Rádio Observador

FC Porto

Nacional da Madeira-FC Porto. Começou a quatro, às tantas passou a um, e acabou a três

Se vencesse o FC Porto ficaria a um ponto do Benfica, que perdera em Vila do Conde. Até marcou primeiro por Tello, mas Wagner empatou (1-1) e obrigou a que os dragões fiquem a três do líder

Julen Lopetegui, mesmo não vencendo o Nacional da Madeira, lembrou no final que, com este empate, o FC Porto "depende pela primeira vez de si" nos últimos meses

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Jogar para não deixar fugir o líder e jogar para se aproximar dele. As duas tarefas implicam o mesmo, ganhar. Mas são distintas. E não o são apenas pelas mexidas que provocam numa classificação, num campeonato que dá pontos em troca de resultados e ordena as equipas consoante o que vão fazendo no relvado. Porque o futebol, já se sabe, não é jogado só com os pés: o que está dentro da cabeça importa, e muito. E vestir o equipamento, calçar as chuteiras, ir aquecer e entrar num jogo para manter uma distância é bem diferente do que jogar para a encurtar para um ponto.

E isto, a bem ou a mal, entrou nas cabeças de todos os jogadores que, no Funchal, equiparam de camisola rosa e tinham dragão como alcunha. Porque ali, no estádio do Nacional da Madeira, esses jogadores talvez já estivesse alinhados no túnel, com o relvado à vista, quando aos ouvidos lhe chegou uma notícia — o Benfica acabara de perder em Vila do Conde e, de repente, o líder que antes fugia a quatro pontos podia, dali a hora e meia, ficar apenas a um de distância. E na cabeça isto pesa, ou podia pesar.

Nacional da Madeira: Gottardi; João Aurélio, Rui Correia, Zainadine Junior e Sequeira; Ali Ghazal, Saleh Gomaa e Christian; Luís Aurélio, Wyllian e Lucas João.

FC Porto: Helton; Danilo, Maicon, Ivan Marcano e Alex Sandro; Casemiro, Hector Herrera e Evandro; Tello, Brahimi e Aboubakar.

Mas só havia uma maneira de o descobrir e essa, para os dragões, só podia ser uma: ter a bola. Tê-la, passá-la até mais não, levá-la a passear no relvado e fazer com os tropeçasse o menor número de vezes possível em pés madeirenses. O FC Porto conseguiu fazê-lo, embora com mais calma que o habitual. Ao invés da pressa que às vezes aparece em quem corre para chegar perto do líder, notava-se a cautela de quem pretendia fazer as coisas bem de mais. Os dragões tinham muita bola, sim, mas a velocidade a passá-la não era muita.

Com isto, e com um Nacional, pelo meio, fechado na sua metade do campo e à espera do que os portistas fizessem, o perigo demorou a aparecer. Casemiro e Herrera acertavam quase todos os passes, mas não os tornavam rápidos. O brasileiro, aos 12’, acelerou um remate num livre que bateu, mas não acertou na baliza. Tello esticava de um lado, quase sempre à direita, onde sprintava e fintava com bola, mas de remates, nada. Brahimi, do outro lado, foi o primeiro a perceber que Evandro, ao meio, pouco se mexia e raramente tocava na bola. Por isso lá foi o argelino, jogada atrás de jogada, a pedir a bola para, com ela, fazer muitos toca-e-vai à frente da área e inventar tabelas, sobretudo, com Aboubakar ou Herrera.

O argelino da ginga com a bola colada ao pé, contudo, abusava. Perdia bolas e, nos remates, não acertava na baliza, como o mostrou aos 35’. O Nacional, pelo meio, mantinha-se preocupado em defender e as bolas que recuperava raramente eram protegidas por Lucas João o corpanzudo avançado luso-angolano a quem, lá na frente, os madeirenses confiavam a bola quando altura era para contra atacar.

Até que, pelas próprias cabeças, ou pelas instruções que, desde o banco, Julen Lopetegui não parava de gritar, os dragões perceberam que pouco uso estavam a dar às motas que tinham nas laterais. Tello e Brahimi, por tanto, passaram a pedir a bola uns metros mais dentro, à frente da área, para ali esperaram pelas correrias de Danilo ou Alex Sandro. Foi este, o canhoto, a tabelar com Evandro, aos 38’, e rematar já perto da linha de fundo para Gottardi defender a custo.

