1246,8kWh poupados 1246,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

HIV Parliament 2.0: dados, diálogo e ação na resposta à infeção por VIH

As metas 95-95-95 têm um prazo: 2030. Foi para perceber onde estamos, e para onde devemos ir, que especialistas se reuniram na 2.ª edição do HIV Parliament.

O vírus da imunodeficiência humana (VIH) continua a representar um importante desafio de saúde pública. Nas últimas décadas, os avanços terapêuticos transformaram profundamente o prognóstico da infeção: atualmente, uma pessoa diagnosticada precocemente e com acesso a tratamento eficaz pode alcançar uma esperança e uma qualidade de vida próximas das da população geral. Apesar destes progressos, desafios como o estigma associado ao VIH, o diagnóstico tardio e as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde continuam a constituir barreiras significativas a uma resposta plenamente eficaz. [1,2]

As metas 95-95-95 da ONUSIDA estabelecem que 95% das pessoas com VIH conheçam o seu diagnóstico; destas, 95% tenham acesso a tratamento antirretroviral; e, entre as pessoas em tratamento, 95% consigam atingir uma carga viral indetetável. A testagem é, por isso, essencial para alcançar o primeiro “95” e deve ser acompanhada pela ligação atempada aos serviços de prevenção, tratamento e cuidados. Em que ponto estamos, em Portugal? E o que ainda precisa de ser feito? [3,4]

No passado dia 17 de setembro, reuniram-se, em Lisboa, mais de 80 representantes das autoridades de saúde, profissionais, organizações de base comunitária, especialistas, academia, sociedade civil e associações setoriais, para dar corpo e voz ao HIV Parliament 2.0, uma iniciativa promovida pela ViiV Healthcare Portugal, uma empresa farmacêutica dedicada exclusivamente ao VIH. Ao longo de toda a tarde, o debate cruzou três eixos centrais: onde estamos, como aproximar as respostas das necessidades reais das pessoas e como transformar conhecimento, dados e decisões, em ação concreta. Para isso, foram discutidos desafios persistentes, como o estigma, os baixos níveis de literacia e as limitações na interoperabilidade dos sistemas, identificando oportunidades para uma resposta mais integrada, eficaz e centrada nas pessoas. [5–8]

“O acesso à inovação só se torna real quando chega à pessoa que mais dela necessita, no tempo certo, e de uma forma sustentável. O nosso compromisso estende-se à terapêutica, mas também a todas as pessoas que vivem com VIH”. André Mendes, da ViiV Healthcare Portugal, foi o responsável por dar o pontapé de partida e deixou claro o mote para a tarde que se avizinhava: “Nós vemos boas ideias em Portugal. O objetivo é criar uma interligação entre diferentes comunidades e organizações, para que consigamos ter, também, uma boa prática comum. Precisamos de soluções concretas para chegarmos aos objetivos que todos, nesta sala, temos em comum”.

Os números de 2025

Bárbara Flor de Lima, Diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e VIH/Sida, apresentou alguns dos dados presentes no Relatório “Infeção por VIH em Portugal”, de 2025. Ficámos a saber que:

Em 2024 assistiu-se a um ligeiro aumento do número de novos casos, embora se mantenha a tendência decrescente; [9]

Foram notificados 997 casos de infeção por VIH com diagnóstico em 2024, dos quais 951 com diagnóstico em Portugal; [9]

Em 53,9% dos novos casos, o diagnóstico foi tardio; [9]

Para o intervalo de 2026 – 2028, os desafios serão: a promoção da literacia, um maior acesso à testagem, o apoio à população migrante, uma redução do estigma com garantia do acesso equitativo aos cuidados, uma melhoria da notificação e monitorização sistemática por cada unidade de saúde e um sistema de monitorização automatizado.

VIH em Portugal: onde estamos e para onde ir

A primeira mesa-redonda do dia contou com o contributo de Guilherme Duarte, da UNITE Parliamentarians Network for Global Health; Maria Eugénia Saraiva, da Liga Portuguesa Contra a SIDA; e Jorge Félix, da Exigo Consultores. A discussão centrou-se nos progressos alcançados por Portugal, na resposta ao VIH, mas também nos obstáculos persistentes, que poderão dificultar o caminho até 2030. Entre os principais desafios, os oradores destacaram o diagnóstico tardio, o estigma e a necessidade de reforçar a literacia em saúde. Sublinharam, ainda, que o progresso científico e terapêutico precisa de ser acompanhado por políticas públicas consistentes, financiamento adequado e uma visão de longo prazo.

