“Depois da estátua patética – que associa força e sexualidade a um falo desmesurado (…) temos a mãe ‘carcacinha’ e a Casa dos Segredos a ser vista da sala VIP como sinónimo de uma noite de glamour. É uma vergonha, uma piroseira, uma monstruosidade que deforma o povo deformando os seus heróis (…)”. Foram estas as palavras escolhidas por Raquel Varela para descrever a passagem de ano de Dolores Aveiro (mãe de Cristiano Ronaldo) e que a colocaram no centro da polémica.

Raquel Varela é historiadora de formação, com especialização na história dos movimentos sociais na Península Ibérica e em questões relacionadas com a evolução do movimento operário português e do Estado Social. Além de investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, coordena, ainda, o projeto internacional In the Same Boat? Shipbuilding and ship repair workers around the World (1950-2010). É, também, presidente da International Association Strikes and Social Conflicts e vice-coordenadora da Rede de Estudos do Trabalho, do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal. Cronista ocasional no jornal Público, a investigadora é uma das principais colaboradoras da revista Rubra, de que já se apresentou como diretora – uma publicação de influência assumidamente marxista e radical, revolucionária.

Com várias obras publicadas, como “Quem paga o Estado Social em Portugal?” (coordenadora)”, “História da Política do PCP na Revolução dos Cravos” (autora), entre outras, tornou-se uma cara conhecida dos portugueses quando, a 20 de maio de 2013, no Programa “Prós & Contras”, confrontou Martim Neves, um jovem de 16 anos anos que acabara de lançar a sua própria marca de roupa, sobre as condições em que eram feitas as camisolas que produzia – alegando que seriam produzidas em países emergentes, mais precisamente na China – e questionando-o sobre as condições salariais dos funcionários.

A resposta de Martim Neves a Raquel Varela tornou-se rapidamente viral: “Ao menos os trabalhadores que ganham o salário mínimo não estão no desemprego”.

De então para cá, Raquel Varela tem conseguido um maior espaço mediático, tornando-se, desde 6 de outubro, uma das comentadoras do programa da RTP Informação, “Barca do Inferno”, espaço que divide com Isabel Moreira, Manuela Moura Guedes e Sofia Vala Rocha. Defensora da suspensão unilateral do pagamento da dívida pública e crítica feroz dos cortes no Estado Social e do Governo de Pedro Passos Coelho, a historiadora tem somado algumas declarações polémicas que suscitaram discussão nas redes sociais, em blogues e em espaços de comentário político.

A 22 de dezembro, a historiadora foi alvo de críticas depois de ter publicado na sua página do Facebook, imagens do jantar com Isabel Moreira. Entre os principais reparos dirigidos a Raquel Varela estava o facto de, aparentemente, o jantar ter tido um custo que não seria suportável para a maioria dos portugueses. A investigadora, então, respondeu assim:

“[As críticas refletem] o espírito de Passos Coelho, com o seu fato de alfaiate de segunda, morador suburbano, que caiu sobre algumas almas, convencidas mesmo que ‘andaram a viver acima das possibilidades'”.

Estas palavras e os comentários tecidos sobre Ronaldo e Dolores Aveiro, pouco tempo depois, valeram-lhe críticas. Mais uma vez, a reação de Raquel Varela não se fez esperar.

Começando por esclarecer que a sua crítica não incidia sobre Dolores Aveiro “enquanto indivíduo”, mas era antes um reflexão sobre o estado da programação televisiva em Portugal, designadamente a falta de preocupação com o plano cultural, Raquel Varela assegurou que a sua intenção era “dar uma opinião sincera sobre o que vemos e refletimos, deixando que, como em tudo na vida, as pessoas possam escolher, mas possam escolher depois de ouvir o contraditório”.

“Seria paternalismo impor aos outros as nossas escolhas, mas é totalitarismo cultural não os confrontar com outras alternativas”, pode ler-se no artigo publicado no seu blog, intitulado “O Bom e o Mau Povo Português”.

No entanto, Raquel Varela aproveitou para voltar à carga e dirigiu novas críticas a Pedro Passos Coelho, comparando-o, desta vez, ao atual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e a António Oliveira Salazar.

“Passos Coelho cultiva, como Cavaco Silva, um estilo austero e humilde, na roupa, nos lugares onde moram, o mesmo Passos Coelho que criou, segundo o INE, um milhão de pobres, nos mesmos anos, segundo o CreditSuisse, que criou 28% de novos milionários (…). Como Cavaco Silva, de porte humilde e até meio déclassé, mas que iniciou com as privatizações o processo de destruição das empresas públicas (…)”.

