Pela primeira vez, a senhora dona moda italiana foi tratada por tu por dois portugueses. Carlos Gil e Miguel Vieira foram os primeiros criadores com cartão do cidadão da República Portuguesa a pisarem as passerelles da Milano Moda Donna Fashion Week, num calendário paralelo da segunda semana de moda mais importante do mundo, a seguir a Paris.

Nem de propósito, no país com uma das maiores tradições de alfaiataria, Carlos Gil abriu as honras com uma coleção colorida dedicada ao “new sartorial” (o novo alfaiate), enquanto Miguel Vieira se inspirou em Mondrian e nos seus quadros minimalistas através de tecidos entrançados que resultaram em telas quadriculadas de pronto-a-vestir. Ambos mostraram as suas propostas para a primavera/verão 2016 no The Mall, a 27 de setembro, numa edição em que o calendário habitualmente ocupado por nomes como Prada, Gucci, Versace, Fendi, Armani e Dolce & Gabbana se abriu de forma inédita a nomes estrangeiros.

A conquista foi possível graças a uma colaboração entre a Camera Nazionale della Moda Italiana e o Portugal Fashion, que celebra este ano o 20º aniversário e junta assim mais um destino à sua rota de internacionalização depois de Londres e Paris (onde Luís Buchinho e Diogo Miranda encerram a campanha internacional dias 2 e 3 de outubro, respetivamente).

“Milão é moda”, resume Carlos Gil numa conversa depois do desfile. “Milão é sinónimo de design e criatividade, mas também de qualidade de confeção e de exigência”, já tinha dito João Rafael Koehler, presidente da ANJE , a Associação Nacional de Jovens Empresários por trás do Portugal Fashion.

Qualidade de confeção é, aliás, algo que se pode apontar aos dois desfiles portugueses. Na sua homenagem à costura enquanto arte, Carlos Gil — o designer de moda que veste a primeira dama, Maria Cavaco Silva, e que em 2014 deu início a um processo de reposicionamento da marca para a tornar mais atual e moderna — não poupou nas sobreposições e no cruzamento entre uma imagem atual e ao mesmo tempo retro, descontraída e simultaneamente glamourosa. Coletes fluidos sobre tops curtos em lantejoulas ou vestidos usados por cima de camisas brancas cujas mangas terminam com uma rede rígida que antigamente “era usada para armar as saias” são apenas alguns exemplos disso.

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O jogo de sobreposições segundo Carlos Gil.

Já Miguel Vieira, para além das peças entrançadas que implicaram “fazer o próprio tecido a partir de fitas”, num trabalho minucioso usado também para as carteiras que desfilaram nas mãos das modelos, não poupou nas texturas e nos perfurados. Ao contrário da coleção colorida de Carlos Gil, Miguel Vieira manteve-se fiel ao preto, cruzando-o com branco e azul cobalto, quer nas peças femininas, quer nos fatos de homem.

Apesar desta ter sido uma estreia na passerelle milanesa, a relação de Miguel Vieira com Milão não é de agora, ou não estivéssemos a falar de uma marca que exporta já “80% da sua produção”. “Tento trabalhar para uma mulher elegante e um homem charmoso, e sobretudo que apreciam muito as matérias primas”, diz o designer de São João da Madeira, que por isso mesmo nos últimos anos tem conseguido estar ligado a “casas italianas de tecidos como a Loro Piana, a Cerruti e a Zegna, marcas canónicas dos grandes lanifícios mundiais”.

Presença habitual na Micam, a feira de calçado que decorre em Milão, o designer pisou agora a cidade italiana também para mostrar, a par de Carlos Gil, que a dona moda não veste apenas Prada, pode muito bem levar a etiqueta “made in Portugal”.

O Observador viajou para Milão a convite do Portugal Fashion.