A campanha lança-se em inglês: “I’m a feminist myself”. Na mesma frase, lança-se em francês: “Est le nouveau maire de Lisboa”. Lança-se em português. Partida, largada, fugida… “Attention! Piiiiii” ou não estivesse Eládio Clímaco a apoiar o candidato, que é ex-presidente da Câmara de Lisboa, mas presidente na rua. Está lançado António Costa, o socialista que quer ser primeiro-ministro e que preferiu, no seu primeiro dia de verdadeira campanha eleitoral, jogar em casa com o jogo controlado.

Calcorreia as esquinas da casa. Mostra obra feita “pelo senhor presidente que está no cargo há cinco meses, mas já fez mais do que o governo em quatro anos”. Repetiu o mote para dar os louros ao novo responsável, mas não se coibindo de puxar para si a “herança” que se “orgulha” de ter deixado a Fernando Medina, o tal “novo presidente de Lisboa” que foi, em bom francês, apresentado a uma ativista que pedia a Costa que fosse feminista. A ativista queria que Costa fosse um defensor das mulheres, como a mãe Maria Antónia Palla, e apoiasse a causa “power to women”.

Percorreu as mais recentes inaugurações da cidade, lado a lado com o homem que escolheu para o substituir na hora de se lançar pela aventura pelo país. A ideia era clara: mostrar a diferença entre a sua maneira de gerir uma câmara e o modelo que o Governo tem para gerir o país. Afinal, como sintetizou uma apoiante, Costa lança-se agora para uma “câmara maior”. “Pusemos o IMI na taxa mínima e baixámos o IRS, este Governo aumentou os impostos. Realizamos investimento – que permitiu estas obras – eles cortaram o investimento. E o terceiro ponto, que gostam de dizer que é a marca distintiva deste Governo, e nós dizemos que é mesmo uma marca distintiva, – eles herdaram uma grande dívida e aumentaram-na em 18%, nós recebemos uma grande dívida e baixámos em 40%”, disse Costa. Diferença para o Governo marcada no discurso que encerrou o dia e, acrescente-se, com um mea culpa pelo anterior Governo pelo meio.

Ora foi no mesmo dia que escolheu para mostrar a diferença de atuação para o Governo, que decidiu acusar os ministros da coligação PSD/CDS de usarem instalações públicas para fazerem campanha contra o PS. “É escandaloso”, acusou. Estava ao sol, na rua, mas nos novos Terraços do Carmo, obra inaugurada por Fernando Medina em junho. Mas não foi a única instalação da câmara – obras lançadas por si e “concluídas e inauguradas” pelo novo presidente, como fez questão de dizer – a merecer uma visita.

Ora bem: Terraços do Carmo – 1. Jardim da Cerca da Graça – 2.  Museu do Aljube – 3. Elevador de Santa Luzia – 4.

“Agora uma pessoa passa um mês a percorrer o país e o presidente da Câmara anda sempre a inaugurar coisas novas. Qualquer dia deixamos de conhecer a cidade”, disse a rir sobre a quantidade de obras inauguradas. A mensagem passou ou não tivesse repetido por mais do que uma vez que a sua intenção é realizar investimento para lançar a economia.

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A quinta obra por onde passou, já foi começada e acabada por si. O elevador que liga a Baixa a São Jorge e que desemboca no Largo do Caldas em frente ao CDS. António Costa, subiu… e virou à direita. Os prenúncios políticos ficam lá atrás porque o dia era para percorrer as ruas de Lisboa e mostrar aos portugueses que quer fazer no país o que fez em Lisboa. O jogo estava controlado, ouvia alguns lisboetas que o tratam por “ó António”, que lhe pedem para voltar mais vezes, que lhe dizem “conto consigo”. Ou ainda “a sua obra está no nosso coração”. Mas também aqueles que lhe fazem as queixas e aqueles que por pouco não estragavam o dia de festa, ou, nas palavras de António Costa “o dia mais feliz dos últimos cinco meses”.

Primeiro foi uma descida, mal calculada pelas ruas da Mouraria, que foi acabar junto a dois caixotes de lixo a abarrotar. Costa contorna, mas recebe queixas de um morador. Sorri. Sorri sempre. Quem o defende é afinal o novo responsável pela cidade: “Ele agora está inocente, o culpado sou eu”, disse Fernando Medina em pronto socorro. O número dois de Medina, agora número um na campanha de Costa, Duarte Cordeiro, é o homem destas queixas, que agora passou por estes meses o pelouro para as mãos do presidente da Câmara.

O segundo episódio aconteceu também nas entranhas da cidade, numa festa popular no Largo da Severa, onde um homem se queixava do aumento geral do IMI e queria perguntar a António Costa se este se comprometia com a revisão do código do imposto. Quando o candidato socialista acabou de discursar num pequeno púlpito, atirou papéis e armou-se uma escaramuça com moradores do bairro. Depois de minutos de confusão, foi acompanhado por membros da equipa de António Costa. Problema resolvido, reunião marcada para ouvir as queixas do senhor, que pela terceira vez fala com o secretário-geral do PS sobre o IMI.

Reabilitar é com mil milhões

O gato preto passou. Não é metafórico, era mesmo um gato preto. O largo encheu-se de simpatizantes e o ar de cheiro a sardinha assada. E ao microfone, primeiro Medina, depois Costa, pediram para que se distinguisse entre os atuais modelos em confronto nas eleições legislativas. Para o presidente da Câmara, que caracterizou Costa como o “político mais bem preparado” para ser primeiro-ministro, é preciso que se desmistifique o modelo económico do Governo: “Falam hoje em crescimento, mas até a Grécia cresce mais hoje que Portugal”. Nem antes, nem depois, se ouviu falar da Grécia, que ainda pode ser um tema caro em campanha.

Depois, o líder socialista levou no bolso um anúncio: no seu governo, caso vença as eleições, a prioridade é a reabilitação urbana. E para essa prioridade investirá “não cinquenta milhões, mas mil milhões de euros”, num programa “pujante e vigoroso” que ajude a relançar o emprego e a economia, disse.

Ora, se como lembrou Costa, “faltam 40 dias” para as eleições, até lá, já se percebeu que os socialistas vão apostar em força no “passe a palavra”, como disse o candidato a um comerciante na Baixa lisboeta. Ou como pediu Fernando Medina: “É preciso debater de forma muito clara com os portugueses, cara a cara com os amigos, com os familiares”.

No fim, fez-se silêncio, que se cantou o fado, e até ele serviu para a campanha. “Não é uma canção de tristeza, nem de gente resignada, é a canção de um povo sofrido que chora com amargura, mas com muita coragem que não vira a cara à luta e acredita no futuro”, disse Costa para fechar o dia, em que quase todos os clichés de campanha apareceram Não faltaram os beijinhos a senhoras, nem a criança a ser pegada ao colo na Baixa.