Chamavam-lhe Lady Day. A alcunha que o músico Lester Young deu a Billie Holiday quando ambos andavam em digressão, em 1937, pegou e o mundo seguiu-lhe o hábito. Hoje, 100 anos depois do seu nascimento, chamam-lhe ainda a maior cantora de jazz de sempre, com o pop e o blues norte-americano do séc. XX a terem sido também tocados pelo timbre único e pela forma como cantava as palavras.

Nascida a 7 de abril de 1915 em Philadelphia, morreu na cidade que nunca dorme, em 1959. Bastaram-lhe 44 anos de vida para gravar o nome na história da música. As celebrações são muitas, nomeadamente nos Estados Unidos. Em Portugal destaca-se o lançamento do disco Billie Holiday – The centennial collection (ouvir no Spotify), onde se incluem 20 músicas gravadas entre 1936 e 1944, o período áureo da autora de “Billie’s Blues”.

Em 1933, Billie Holiday tinha 18 anos e ainda usava o nome de batismo, Eleanora Fagan. Cantava em clubes de jazz no Harlem, em Nova Iorque, até que John Hammond a viu em palco e decidiu apostar nela. Não podia ter tido mais sorte. Nesse mesmo ano fez a primeira sessão de gravação, ela com a voz como instrumento inconfundível e Benny Goodman – o rei do swing – a acompanhar no clarinete. O primeiro lançamento comercial foi com as canções “Your Mother’s Son-In-Law” e “Riffin’ the Scotch“. Com “Riffin’ the Scotch”, Billie canta sobre os azares do amor, quase de forma premonitória. Foi com esta canção que chegou pela primeira vez ao top.

Billie Holiday não teve uma infância fácil. Abandonada à nascença pelo pai, a mãe foi expulsa de casa por ter engravidado adolescente. Aos 10 anos foi violada por um vizinho, esteve internada numa casa de correção e, aos 14 anos, foi morar com a mãe em Nova Iorque, num ambiente de prostituição. Talvez este percurso tenha levado Billie a cantar com a alma e a tocar tanta gente. Se em palco a vida parecia começar a correr bem, fora dele teve de lidar com relações amorosas muito conturbadas, sobre as quais cantou, por exemplo, em “Billie’s Blues“, em 1936: “I’ve been your slave / Ever since I’ve been your babe / But before I’ll be your dog / I’ll see you in your grave”.

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Há quem acredite que o sofrimento está na origem de algumas das melhores criações musicais. A somar à infância e às relações amorosas conturbadas, Billie Holiday começou a carreira muito antes do aparecimento do Movimento pelos Direitos Civis, que nas décadas de 50 e 60 deu corpo à luta pelos direitos da comunidade negra americana. As digressões de Billie e dos músicos com quem foi trabalhando, como Lester Young, eram uma luta constante, devido à segregação racial. Alguns hotéis recusavam-se a hospedá-la, ou obrigavam-na a utilizar o elevador de serviço. Nem todos os restaurantes a serviam. O sentimento de injustiça levou-a a cantar um poema de Abel Meeropol, “Strange Fruit” pela primeira vez em 1939 no Café Society, o primeiro clube racialmente misto de Nova Iorque. No livro Billy Holiday: a biography, recorda-se que a própria cantora estava receosa de dar voz a este poema, sobre o linchamento de um negro, e que no final da canção ninguém, nem negros nem brancos, aplaudiu. “Até que uma única pessoa começou a bater palmas nervosamente. E de repente toda a gente começou a aplaudir”, contou Billie.

A música tornou-se muito controversa. Havia quem não lhe quisesse atribuir importância, quem avisasse Billie de que podia estar pôr a carreira em risco e quem apoiasse a gravação em disco. A Columbia Records negou-se a gravar, mas a cantora não desistiu e levou a música a Milt Gabler, que tinha uma pequena editora chamada Commodore. Depois de gravada, muitas rádios recusaram-se a passá-la, o que não impediu que se tornasse imensamente popular. Leonard Feather, pianista de jazz e amigo de Billie, considerou “Strange Fruit” como o primeiro “protesto significativo em palavras e música, o primeiro choro audível contra o racismo”, como recorda o New York Times. Em 1999, a Time considerou-a a canção do século.

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A mulher que mudou o jazz teve outros grandes sucessos comerciais, como “God Bless the Child” e “Lover Man (Oh, Where Can You Be)“. A 8 de dezembro de 1957, depois de anos sem contacto, Billie Holiday voltou a atuar ao lado do músico Lester Young, para o programa do canal CBS “The Sound of Jazz”. Acompanhada também por Coleman Hawkins, Ben Webster, Roy Eldridge e Gerry Mulligan, Billie cantou a sua “Fine and Mellow“, naquela que foi a última aparição conjunta dos outrora amigos chegados Young e Holiday. O saxofonista e clarinetista, cujos problemas com o álcool eram conhecidos, morreria a 15 de março de 1959. A cantora seguir-lhe-ia os passos quatro meses depois.

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25 de maio de 1959. Foi o dia em que Billie Holiday atuou pela última vez, em Nova Iorque. Pouco tempo depois foi hospitalizada, com problemas no coração e no fígado, castigados por anos de abuso de álcool e heroína. E, mesmo no hospital, foi detida por posse de heroína. A mulher que influenciou de forma determinante o jazz morreu a 17 de julho de 1959. No mesmo ano, os fãs puderam ouvir o álbum póstumo, Last Recordings, produzido por Ray Ellis. Billie pediu-lhe que o novo álbum soasse mais à Frank Sinatra, com quem dividiu o palco. No disco de 12 canções inclui-se “There’ll Be Some Changes Made”, composição antiga de Benton Overstreet e William Blackstone, mas onde Holiday muda uma passagem, aos 1:42 minutos, como tributo encoberto. Onde antes de podia ouvir “Even Jack Benny has been changin’ his jokes” passou a escutar-se “Even Sinatra has been changin’ his jokes”.

https://www.youtube.com/watch?v=DrxNCkUf_Zc