Evgeni Morozov tem um problema. Ele acredita que a aceitação acrítica que fazemos da sociedade digital é perigosa e que as grandes empresas tecnológicas só querem aumentar o poder que têm. Para ele a internet é um problema político, porque ela tem impacto em todas as áreas da sociedade – e pode e deve ser moldada, em vez de ser ela, a internet, a ditar o rumo das mudanças.

Para combater o problema que identificou, empenha-se em fazer tiro ao alvo a tudo e todos os que promovam as maravilhas da ideologia tecnológica sem refletir nas consequências. É um franco-atirador munido de espírito fino, atenção redobrada e solidez académica quanto baste para por na ordem os propagandistas da moda. Por ir tão contra a corrente dominante, Morozov é tido como um herege – sem medo de levar cada vez mais longe a heresia de demonstrar que todos os deuses digitais têm, afinal, pés de barro.

Já explicou, de forma contundente, que a internet não é uma ferramenta benigna que vai salvar o mundo. É antes um instrumento que pode ser usado para o bem ou para o mal, dependendo de quem mandar nele. Aproveitou de seguida para destruir o fetichismo à volta da ideia de “inovação”, criticar o mecanismo de abuso da privacidade online e atacar a Google e o Facebook pela exigência no direito a lucrar com os dados privados de cada cidadão. E em poucos textos é tão assertivo como no Twitter, onde se diverte a despachar socos bem colocados no estômago da ideologia da maravilhosa sociedade digital. Exemplos:

Já foi muitas vezes criticado por limitar-se a apontar defeitos sem propor soluções, mas Morozov responde a isso com a tranquilidade de quem sente ter a missão de proclamar quão vazio é este “liberalismo do iPod”. E fá-lo de forma contundente – com estudos, números, investigação científica e uma paixão intratável.

Nascido na Bielorússia, estudou na Bulgária e ainda contemplou a hipótese de trabalhar na alta finança mas rapidamente se virou para os blogs como forma de documentar as transições políticas democráticas nas antigas repúblicas da URSS. Em 2008 muda-se para os Estados Unidos e percebe que tem um espaço para explorar no ceticismo sobre as revoluções tecnológicas que se tornou rapidamente moda.

Começou a ficar conhecido com o blog da Foreign Policy Net.Effect (entretanto desativado), mas chegou à ribalta digital em 2009, ironicamente através de uma Ted Talk – ironicamente porque três anos depois decidiu criticar as mesmas Ted Talks como um local “para onde as ideias viajam em busca de fama”, ideias que não valem “nem uma nota de rodapé”. Nessa Ted Talk desenvolveu a ideia de que considerar a internet como uma ferramenta da democracia é lírica em si mesma e precisa de ser contraposta ao facto de que os regimes totalitários usam as novas tecnologias (incluindo a internet) para aumentar a repressão e a violência. Em 2011 publicou o livro “Net Delusion”, onde desenvolveu o conceito do lado negro das liberdades digitais. Seguiu-se, em 2013, o “To Save Everything Click Here”, onde faz uma crítica mais génerica e libertina a todas as ideias líricas em favor do digital.

Desde aí tem escrito para a New Republic, para a Slate, para a Economist, para o New York Times e o Wall Street Journal, entre muitos outros. É um intelectual que vai contra a corrente – e o que faz dele um referência incontornável não é só o empenho com que critica, é a qualidade desassombrada com que o faz.
A oportunidade de o ver e ouvir ao vivo vem aí já no dia 12, no Porto, durante a conferência Admirável Mundo Novo desenvolvida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A não perder.