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Pais e Filhos

Chupeta, sim. Mas desde e até quando?

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A filha mais nova dos Beckham, de quatro anos, foi fotografada de chucha na boca. Voaram críticas e o pai saiu em sua defesa. Afinal quem tem razão? Uma pediatra e uma psicóloga respondem.

Deve promover-se o uso exclusivo de chucha durante a noite

Daniel Berehulak

A polémica está instalada e a culpa parece ser de uma pequena chupeta cor-de-rosa. Coube ao jornal Daily Mail publicar esta segunda-feira um artigo sobre a filha mais nova da dupla David e Victora Beckham, que aos quatro anos de idade continua a ser fotografada de chucha na boca. O tablóide britânico consultou vários especialistas para deixar um aviso ao famoso casal: se a criança continuar a chuchar é provável que ela sofra de problemas dentais e de dicção. Será?

O tema deu que falar e fez com que David Beckham se insurgisse contra a publicação na vez de pai zangado. O ex-jogador de futebol levou para a rede social Instagram a sua indignação, onde publicou uma imagem do respetivo artigo com uma legenda onde, preto no branco, se pode ler “Vocês não têm o direito”. A peça jornalística em questão deixa bem claro que a filha de David já não tem idade suficiente para usar uma chupeta e aponta o dedo às capacidades parentais dos Beckham.

Mas, afinal, quem tem razão? Antes de colocar a questão até quando deve uma criança usar uma chucha, é importante perceber quando é que esta pode, efetivamente, começar a fazer os movimentos de sucção no bico artificial. “Não se deve dar uma chucha a um recém-nascido antes de este aprender a mamar na mama da mãe. Caso contrário, isso pode criar uma confusão entre a chupeta e o mamilo”, começa por esclarecer a pediatra Rosa Gouveia. Só depois de estabelecida a amamentação, o que pode durar alguns dias, é que se deve dar a conhecer à criança o universo das chuchas e chupetas.

No entanto, desengane-se quem pense que, à partida, dar chucha é algo mau. Rosa Gouveia defende que o contrário pode ser prejudicial na dinâmica pais e filhos, uma vez que a chucha permite que o bebé se acalme. Mais: a sua não-utilização pode mesmo fazer com que a criança procure alternativas que provoquem uma sensação semelhante, como chuchar no dedo ou na língua e até ranger os dentes.

(há até já quem use o Twitter para ironizar com esta situação)

Que não haja dúvidas: a chupeta acalma o bebé quando este está a chorar ou está impaciente, mas deve haver um esforço para que este a utilize exclusivamente quando a dormir — usá-la frequentemente durante o dia está fora de questão, afirma a também membro da direção da Sociedade Portuguesa de Pediatria do Neurodesenvolvimento (da Sociedade Portuguesa de Pediatria). Até aos doze meses não há problema em dar a chucha quando o bebé está a chorar, mas não se deve fazer disso uma regra, uma vez que pegar-lhe ao colo ou falar com ele são as soluções preferidas. A idade com que se deixa a chupeta, essa, é variável, mas deverá acontecer entre os três e os cinco anos, embora deva ser a própria criança a tomar a iniciativa.

Chuchar até tarde: quais as consequências?

Apesar de não gostar de apontar datas, a coach e psicóloga parental Cristina Valente pensa de forma ligeiramente diferente: até aos 18 meses a criança pode chuchar durante e o dia, e até aos três anos à noite. Sendo a chucha um elemento de auto-conforto, é preciso ter noção dos motivos que levam uma criança a procurá-la — para Valente este é um problema semelhante ao colo ou à própria amamentação enquanto garantias de conforto.

A chucha deve ser usada, então, para dormir, reitera Valente, que tece críticas aos pais que, em plena luz do dia, apressam-se a oferecer a chupeta perante um choro sonoro e impaciente. “Durante o dia não deve ser usada porque é quando é mais fácil ajudarmos a criança nesse processo de autonomia”, esclarece. De facto, o uso de chupeta à noite, e após os três anos, pode estar relacionado com a forma como os pequenos dormem, isto é, com o facto de não existir um padrão de sono regular e saudável, o que Valente diz ser o derradeiro problema.

Kiev, UKRAINE:  A man holds the pacifier in his mouth as he nurses with his baby inside the car in downtown Kiev 13 July 2005. AFP PHOTO / SERGEI SUPINSKY  (Photo credit should read SERGEI SUPINSKY/AFP/Getty Images)

Um uso alternativo da chucha para acalmar a criança. 
(foto: SERGEI SUPINSKY/AFP/Getty Images)

“A maior parte dos pais usa este elemento externo para não ver a criança com sintomas de privação. Os pais não têm tempo para ajudar os filhos a adquirir ferramentas internas para se auto-consolarem”, atira a psicóloga e autora do livro Coaching Para Pais – Estratégias e ferramentas práticas para educar os nossos filhos, que afirma ainda que é muito difícil para os pais verem os filhos crescer, até porque existem, numa mesma equação, dois tipos de crescimento — o da criança e o dos próprios pais.

E se um pequenote continuar a chuchar mesmo depois das “metas” definidas? Nessas situações podem existir consequências, tanto psicológicas como de índole médica. Se por um lado a criança pode sofrer de fraca autonomia, por outra por ter problemas de dentição — a má oclusão (mordida torta) é capaz de originar problemas de mastigação e até de dicção, ainda que os malefícios sejam potenciados para quem chucha no dedo, lembra Rosa Gouveia.

O problema maior passa pelas rotinas dos pais, isto é, pelo pouco tempo que têm para estar com os filhos, assegura a psicóloga, que afirma ainda que em vez de tentar eliminar o vício da chucha, o melhor será criar um novo hábito: “Mas não há tempo. Quando um pai diz que já tentou de tudo, é verdade. Mas talvez não tenha tentado durante tempo suficiente. Os pais desistem muito rapidamente. Olham para as crianças como adultos em ponto pequeno. A criação de rotinas leva tempo”.

E é precisamente por esse motivo que Cristina Valente defende a existência de uma educação parental antes de homens e mulheres serem pais — “É a minha grande batalha”.

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