Dois dirigentes do Sindicato dos Técnicos de Ambulância de Emergência (STAE) estiveram esta quarta-feira no Parlamento para entregar ao ministro da Saúde uma carta com o pedido de demissão do presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), Paulo Campos.

“Viemos expor ao senhor ministro as dificuldades pelas quais o INEM está a passar relativamente à sua liderança”, começou por explicar aos jornalistas Pedro Moreira, dirigente do STAE, à margem da audição onde estava a ser ouvido o ministro da Saúde e os dois secretários de Estado, no âmbito das idas regulares das equipas governamentais ao Parlamento.

Nessa carta, continuou o dirigente, são descritas “algumas situações que aconteceram e continuam a acontecer no INEM, sendo a mais recente a situação com a senhora esposa do presidente do INEM, mas também situações de nomeações e a situação que temos recentemente de mais um dirigente do INEM – a diretora dos Recursos Humanos – que se vai demitir do cargo. É a sétima ou oitava dirigente que sai do instituto e [este presidente] ainda vai fazer um ano de funções”.

Uma outra carta com igual pedido de demissão já tinha sido enviada “há meses” para o ministro da Saúde mas, na ausência de resposta, e dado o episódio mais recente que envolveu a esposa do presidente do INEM e que está a ser investigado pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS), os dois dirigentes acharam por bem entregá-la presencialmente ao senhor ministro, aproveitando a ida de Paulo Macedo à Comissão de Saúde, no Parlamento.

A missiva acabou porém por ser entregue à assessora de imprensa do Ministério da Saúde, à porta fechada, à margem da audição, que disse a Pedro Moreira que, em princípio, a reunião com o secretário de Estado adjunto da Saúde, Leal da Costa, poderia ter lugar já na próxima semana.

Leal da Costa diz que “não houve atraso no atendimento”

Momentos antes, em resposta à deputada socialista Luísa Salgueiro, o secretário de Estado adjunto da Saúde, Leal da Costa, afirmou que ao que parece indicar o procedimento levado a cabo “não prefigura de forma nenhuma uma circunstância de perturbação de atendimento”, garantindo que “não houve atraso no atendimento”. Pelo contrário, foi dada “uma resposta preferencial para a doente”, que preferia ser atendida no Hospital de Santo António, no Porto, e não no de Gaia. “Se há coisa que funciona bem em Portugal é o INEM”, acrescentou o governante, rematando que a taxa de operacionalidade das viaturas de emergência médica atingiu os 98,9% em fevereiro deste ano.

Pedro Moreira reagiu, dizendo que estas declarações são de quem “desconhece como é que está a situação do INEM”.
“Este é um dos vários problemas que afeta a imagem do instituto e a prestação de cuidados. Há situações de ambulâncias que não estão operacionais por falta de pessoal”, denunciou, revelando ainda que nos últimos meses, e quase na mesma proporção que vão saindo notícias sobre o INEM, vão sendo “abertos processos disciplinares”. Só no sindicato há seis dirigentes com processos abertos, sendo Pedro Moreira um deles.

Doente em espera para levar enfermeira ao hospital

O caso a que Leal da Costa se referia e que está a ser investigado pela IGAS ocorreu no início deste mês e envolveu a viatura médica de emergência e reanimação (VMER) de Gaia, que acompanhava uma ambulância com uma doente para o hospital de Santo António, no Porto.

Segundo a carta do STAE enviada para a IGAS a pedir a abertura do inquérito, e citada pela Lusa na altura, quando a ambulância teve de parar numa passagem de nível fechada, a condutora da VMER, que era a enfermeira de serviço terá decidido alterar a rota para que a equipa fosse rendida. O caso tornou-se ainda mais mediático porque essa enfermeira é esposa do presidente do INEM.

Ainda de acordo com o STAE, foi o próprio presidente do INEM que transportou a equipa que ia substituir a da sua mulher, tendo-a depois levado ao hospital de Gaia, onde iria entrar ao serviço. “O INEM decidiu desviar uma doente prioritária para a enfermeira, esposa do major Paulo Campos, entrar ao serviço pontualmente, no bloco operatório do hospital onde trabalha”, dizia a carta.

Dias depois, em declarações aos jornalistas, Paulo Campos sublinhou que é um dos profissionais de emergência médica mais diferenciados e, por isso, jamais atrasaria uma operação de socorro “pelo que quer que seja” e acrescentou que iria avançar com processos-crime contra quem o acusa de atrasar uma operação de socorro.

Paulo Campos, licenciado em Medicina, é oficial do quadro permanente do Exército Português e assumiu o cargo de presidente do INEM há menos de um ano.