em França. Mas do outro lado tinha a família portuguesa, que estava comigo e queria que Portugal ganhasse. Era complicado entrar em campo e ver que à minha frente estavam portugueses.

Ganhou os três encontros…

E repara: o jogo mais importante foi a meia-final do Europeu [em 2000, quando tudo acaba com o penálti de Zidane, depois da mão de Abel Xavier], que depois nos levou à final com a Itália, que ganhámos. Nesse momento o meu pai ficou muito contente. Tinha ali o filho a jogar com a camisola francesa e, do outro lado, via a seleção do seu país a jogar. Quase que o vi a chorar por Portugal. Para ele é que foi muito, muito complicado [risos outra vez].

Tem saudades de jogar numa equipa que, durante muito tempo, raramente perdia [falamos dos ‘Invencíveis’ do Arsenal, que entre maio de 2003 e outubro de 2004 estiveram 49 jogos sem perder na Premier League]?

Sabes que para mim e todos os outros foi um momento muito especial. Em Inglaterra o futebol é muito complicado. É um recorde muito bom. Mas para mim claro que era fácil. Jogava com o Bergkamp, o Henry, o Vieira… E quando tens um treinador como o Wenger, vais para o campo e o futebol parece muito fácil.

Será que alguma equipa conseguirá fazer melhor entretanto?

Sim, já sabemos que um dia isso acabará por acontecer. É assim na vida e no futebol também. Os recordes são para alguém os bater. A Juventus do Buffon, por exemplo, quase chegou aos 50 [perdeu ao 49.º jogo, como o Arsenal, em novembro de 2012]. O que fizemos no Arsenal foi muito bom. E antes, para mim, até havia mais competição.

E aí na Índia acompanha as ligas europeias? Ou só o Benfica?

[Mais uns risos] Claro, estou até ao fim com o Benfica. É a minha equipa. Sei que perdeu este sábado, 2-1, em Braga. Estou sempre atrás do Benfica, sempre.

Há quanto tempo não vai ao Estádio da Luz?

Estive lá na final da Champions League, a ver o Atlético-Real Madrid. O estádio é especial para mim e quando recebi o convite disse logo que, naquele dia, claro que ia lá estar.