A comparação vai mais longe: Raquel Varela estende-a Salazar, líder do Estado Novo.

Salazar foi quem começou o estilo, é verdade. Criou os maiores grupos económicos da história do país com condicionamento industrial e disciplinarização da força de trabalho, proibição de partidos e sindicatos, e trabalho forçado nas colónias. Sempre discreto, com um ar de pobre, ‘pobrezinho mas com fartura de carinho’. Ele sacrificava-se pelo povo, como Passos Coelho e Cavaco Silva“.

“Álvaro Cunhal nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal”

A 25 de abril de 2011, em entrevista ao Público, foi a vez do PCP e de Álvaro Cunhal estarem no centro das declarações de Raquel Varela.

De acordo com a historiadora, sustentada em fontes documentais que serviram de pano de fundo para a sua tese de doutoramento, Álvaro Cunhal “nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal”. Na verdade, desenvolveu um projeto de capitalismo regulado, que não previa a saída de Portugal da NATO ou o fim da propriedade privada. Prova disso foi a tentativa falhada de golpe de Estado a 25 de novembro, que decorreu sem o apoio do PCP – na verdade, o golpe “estava a ser preparado desde o verão pela direita, para pôr fim ao processo revolucionário”.

“O que o PCP queria era estar integrado num Governo com o PS, queria negociar lugares com os socialistas. [Por isso], nunca tentou fazer um golpe no 25 de novembro ao qual o PS, o Grupo dos Nove e os setores mais à direita responderam com um contragolpe”.

Só a posição de Álvaro Cunhal evitou a guerra civil e o sucesso das forças militares afetas à extrema-esquerda. “Aquilo que o PCP controlava (…), os fuzileiros e a Intersindical, recebe ordens para recuar. As unidades militares de esquerda tinham mais força do que as de direita e, no entanto, não reagem a um golpe que acontece e termina sem mortos. É a única justificação para terminar sem mortos é porque o PCP acorda em não resistir”, sustentou a investigadora.

Esta versão dos acontecimentos, para muitos surpreendente, fez com a que a polémica entrevista tivesse voltado a ser partilhada e comentada nas redes sociais.

A dívida dos portugueses ao Estado “não existe”

Em 2012, pouco antes de apresentar o livro “Quem Paga o Estado Social em Portugal”, Raquel Varela deu uma entrevista à TVI, onde revelava algumas das conclusões do estudo conduzido pela equipa de investigadores coordenada por si, designadamente a ideia de que a dívida dos portugueses ao Estado “não existe”, que os trabalhadores “pagam o suficiente para todos os gastos sociais do Estado” e que “na maioria dos anos, os trabalhadores até pagam a mais, apesar de o Governo nunca ter prestado contas”.

“Usamos dados que têm a ver com impostos que recaem sobre o trabalho e subtraímos a esse valor os gastos sociais do Estado. As conclusões a que chegámos é que, na esmagadora maioria dos casos, os trabalhadores pagam mais do que recebem do Estado, em diverso tipo de serviços”, garantia Raquel Varela.

No documento de apresentação do livro, podia ler-se, entre outras coisas, que o sistema em vigor está “semi-moribundo, sobretudo depois da crise de 2008 e, para não morrer, socorre-se dos impostos. (…) Os modelos e as contas que foram feitas não são modelos marxistas que vêm da fórmula clássica de que só o trabalho produz riqueza, nem são modelos qualitativos”.

A obra abordava ainda a questão das Parcerias Público-Privadas e a relação entre grandes empresas e o Estado. As conclusões a propósito desta matéria e dos temas da dívida pública e do Estado Social geraram, naturalmente, um grande debate e tiveram bastante projeção mediática.

As grandes empresas vivem à conta dos impostos do Estado. Ou seja, não sobrevivem nem têm lucros se não contabilizarmos a massa de valor que é transferida para estas empresas através de esquemas, que são muitos”.

“A única forma de sustentar a segurança social é reduzir o horário de trabalho sem redução salarial”

O espaço de comentário na RTP Informação tem servido de palco para a defesa de alguns dos temas mais caros à historiadora. No programa emitido a 27 de outubro, Raquel Varela defendeu, como o fez noutras ocasiões, a suspensão unilateral do pagamento da dívida pública.

“A dívida pública é um negócio privado. A dívida não tem sido um drama para todos os portugueses – tem sido para alguns um jackpot, que fez com que 870 portugueses tenham uma fortuna equivalente a 45% do PIB e, do outro lado, 46% da população seja oficialmente pobre (…)”, começou por dizer a autora de “Quem Paga o Estado Social em Portugal?”.

