Setenta artistas plásticos portugueses fizeram uma intervenção artística em cavaquinhos e o resultado será revelado em novembro, num livro e numa exposição no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, revelou à agência Lusa o músico Júlio Pereira.

A exposição, que inaugurará a 27 de novembro, tem por objetivo dar visibilidade ao cavaquinho, um pequeno instrumento de cordas que está a ser objeto de estudo, através da Associação Cultural e Museu Cavaquinho, fundada por Júlio Pereira.

No total estarão expostos 70 cavaquinhos que foram transformados em objetos artísticos, com recurso a diversos materiais e técnicas. Entre os artistas convidados estão Cristina Troufa, Luís Lázaro, Júlio Dolbeth, Joana Astolfi, Joana Rego, Carlos Zíngaro e Marta Madureira.

Rui Lacas, André Letria, Graça Bordalo Pinheiro, Tiago Taron, Pedro Sousa Pereira e Teresa Gil também fazem parte do projeto que, além da exposição, resultará na edição de um livro.

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Entre os objetos de arte, há instrumentos que fazem referência direta à música, outros serviram de tela para uma pintura ou colagem em papel; houve quem o transformasse numa caixinha de música, num mural interventivo com referências à austeridade e à “troika”, quem o tivesse forrado com tachas e lhe acrescentasse adereços.

O critério foi escolher, sobretudo, jovens criadores portugueses de vários pontos do país, a quem lhes foi dada “carta branca” para fazer o que quisessem àquele pequeno instrumento, explicou Júlio Pereira.

“70 Artista Plásticos – 70 Cavaquinhos – 70 Obras de Arte” estará no Mosteiro dos Jerónimos até janeiro, seguindo depois em itinerância por, pelo menos, dez cidades, como Viana do Castelo, Braga, Porto, Coimbra e Funchal, que têm ligações à prática do cavaquinho.

O projeto da exposição e do livro, com registo de todos os cavaquinhos intervencionados, conta com o apadrinhamento dos artistas plásticos Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis e Julião Sarmento.

Para Júlio Pereira, tanto o livro como a exposição pretendem dar visibilidade a um projeto maior, iniciado recentemente: Cartografar a identidade de um pequeno instrumento de cordas, popular, de tradição minhota e que deu a volta ao mundo ao longo dos séculos, deixando descendência no Brasil, em Cabo Verde, no Havai e na Indonésia.

Esse trabalho de investigação está a ser feito pela Associação Cultural e Museu Cavaquinho, criada em 2013, e inclui inventariação de modelos do instrumento, partituras, tocadores, compositores e construtores de cavaquinho em todo o mundo.

“O trabalho ainda não é conhecido, porque não há muita coisa concreta e porque se está a fazer trabalho de campo. Fazer inventário é uma coisa de bastidores”, explicou Júlio Pereira.

O músico compara este trabalho com o que se fez com o fado: dar-lhe mais protagonismo, aproximá-lo dos portugueses, internacionalizá-lo.

“É uma realidade patrimonial que tem a ver com a prática do cavaquinho e que temos de encarar como uma coisa gira e boa, em vez de estar fechada para obras como esteve tantos anos, eu diria séculos”, alertou.

Em julho, a associação assinou um protocolo com a Direção-Geral do Património Cultural, com o objetivo de registar “saberes e técnicas relativos à construção do cavaquinho”, numa “inventariaçaõ sistemática do património imaterial relativo à construção do cavaquinho”.

São passos essenciais para, num futuro próximo, a associação avançar com uma candidatura do cavaquinho a Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO).

Júlio Pereira tem consciência que este é um trabalho demorado, pela pesquisa no território e noutros países, pelas dificuldades económicas, pela falta de mecenas: “É um património extenso e há muita coisa para fazer”.

Em 1981, Júlio Pereira lançou o álbum “Cavaquinho”, cujo sucesso definiria o seu percurso na música, nos anos seguintes.

Trinta anos depois voltou a compor por inteiro para aquele instrumento, tendo lançado, em janeiro, o álbum “Cavaquinho.pt”.