Foram meses e meses de entrevistas. Entre ciclistas, médicos, diretores de equipas, especialistas em anti-doping ou antigos dirigentes da União Internacional de Ciclismo (UCI, na sigla inglesa), foram 174 as pessoas que falaram com uma comissão independente, criada pela entidade que rege a modalidade a nível mundial. O objetivo era investigar o doping no ciclismo e as formas como, nas décadas de 1990 e 2000, o desporto lidou com o problema. E a conclusão dá poucos motivos para alguém sorrir: “Não ouvimos ninguém credível dizer, no contexto do doping, que hoje passaria um atestado de saúde à modalidade.”

A investigação, conduzida pela Comissão Independente para as Reformas, criada pela UCI em janeiro de 2014, durou 13 meses e gastou perto de três milhões de euros. E as críticas compiladas em 227 páginas são várias: como as apontadas a antigos presidentes da entidade, que se preocuparam “mais com a imagem da UCI do que em erradicar o doping” da modalidade, ou as indicadas a diretores de equipas e patrocinadores, que fecharam os olhos ao problema a troco de recompensas financeiras. “É claro que, no passado, a UCI sofreu gravemente com a falta de boa gestão e as pessoas que tomarem decisões sozinhas”, disse Brian Cookson, presidente de UCI desde setembro de 2013, ao divulgar o relatório.

O documento, aliás, acusa os anteriores líderes da entidade — Hein Verbruggen, entre 1991-2005, e Pat McQuaid, antecessor de Cookson no cargo –, de “uma tácita troca de favores” e de “um tratamento preferencial” com Lance Armstrong, entre 1999 e 2009. O ciclista norte-americano conquistou o Tour (Volta à França), consecutivamente, entre 1999 e 2005, mas os títulos ser-lhe-iam depois retirados, em agosto de 2012, quando a USADA, a agência anti-doping dos EUA, provou que Armstrong tinha “participado no mais sofisticado esquema de doping” na história do ciclismo. Armstrong, recorde-se, sobreviveu a um cancro nos testículos e o tratamento à doença era muitas vezes argumentado para as substâncias usadas. Acabou por confessar-se no programa da Oprah.

Em 2006, a UCI publicou um relatório que na altura se propôs a investigar as suspeitas de doping que pairavam sobre o primeiro Tour conquistado pelo ciclista, financiado pelo próprio Lance Armstrong. Antes, em 2001, o norte-americano também terá subornado a UCI para ocultar os resultados de um teste anti-doping, no qual o atleta, hoje com 43 anos, teria acusado várias substâncias proibidas. “A UCI não averiguou se as alegações contra Armstrong eram, ou não, fundadas, e recuou antes para uma posição em que qualquer ataque [ao ciclista] era um ataque ao ciclismo e à liderança [da entidade]”, concluiu o documento, divulgado esta segunda-feira, citado pelo The Guardian.

Lance Armstrong chegou a dizer em janeiro, numa entrevista à BBC, que voltaria a dopar-se caso estivesse em 1995, numa altura, garantiu, em que “o doping estava em todo o lado”. Durante a década de 2000, concluiu o relatório, houve “provas suficientes para, pelo menos, justificar um teste em específico a Lance Armstrong da parte de todas as agências competentes”. Em 1999, aliás, é avançado que o norte-americano terá subornado um médico que, na Volta à França, submeteu uma ficha clínica antiga a um controlo anti-doping, para impedir que o teste do ciclista desse positivo.

A BBC resumiu algumas das conclusões que foram publicadas no relatório:

  • apesar de não o identificar, o documento cita um “respeitado ciclista profissional” que acredita que 90% do pelotão internacional ainda pratica o doping. Outro ciclista entrevistado, contudo, estimou antes esse valor em 20%;
  • os atletas estão hoje a tomar micro doses de substâncias proibidas e anabolizantes, em quantidades pequenas o suficiente para não serem detetadas nos controlos anti-doping;
  • a utilização de analgésicos ou medicamentos para a perde de peso “está difundida” e está a contribuir para casos de depressão e problemas alimentares.

O documento aponta também que produtos como o viagra ou “tabletes de cafeína”, que não constam na lista de substâncias proibidas, são hoje utilizadas pelos ciclistas. A investigação, contudo, reconheceu que o panorama, mesmo longe de erradicar o doping do ciclismo, tem melhorado desde 2006, ano em que começaram a ser introduzidas na modalidade algumas medidas — como o passaporte biológico e novos e mais modernos métodos de controlo anti-doping.

Até aí, a UCI “ignorou publicamente a magnitude do problema”, além de ter “adotado medidas inadequadas”, sobretudo no início da década de 1990, quando a Eritropoetina — ou EPO, abreviação pela qual é usualmente conhecida — começou a estar disponível e a ser utilizada no ciclismo. O próprio Lance Armstrong usou a substância e o relatório chega a escrever que, a certa altura, “teria sido difícil sobre-estimar a prevalência desta droga” na modalidade. O documento, entre tantas crítica e denúncias, concluiu também que “a cultura do doping” ainda existe no ciclismo.

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