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O respeitinho é bonito, sempre o foi, e também já o era na cabeça do miúdo que, aos 18 anos, teve de apalpar terreno no autocarro. Não havia papéis ou etiquetas a denunciarem quem se deveria sentar onde, mas Tiago Carvalhinho bem sabia que não se podia esticar. Por isso, e ainda antes de olhar para as cadeiras, perguntou em qual poderia aterrar o corpo. Não demoraram a apontar-lhe uma. “E pronto, sentei-me e comecei a ouvir a minha música, tranquilo”, retrata, lembrando que, na altura, nem desconfiava da “galhofa” que aí vinha. Porque, logo a seguir, apareceu-lhe um monstro esloveno que, na altura, era dono da camisola ‘10’.

E, pelos vistos, o tal lugar também lhe pertencia. “Miúdo, sabes quem se senta aí?”, questionou-o, logo, Zlatko Zahovic, sem desfazer uma cara séria que fez acompanhar à voz grave que tinha. “Ah, disseram-me que estava livre…”, respondeu, atrapalhado, Tiago, quase sem tempo para reagir quando o médio canhoto, trintão e habituado a ser titular do Benfica, lhe disse: “Mas não, aí sou eu.” A sorte do miúdo, o lateral canhoto que só há duas semanas andava a treinar com os graúdos na equipa principal. A mesma que, depois, trocou risos e mais risos porque tudo “estava combinado” para servir de “praxe” a quem caíra ali de paraquedas.

Tiago lá estava, metido no meio da cena que serviu para os jogadores do Benfica soltarem as gargalhadas. E também estava no clássico, no Benfica-FC Porto, sim, o que a 4 de março de 2003 viu os dragões montados por José Mourinho vencerem por 1-0, no velhinho Estádio da Luz (o último destes clássicos que por lá se jogou), os encarnados ordenados por José Antonio Camacho. O golo foi de Deco, um dos craques que por lá andava. Além do mágico que, diz a cantiga, fintava com os dois pés, também Simão Sabrosa, Nuno Gomes, Geovanni, Alenichev, Derlei, Maniche ou Capucho correram pelo relvado. Mas o conto de Tiago Carvalhinho só não chegou a ser de fadas porque o então miúdo ficou durante hora e meia sentado do banco de suplentes.

tiago

E talvez porque, pouco mais de um ano depois deste jogo, Tiago largou o futebol. Aos 20 anos disse basta, já farto de “uma série de coisas” dos “meandros do futebol” e ciente de quem “nem tudo são rosas” neste desporto. Fê-lo quando estava já no segundo ano da faculdade, embalado para ser fisioterapeuta, e desencantado com o futebol. “Terminei a época [2002/2003] na equipa sénior do Benfica e na temporada seguinte fui para a equipa B. O meu contrato acabou nesse ano”, resume ao Observador. Os convites, depois, até apareceram: houve “oportunidade” para Tiago ir parar ao Feirense, na altura da segunda liga, e “até de ir fazer uns estágios em alguns clubes ingleses”. Mas torceu o nariz a tudo — “Estava a subir na vida académica e acabei por ficar em Lisboa.”

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Foi por lá que, mesmo assim, ainda deu uma chance à bola. Foi para o Oriental e ainda por lá ficou três semanas, na pré-época, e pronto, foi o fim. “Acabei por não fazer mais nenhum jogo por outra equipa”, sublinha, isto numa altura em que à frente lhe apareceram muitas caras surpreendidas pela decisão que tomou. “A maior parte dos colegas que jogaram comigo na altura se calhar hoje já dizem que este foi o melhor caminho”, suspeita, hoje com 31 anos, falando talvez de João Vilela, capitão do Gil Vicente ou de Tiago Gomes, que está no Apoel Nicósia, homens com quem coincidiu nos juniores do Benfica e vai mantendo contacto. Com eles sim, com outros, porém, não. Como Argélio Fucks, ou Argel, o brasileiro “impecável e espetacular” que lhe calhou no quarto durante o estágio e, além do tal Benfica-FC Porto, ainda esteve em outros quatro clássicos com a camisola encarnada vestida.

O contacto pode-se ter perdido, mas as memórias não, e elas não saem da cabeça de Tiago. “Tinha uns 18 anos e, duas semanas antes, o mister Camacho tinha-me chamado para começar a treinar. Foi uma grande surpresa”, admite, antes de falar de outra, ainda maior, quando olhou para o papel dos nomes convocados e reparou que, lá no meio, estava o seu. Percebeu logo porquê. Além de Cristiano, o canhoto brasileiro que uma lesão mantinha parado, “o Ricardo Rocha, que jogava a defesa esquerdo adaptado, estava ligeiramente tocado”. O azar de uns, junto à sorte de José Antonio Camacho, duas semanas antes, ter arregalado os olhos pelo que Tiago fizera pelos juniores, num jogo-treino contra a equipa principal, fizeram o resto.

TiagoCarvalhinho

O miúdo foi convocado e lá veio a “sensação ótima” e o tal lugar-comum, mas onde poucos, muito poucos, chegam a estar, de cumprir “o sonho pelo qual qualquer jovem jogador do Benfica deseja passar”. Tiago Carvalhinho não se esquece do que sentiu “na vivência do estágio”, nas brincadeiras com Argel, que até lhe chamava Schwarz — porque lhe fazia lembrar o matulão sueco, também um lateral canhoto, que estivera no Benfica entre 1991 e 1994 –, na receção ao autocarro da equipa e no estádio, “cheio de gente”, onde conseguiu “viver aquele ambiente a partir de outra perspetiva”. Depois, já no relvado, o nervosismo, mesmo que “miudinho”, invadiu-lhe o corpo, “mas a vontade de jogar, claro”, também a tinha. “A partir do momento em que entrasse as coisas certamente iam fluir. Já jogava há oito anos no Benfica, não na equipa sénior, mas já conhecia o ambiente do clube há muito tempo”, justifica.

Mas não entrou. José Antonio Camacho bem o apoiara antes do jogo, embora fosse “um homem de poucas palavras”, não deixando que Tiago desse muita conversa aos nervos, enquanto outros como Simão Sabrosa, Ricardo Rocha, Hélder e Argel iam fazendo como que Tiago Carvalhinho se fosse “integrando bem” no meio dos encarnados graúdos. A experiência de março de 2003 não mais saltou na memória de quem, no verão de 2004, largou o futebol de vez. Hoje Tiago diz estar bem, feliz e contente passando os dias como fisioterapeuta e osteopata.

Nem assim, com esta profissão, garante, admitira regressar ao mundo da bola, como o provam os vários ‘nãos’ que já deu a convites que apareceram. “Está fora de questão, não gostava. É uma vida onde não se tem fins de semana nem horários, e prezo a minha vida familiar. Além de que, em termos económicos, não é vantajoso”, explica, enumerando as razões que, nos últimos 12 anos, o fizeram ver os clássicos em casa, sentado no sofá, com as botas arrumadas no armário. Tal como estará no domingo, a partir das 17h.