A necessidade de colocar a pessoa no centro foi a ideia transversal a toda a conversa e a ela juntaram-se, ainda, fatores importantes como a facilitação do acesso ao tratamento, bem como da sua qualidade de vida, saúde mental, integração e proteção contra a discriminação. [5,6]

“Continua a assistir-se a frases feitas, mas o que nós temos agora é uma grande responsabilidade em garantir que se vive melhor. Não é só o envelhecimento com VIH, mas também o estigma. Há pessoas que têm acesso ao tratamento, mas não têm como chegar até ele, ou têm problemas com a discriminação.” – Maria Eugénia Saraiva, Liga Portuguesa Contra a SIDA

“Não nos devemos esquecer que a fatura do medicamento é uma fatura que tem de ser encarada do ponto de vista do investimento. Em princípio, vamos conseguir chegar a níveis de novas infeções baixos. Enquanto não houver esta mudança de paradigma, vamos continuar a olhar para a despesa e a querer cortá-la. Fica difícil da parte do planeamento argumentar, uma vez que os orçamentos têm limitações importantes.” – Jorge Félix, Exigo Consultores

“Eu concordo que este tem de ser um esforço da sociedade, em conjunto. Com todos, eu acho que nós temos as peças no lugar para fazer um ótimo trabalho. Acho que é mais organização, um plano comum e atacarmos para atingir os resultados que queremos” – Guilherme Duarte, UNITE Parliamentarians Network for Global Health

Portugal em rede: da decisão à implementação

A resposta ao VIH é uma área que conheceu uma evolução significativa nos últimos anos, com metas traçadas, mas que continua a carecer de uma melhor articulação entre os diferentes intervenientes para que estas sejam, de facto, cumpridas.Depois de um momento de pausa, foram chamados a palco José Feio, da ULS de Coimbra; Ricardo Fernandes, do Grupo de Ativistas em Tratamentos; Luís Monteiro, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar; e Rui Guerreiro, da Ordem dos Enfermeiros, para encabeçarem a discussão.

Experiências de dispensa de terapêutica em proximidade, o papel das farmácias, das organizações comunitárias, da enfermagem e dos cuidados de saúde primários mostraram que já existem modelos capazes de simplificar o percurso e facilitar o acesso. Contudo, as barreiras na articulação entre serviços, na entrada de pessoas no Serviço Nacional de Saúde e na ligação entre diagnóstico e a primeira consulta, persistem. A conclusão foi a necessidade de uma resposta mais integrada, flexível e centrada nas necessidades individuais de cada doente, onde os diferentes profissionais e as estruturas trabalhem verdadeiramente em rede.

“A nossa função tem sido sempre a de aproximar as pessoas dos cuidados de saúde. Falamos muito em inovação e em como a inovação chega às pessoas. Eu diria que a grande inovação, hoje em dia, na área do VIH, é como é que organizamos os serviços de saúde. E é essa inovação que nós ainda não conseguimos alcançar.” – Ricardo Fernandes, Grupo de Ativistas em Tratamentos

“O nosso papel é desmistificar, ajudar a navegar no sistema de saúde, e este papel da continuidade de cuidados é muito importante, não só na área do VIH. É preciso trabalharmos realmente em equipa, conhecermo-nos uns aos outros. E o médico de família tem um papel muito importante neste sentido.” – Luís Monteiro, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

“O trabalho tem de vir das equipas. Temos de colocar as equipas no terreno, desafiá-las e fazer perguntas.” – José Feio, ULS de Coimbra

“A intervenção de enfermagem nunca se vai aplicar apenas na administração do medicamento. Importa perceber, junto de cada pessoa, se determinada ferramenta lhe serve ou não. É necessária uma grande flexibilidade e, mais do que nunca, trazer a pessoa para o centro dos cuidados.” – Rui Guerreiro, Ordem dos Enfermeiros

