Um exército organiza-se imaginando as batalhas que se avizinham. Estratégias, armas e manobras de diversão são preparadas meticulosamente. Os guerreiros treinam, praticam e simulam para a hora H. O comandante inspira-os, com discursos e mensagens que indicam o caminho da glória. Depois, a bravura, audácia, perícia e os acasos do universo ditam o fado do conflito. E traições? Também há, sim senhor. No futebol essas traições chamam-se golos na própria, e o Sporting é perito nesta cantiga. Depois do galo de Jefferson esta noite contra o Maribor, os leões contam já com quatro autogolos esta época, sendo que dois deles foram na Liga dos Campeões (o outro foi Slimani vs. Schalke). Mas respirem, sportinguistas, os guerreiros de Alvalade fecharam a porta a surpresas: 3-1 vs. Maribor.

O jogo começou mexido, com o Sporting a querer mandar na bola. O primeiro golo não tardou muito a chegar. Foi logo ao minuto 10, depois de uma correria desenfreada de Jefferson, que cruzou para o segundo poste. Aí, apareceu de rompante Carlos Mané, que dividiu o protagonismo com Mejac, para desviar para o fundo das redes. A UEFA deu o golo ao defesa do Maribor, 1-0. Por essa altura chegavam boas notícias da Alemanha: o Chelsea já vencia o Schalke desde o primeiro minuto, o que ajudava e muito para os portugueses chegarem ao segundo lugar do Grupo G.

O Maribor reagiu bem, tentava trocar a bola, mostrava alguma qualidade a espaços, mas a fragilidade acabaria por vir ao de cima. Isso e a qualidade do Sporting. Os eslovenos já haviam empatado três vezes neste grupo, o que servia de aviso sério à tripulação. Cédric, com o pé esquerdo, foi o homem que se seguiu a tentar a sorte; valeu Handanovic com uma grande defesa. Do outro lado, a resposta chegou a 30 metros da baliza, por Vrsic. Mas redes a dançar nem vê-las…

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À meia hora de jogo, o Chelsea já vencia por 2-0, cortesia de Terry e Willian, o que permitia ao Sporting, mais do que nunca, sonhar com os oitavos-de-final. Apesar de os lisboetas estarem a controlar o jogo, notava-se que muitas vezes estavam distantes uns dos outros. Mas, com a bola no pé, a diferença entre as duas equipas era gritante. Aos 35′, chegou o golo da noite. Nani, com o seu jeito craque-molengão-calma-eu-trato-disto, entrou na área, desviou dois, três jogadores e rematou. Um carrinho de um esloveno fechou-lhe a porta do golo, mas a bola sobrou para o n.º 77 outra vez. Depois decidiu brincar com mais um, dois, três rivais e marcou finalmente, 2-0. Marco Silva parecia estar prestes a dizer coisas feias ao internacional português. É um jogador que não é deste campeonato — quatro golos em cinco jogos na Champions (60.º jogo na competição).

Muito perto do intervalo, o acerto no passe dos leões estacionava nos 82%, o que é um valor muito aceitável e que atesta a qualidade técnica destes jogadores que vestem de verde. Também é verdade que a oposição deixa algo a desejar, e que não é muito forte na pressão. Aos 42′, Jefferson traiu a equipa e encostou por engano, após jogada e cruzamento de Mejac. Um jogo que tinha tudo para ser fácil acabava de complicar-se. Já o Chelsea fazia bem o trabalhinho e vencia por 3-0.

O intervalo acabaria por trazer escuridão a Alvalade. Nada negativo para o futebol da equipa de Marco Silva. É literal. Os holofotes do estádio perderam gás e houve um grande atraso no arranque da segunda parte. É importante lembrar que os regulamentos da UEFA preveem uma multa de 250 mil euros quando, em jogos da fase de grupos, uma equipa não ofereça as condições para uma partida se disputar com normalidade. Ficam para a posteridade as fotografias de alto gabarito…

A segunda parte prometia um festival. Uma goleada das antigas, um vendaval de golos. E houve oportunidade para isso. As mais flagrantes pertenceram a Slimani, Carrillo, William e João Mário. O melhor jogador da equipa, Nani, é como um carteiro, que entrega com muito brio e responsabilidade a bola aos outros para brilharem. Este homem está de volta. Também ele esteve perto de bisar. Pelo meio, aos 65′, o tão prometido golo chegou. João Mário surgiu na direita e sacou um excelente cruzamento para o segundo poste. Nas alturas, Nani teve dificuldades para chegar à bola e apenas desviou a rota da mesma. Felino, Slimani reagiu mais rápido que os outros e atacou a bola, encostando depois com o pé esquerdo, 3-1. Este argelino tem golo.

Apito final em Alvalade. A maior desilusão voltou a ser William Carvalho, por se esperar tanto dele, mas o médio tarda em dar resposta. Está lento, pouco influente, pouco ativo. Está a anos-luz do que foi na época passada, e há já quem fale que lhe faz falta uma viagem até ao banco de suplentes. Os centrais, Paulo Oliveira e Maurício, tiveram pela frente um rival mole, pelo que não tremeram como tem sido hábito. Ou então, estão a acertar. O Chelsea ganhou 5-0 na Alemanha, o que permitiu ao Sporting subir ao segundo lugar do Grupo G (basta um empate na última jornada). Teremos o Sporting a piscar o olho a Real Madrid, Bayern Munique e Barcelona?