Num texto publicado no seu blogue, Raquel Varela recupera a sua intervenção no programa e acrescenta:

“Há 2 renegociações de facto. Renegociar, se for de forma favorável aos assalariados – 90 a 92% da força de trabalho – implica de facto um default e os detentores dos ativos vão provocar fuga de capitais – renegociar teria que ser sempre precedido pela suspensão neste caso. A renegociação com o acordo dos credores implica, a ser realizada, a manutenção de um protetorado de facto. Quem vai garantir esse juro bonificado ou alargamento dos prazos? Suspender a dívida tem consequências também – vai gerar fugas de capitais e por isso, a rigor, deve-se ter total controlo público sobre o setor bancário e financeiro antes de suspender a dívida, para evitar essa fuga”.

Tal como admitiu a própria, conduziria à saída de Portugal da moeda única e o euro “desapareceria ou sofreria uma forte desvalorização”.

A sustentabilidade da Segurança Social foi outro dos temas que já esteve em cima da mesa no debate que, todas as segundas-feiras, junta a investigadora, Manuela Moura Guedes, Isabel Moreira e Sofia Vala Rocha. No programa exibido a 10 de novembro, Raquel Varela defendeu que: “(…) A única forma de sustentar a Segurança social é reduzir o horário de trabalho sem redução salarial. Não há outra forma. A segurança social vai colapsar se não há rapidamente uma redução do horário de trabalho, para que toda a gente trabalhe e se ponha fim ao desemprego. [Assim] toda a gente desconta, obviamente”.

A ex-apresentadora do Jornal Nacional de Sexta-feira da TVI questionou, então: “E como é que as empresas aguentam?”. A resposta de Raquel Varela foi pronta:

“Uma empresa que paga o salário mínimo e que não pode pagar mais do que isso – o que significa que os seus trabalhadores não conseguem chegar ao fim do mês [com recursos para] se alimentarem – não tem condições para ser uma empresa. Não tem que se aguentar. Ou seja, não tem mesmo que se aguentar”, repetiu Raquel Varela.

No mesmo programa, em reação ao comentário de Sofia Vala Rocha, que questionava a diferença de tratamento mediático em relação aos movimentos de extrema-esquerda e de extrema-direita – no caso, o Podemos (Espanha) e a Frente Nacional (França) e o UKIP (Reino Unido) -, Raquel Varela acusou a colega de “falácia argumentativa”.

“É uma lufada de ar fresco defender o Estado Social e [pelo contrário] é uma coisa assustadora e catastrófica defender a expulsão de imigrantes e a segregação social. (…) Quem defende o trabalho para todos, quem defende o Estado Social, quem defende que os setores estratégicos não devem servir para fazer negociatas e depois fugir para o estrangeiro, é igual a quem defende a segregação dos imigrantes?“.

 Passos Coelho, “O Homem Sem Qualidades”

No último programa do ano de 2014, Raquel Varela voltou a apontar agulhas para Passos Coelho, “o homem sem qualidades”, servindo-se da personagem criada por Robert Musil e que serve de título à sua obra – “um homem que não tem qualidade nenhuma a não ser a falta de espinha dorsal”, explicou a investigadora.

Referindo-se ao currículo do primeiro-ministro, como um “currículo única e exclusivamente feito através de uma forma de alpinismo social nas juventudes partidárias e no partido” e que “envergonha alguém para sair de casa quanto mais para ser primeiro-ministro”, Raquel Varela acusou o primeiro-ministro de ter conseguido tudo a que se tinha proposto: em suma, deixar “o país com mais de 50% de pobres e 30% e milionários”.

A historiadora utiliza por vezes uma linguagem radical e violenta, de que é exemplo um post num blogue onde colaborava, o 5 Dias de critica à UGT: Urge “Guilhotinar” os Traidores.

“Deixo aqui uma lista para que se torne público quem assinou este acordo e se encham de vergonha. Quando romperem com a UGT serão aplaudidos aqui também. Também já aqui se lembrou que traição não é uma palavra exclusiva da UGT, embora o salto qualitativo nesta seja evidente”.

O Observador tentou recolher o testemunho de Raquel Varela, mais precisamente sobre os últimos comentários sobre Passos Coelho e o clã Aveiro, mas a historiadora não se mostrou disponível para se pronunciar sobre o assunto, considerando que as críticas em artigos de opinião de colunistas, nomeadamente, do Observador que recebeu não discutiram as suas ideias mas apenas “fait-divers em substituição precisamente do que poderia ser objeto de polémica”. “Assim, espero que compreenda que não considere oportuno dispor do meu tempo para discutir com o Observador sobre onde janto, com quem janto ou o meu gosto por fatos”, respondeu por email.