A Inteligência Artificial como um aliado

↓ Mostrar ↑ Esconder

Ricardo Baptista Leite, Global Health Policy and AI Expert, foi a voz que, antes da última mesa-redonda do dia, nos relembrou de como a Inteligência Artificial (IA) pode ser uma ferramenta no combate ao VIH. Nas palavras do especialista, ela pode ajudar-nos a “cumprir as metas e a ir mais além”, proporcionando instrumentos como: aplicações que vão da deteção precoce de pessoas em risco à investigação de novos fármacos e potenciais curas; capacidade de libertar tempo clínico e aproximar médico e doente; e, ainda, plataformas digitais como forma de combater o estigma e chegar a comunidades mais vulneráveis. “As oportunidades são verdadeiramente infindáveis. A IA dá-nos as ferramentas necessárias para podermos repensar a forma como prestamos cuidados de saúde no nosso país. Nunca esquecendo a importância do diagnóstico precoce e atempado”, rematou.

Dados, interoperabilidade e ação

Para o último momento do dia, as quatro cadeiras voltaram a ser ocupadas, desta vez por Teresa Velosa, dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde; Filipe Freitas Pinto, da Knokcare; Leandro Luís, da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares; e Ema Paulino, da Associação Nacional das Farmácias.

Os dados foram colocados no centro do debate e foi possível perceber que, apesar dos avanços tecnológicos, os sistemas de informação continuam a comunicar de forma insuficiente, dificultando o acompanhamento do percurso do doente, bem como a tomada de decisão baseada em evidência. Os exemplos que recorrem à automatização e à tecnologia, para melhorar a recolha e utilização de informação, foram dados a conhecer, mas ficou claro que a interoperabilidade não é apenas uma questão tecnológica. Exige mudança organizacional, colaboração entre instituições e uma cultura de partilha. A proximidade, o envolvimento das farmácias, os cuidados de saúde primários e os modelos de financiamento, que acompanhem o percurso do utente, foram apontados como elementos essenciais para transformar dados e inovação em respostas concretas. [8]

“Precisamos de aumentar o rastreio. Primeiro, identificar precocemente as situações de risco e os casos de infeção. Depois, agir na prevenção, nomeadamente sobre os comportamentos e através da educação para a saúde. É necessário dar prioridade ao financiamento e ao investimento na prevenção, reforçando também o papel dos cuidados de saúde primários, onde podemos desenvolver atividades de proximidade que acrescentam valor.” Leandro Luís, Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

“Nós vamos ter de ter estratégias muito criativas para gerir estes cuidados de forma diferente. Não adianta termos ideias, se não tivermos mão de obra. Junto com os dados. Os dados que temos hoje são insuficientes.” – Filipe Freitas Pinto, Knokcare

“Temos de saber que estamos a falar de conceitos hipercomplexos, de um setor hipercomplexo. Sobretudo quando surgem questões como a cibersegurança e a proteção de dados. Para mim estes são os grandes desafios. A comunicação dos dados sabemos que é o foco principal, mas não podemos saltar passos que são garantia de que as coisas vão chegar, mas com os devidos preceitos e segurança.” – Teresa Velosa, Serviços Partilhados do Ministério da Saúde

“Podemos fazer mais, numa perspetiva de complementaridade. Precisávamos de uma melhor comunicação com as estruturas. De uma disponibilização das terapêuticas e de promover uma maior integração das estruturas. E, aqui, as farmácias são ótimos pontos de contacto.” – Ema Paulino, Associação Nacional das Farmácias

As despedidas foram feitas por André Peralta, Subdiretor-Geral da Direção-Geral da Saúde, que reforçou a importância de transformar as reflexões e soluções, discutidas ao longo do encontro, em ação concreta. Num momento em que Portugal procura acelerar o caminho, rumo às metas de 2030, a resposta ao VIH exige continuidade, articulação entre os diferentes intervenientes e capacidade para traduzir os dados e o conhecimento disponíveis em medidas com impacto real na vida das pessoas. “Vivemos num tempo de mudança geopolítica profunda, de inovação tecnológica, e as epidemias nunca foram só um problema clínico. São um problema social que abrange todos os setores da sociedade. Para lhes dar uma resposta sólida, precisamos de instituições sólidas”, sublinhou o dirigente da Saúde.

