2014 acabou com mudanças estruturais no mundo da moda e ondas de choque a elas associadas. A 12 de dezembro a Kering SA enviava um comunicado às redações onde dava conta da saída do CEO da Gucci, Patrizio di Marco, e da diretora criativa, Frida Giannini. A saída de dois pesos pesados gerou desde logo burburinho, com o nome do estilista Tom Ford no centro dos rumores (influenciou o futuro da marca e dela saiu em 2002) — seria este o regresso do afamado estilista? Não, não era. A ocupar o lugar de Giannini está, desde finais de janeiro, um homem da casa e um nome pouco conhecido, Alessandro Michele.

A reestruturação de uma Gucci financeiramente em apuros é notícia esta terça-feira no New York Times, publicação que teve acesso a um documento redigido por di Marco e onde se torna claro que o ex-CEO foi despedido e que a saída não foi desejada e muito menos bem recebida. A 18 de dezembro, di Marco falou a empregados da Gucci num refeitório da empresa em Florença, Itália. O discurso proferido foi inspirado no memo com quase 3,000 palavras que escrevera e enviara aos seus agora ex-colegas nesse mesmo dia.

Citado pelo New York Times, di Marco mostrou-se “amargo”, distribuindo culpas a inimigos  — não relevou nomes, mas referiu-se a eles como “anões”, os alegados culpados de uma queda sem estilo. “Contra a minha vontade, deixo a minha catedral incompleta”, escreveu no respetivo documento a que o jornal teve acesso e que traduziu de italiano para inglês. “É uma pena que não seja capaz de ver como é que esta bela história teria continuado”.

Mais do que colegas de trabalho, di Marco e Giannini são um casal. O envolvimento romântico, que só mais tarde veio a público, poderá ter estado na origem do duplo despedimento. Em 2012 o casal teve uma filha, mas esse foi também o ano em que o crescimento da Gucci chegou a um “impasse”, tal como escreve o NYT. A marca que até então tinha um dos shows mais aguardados no calendário europeu passou a ter apenas “só mais” um desfile. O lucro operacional da Gucci caiu 6,7% em 2014.

Mais, quando se soube em dezembro que Giannini estava de partida, depois de 12 anos ao servido da empresa, foi-lhe dada uma oportunidade para sair com honra — mostraria a sua coleção de homem no show de janeiro e a de mulher um mês depois. Tal não aconteceu devido a tensão interna que entretanto se gerou entre ela e a Gucci. Uma semana depois da chegada do substituto de di Marco, Mr. Bizzarri considerou a situação intolerável. A 9 de janeiro, Giannini foi demitida.

Mas se o duplo despedimento foi recebido com surpresa no meio da moda, isso não foi nada comparado com a reação geral assim que se soube quem iria substituir a diretora criativa de oito anos — Alessandro Michele, um colega de longa data de Giannini e com quem ela havia entrado para a Gucci. A pergunta que ecoou no mercado do estilo foi um redondo “Quem?”. A resposta vem agora. Cabe a Michele apresentar a sua primeira coleção muito em breve — outono-inverno, 25 de fevereiro, Milão.