Depois, do outro lado, Tello também esperou pelo sprint de Danilo, aos 45’. Mas ignorou-o: após receber um passe de Herrera, deu uma pedalada, apontou a bicicleta para a esquerda, colocou a bola a jeito do pé canhoto e, à entrada da área, rematou em jeito e marcou. Um golo, o sétimo do espanhol no campeonato, e, sobretudo, um senhor golaço. 1-0 para o FC Porto e o Benfica, ao intervalo, já parecia estar mais perto. Na cabeça dos dragões, as que iam matutando essa hipótese, os encarnados terão ficado mesmo ao tal ponto de distância que perseguiam na Madeira. E quando voltaram do descanso, os portistas pareciam querer garantir isto mesmo

Porque logo aos 48’ houve uma falta, bem perto da área do Nacional, e Maicon fez cara séria, ajeitou a bola, recuou uns metros e concentrou-se. O que dali saiu foi uma bomba que só a barra da baliza de Gottardi não deixou explodir nas redes. Os dragões entravam fortes, ainda mais donos da redonda, que agora tinham à volta de 70% do tempo. Mesmo ao gosto de Lopetegui, que quis reforçar essa tendência quando trocou Casemiro pelo acerto dos pés de 18 anos de Rúben Neves.

Em teoria, fazia sentido.

Mas a teoria é mais vezes inimiga do que amiga da prática e, logo a seguir, aos 56’, outro livre, este para o Nacional, viu a canhota de Christian bater numa bola que só não deu golo porque Helton ganhou asas para a desviar da baliza. E foi, neste remate e nesta ameaça, que um despertador tocou nas cabeças dos madeirenses montados por Manuel Machado — começou-se a ver o Nacional que fizera “um grande jogo na Taça” e “merecia mais” contra o Sporting, tal como Lopetegui o dissera, antes da partida.

Os passes tornaram-se atinados, os contra ataques passaram a acertar nos passes e a velocidade apareceu nas jogadas que, aos poucos, foram partindo a equipa do FC Porto, cujo meio campo encostava na área adversária a confiar que ali recuperaria logo as bolas que fosse perdendo. Em suma, o Nacional acelerou o jogo que, como todos os outros, os dragões queriam manter a seu gosto, ao seu ritmo. Mais bolas, porém, iam escapando aos dragões à medida que o relógio caminhava e, Saleh Gomaa, egípcio que tem cola no pé direito, tratava de as remetar para ataques rápidos. Uma delas, aos 62’, correu-lhe mal. Porque foi parar ao pé esquerdo de Sequeira, que a cruzou tensa para a área e viu Maicon ficar parado a vê-la, Marcano a não esticar a perna para a cortar e Wagner Borges, perto do segundo poste, a rematá-la para a baliza. Empate, 1-1 e, ao fim de sete partidas, os dragões voltavam a sofrer um golo.

O ponto, o tal que, no final do jogo, poderia ser o único a se intrometer entre o FC Porto e o Benfica, passava a ter a companhia de mais dois. O alarme tocou na cabeça dos dragões e da de Danilo, que aos 66’ disparou uma arrancada que Tello viu e à qual lhe juntou a bola. O brasileiro, na passada e de primeira, rematou-a ao poste direito da baliza de Gottardi. No minuto seguinte foi Aboubakar, o camaronês que faz do colombiano Jackson, a rematar para o guarda-redes defeder. O jogo, agora sim, partia-se e o Nacional, por isso, aproveitava.

E um contra ataque, aos 72’, levado à boleia de Gomaa só não deu maior proveito porque, depois do egípcio soltar em Wyllian e de o brasileiro cruzar a bola rasteira e bem redonda para a área, Lucas João, sozinho e a dois metros da baliza, chutou-a por cima. Os dragões iam deixando de ser intensos e, com a fome de vitória, cada vez menos tranquilos no momento de pensar o que fazer à bola e quais os melhores caminhos para ela ser rematada contra a baliza do Nacional. Só os raides de Ricardo Quaresma, que com fintas se ia livrando de Sequeira, davam cruzamentos que nunca fizeram a bola chegar a Aboubakar.

O FC Porto caçava o ponto ao qual tanto queria reduzir a perseguição à liderança e o Nacional, sentido a entrar no bolso um ponto vindo do empate, foi juntando os jogadores e deliberando mais sobre as jogadas em que escolhia contra atacar. Até ao fim só Rúben Neves, aos 90’, disparou um remate para as mãos de Gottardi. E pronto, acabava. Os dragões, que tinham começado esta hora e meia de bola a rolar a quatro pontos do Benfica, passaram, a meio, a estar a um e, no final, estavam a três — dois pontos além da distância a que os jogadores jogaram para estar. A equipa, portanto, não aproveitou como podia o tropeção que os encarnados deram em Rio Ave.

Mas Julen Lopetegui, no final, bem o lembrou: “Pela primeira vez em quatro meses dependemos de nós.” E tem razão — daqui a três jornadas (24 de abril) há um Benfica-Porto onde, se a distância se mantiver até lá, os dragões passarão a liderar o campeonato caso vençam por mais de dois golos de diferença. Será isto que o treinador quererá colocar na cabeça dos jogadores. E talvez outra coisa, como também o disse: “Uma equipa que pretende ser campeã tem de superar a ansiedade.”

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)