Se há conclusão que se pode retirar da 2.ª edição do HIV Parliament é que Portugal tem feito progressos importantes na resposta ao VIH, mas os desafios identificados mostram que o caminho até 2030 continua a exigir ação. O diagnóstico tardio, o estigma, as desigualdades no acesso e a fragmentação entre diferentes respostas continuam a limitar o impacto dos avanços alcançados. Ao mesmo tempo, existem soluções e experiências capazes de aproximar os cuidados das pessoas, simplificar percursos e tornar a resposta mais integrada. [5,6,8]

O próximo passo exige transformar conhecimento e inovação em práticas sustentáveis, reforçando a articulação entre os diferentes intervenientes, melhorando a utilização dos dados e garantindo os recursos necessários à implementação. Mais do que reconhecer o caminho já percorrido, a missão é a de assegurar que cada avanço se traduz em respostas concretas, acessíveis e centradas nas pessoas. Sem deixar ninguém para trás. [8]

Referências:

[1] Broder S. The development of antiretroviral therapy and its impact on the HIV-1/AIDS pandemic. Antiviral Res. 2010;85(1):1-18. doi:10.1016/j.antiviral.2009.10.002.

[2] World Health Organization. WHO Data Platform: HIV/AIDS overview dashboard [Internet]. Geneva: World Health Organization; [cited 2026 Aug 25]. Available from: https://data.who.int/dashboards/ucn/overview

[3] World Health Organization. HIV testing services [Internet]. Geneva: World Health Organization; [cited 2026 Aug 25]. Available from: https://www.who.int/teams/global-hiv-hepatitis-and-stis-programmes/hiv/testing-diagnostics/hiv-testing-services

[4] Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS). Understanding measures of progress towards the 95-95-95 HIV testing, treatment and viral suppression targets [Internet]. Geneva: UNAIDS; 2023.

[5] Duarte A, et al. Access to Healthcare for Immigrants Living with HIV in Portugal. Poster presented at: IAPAC Conference; 2024.

[6] Cota Medeiros F, Méndez-Lopez A, Correia de Abreu R, Sarmento e Castro R, Maltez F, Antunes F. Knowledge and HIV-related stigma among Portuguese healthcare professionals: a cross-sectional analysis. HIV Med. 2025;26:1096-1107. doi:10.1111/hiv.70039.

[7] Stigma Index Portugal. People Living with HIV Stigma Index: Final Report Portugal 2021-2022 [Internet]. Lisboa: Stigma Index Portugal; 2022.

[8] Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade NOVA de Lisboa. Diagnóstico sobre a monitorização do VIH em Portugal: Relatório Final. Projeto HIVision [Internet]. Lisboa: ENSP NOVA; 2026.

[9] Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde; Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Infeção por VIH em Portugal – 2025 [Internet]. Lisboa: DGS/INSA; 2025 [cited 2026 Sep 25]. Available from: https://repositorio.insa.pt/entities/publication/c43d3502-8bf9-4a82-8fff-ea1c315d831f/full

Para mais informações, consulte o seu médico/profissional de saúde.

VIIVHIV Healthcare, Unipessoal Lda, R. Dr. António Loureiro Borges, nº3, Arquiparque-Miraflores, 1495-131 Algés, Portugal. NIPC-509117961 TEL:+351210940801 | FAX:+351210940901. Para mais informações ou em caso de suspeita de acontecimento adverso ou outra informação de segurança contactar o Departamento Médico da ViiV Healthcare: +351 21 094 08 01. ©2026 empresas do grupo ViiV Healthcare ou sob licença.

Iniciativa realizada com o apoio da ViiV Healthcare. Com o apoio concedido, a ViiV Healthcare não prossegue qualquer intuito de promoção dos seus medicamentos ou tratamentos em qualquer das áreas terapêuticas em que exerce a sua atividade, nem procura que seja veiculada, direta ou indiretamente, informação ao público sobre medicamentos.

NP-PT-HVU-JRNA-260002 | outubro 2026

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.