Passados seis anos da queda do Banco Privado Português (BPP), João Rendeiro lança um novo livro que reflete sobre a crise financeira e os vários episódios que abalaram o país e a banca no pós 2008.
Para o antigo banqueiro, o livro Arma Crítica, que reúne muitos dos artigos que colocou no seu blogue nos últimos anos, representa o fechar de um ciclo e a entrada numa nova fase. Seis anos antes, ao mesmo tempo que o banco que criou se afundava, João Rendeiro lançava outro livro: Testemunho de um Banqueiro – a história de quem venceu nos mercados.
Na cerimónia de apresentação feita em novembro de 2008 não faltaram empresários e investidores ligados ao projeto do BPP, entre os quais Stefano Saviotti e Pinto Balsemão que fez a apresentação do livro. Também o então presidente do Banif, Horário Roque, esteve presente.
O ambiente era tenso na sequência da notícia então conhecida de que o Banco Privado tinha pedido um financiamento de 750 milhões de euros ao Estado que foi recusado. Um mês antes, na ressaca da falência do Lehman Brothers e da crise financeira, tinha sido nacionalizado Banco Português de Negócios (BPN).
Rendeiro, à data presidente não executivo do Privado, recusou falar da situação do banco, embora tenha admitido não era o melhor dia para apresentar o livro de um banqueiro de sucesso. Pinto Balsemão um dos investidores do BPP recusou também falar aos jornalistas, tendo no entanto reconhecido que o banco estava atravessar dificuldades que esperava, fossem ultrapassadas. Não foram.
O BPP faliu depois de um empréstimo de emergência de 450 milhões de euros da banca que o Estado avalizou. A garantia foi acionada e o Estado ainda hoje procura recuperar o montante através da execução dos colaterais entregues pelo banco. A ajuda foi declarada ilegal pelo Tribunal Europeu de Justiça esta sexta-feira. Para João Rendeiro, a decisão confirma que o trabalho do governo de José Sócrates e do Banco de Portugal foi uma “verdadeira farsa”. O antigo banqueiro assinala contudo: a “boa notícia é que o dinheiro existe na massa solvente” e que mais de 80% dos clientes receberam a totalidade do seu dinheiro.
Esta sexta-feira no Grémio Literário havia muito menos figuras do mundo dos negócios. Mira Amaral, presidente do BIC Portugal foi uma exceção. Ainda assim, Rendeiro agradeceu a presença dos “amigos de verdade”, entre eles, um dos maiores investidores no Privado, Hélder Caetano, e o ex-ministro da Educação David Justino, um antigo colega de escola, que apresentou o livro.
Nas 500 páginas de Arma Crítica, o antigo banqueiro fala sobre as crises em outros bancos, mas faz também uma reflexão sobre a crise financeira cuja origem esteve no excesso de dívida, porque enquanto protagonista sentiu a necessidade de perceber “o que tinha acontecido”. Rendeiro conclui que as autoridades em Portugal se recusaram a ver a realidade e mantiveram um discurso e políticas de sucesso, numa referência ao antigo primeiro-ministro José Sócrates.
A crise financeira de 2008 é também o pano de fundo para o colapso de outro banco, o Banco Espírito Santo. Sobre o BES, Rendeiro aponta o dedo ao Banco de Portugal que deveria ter afastado Ricardo Salgado quando foram conhecidos os primeiros problemas no Grupo Espírito Santo no verão de 2013, mas não poupa Passos Coelho, a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários, nem outros banqueiros da família como José Maria Ricciardi.
Sobre os processos que tem contra si, Rendeiro disse apenas aguardar “serenamente” pelos seus desenvolvimentos.