Estreia de novo elemento da comunicação para a Seleção A, Alexandre Afonso, estreia do novo selecionador, Jorge Jesus. A conferência de imprensa de anúncio dos convocados para as quatro primeiras rondas da Liga das Nações marcava o início de uma nova era a vários níveis na Federação. Melhores, piores, só o tempo irá dizer. Garantidamente diferente, isso de certeza. E até nos pequenos pormenores houve diferenças olhando para aquilo que era habitual com Roberto Martínez, antigo selecionador que saiu após o Mundial.
Entre uma pequena gafe quando falou do treinador nacional dos Sub-21, referindo-se a Luís Freire como Rui Freire (corrigindo quase de imediato perante alguns sorrisos na sala), Jesus começou por cumprimentar toda a estrutura federativa presente no anúncio desta primeira convocatória antes de revelar os 25 nomes para as quatro partidas. Martínez parecia um relógio suíço: entrava, dizia que ia anunciar a lista para determinados jogos, lia a lista com uma cadência que nunca mudava. O novo selecionador teve os seus “toques”, começando pelo setor mais atrás onde entravam os três keepers e prosseguindo depois até ao capitão, Cristiano Ronaldo. Tudo o que dissera antes confirmou-se: manteve a base, promoveu três novidades, teve um regresso.
Além da entrada de Samuel Soares para o lugar de José Sá para ir promovendo a ascensão de um guarda-redes mais novo no espaço da Seleção A, e da aposta em Nuno Tavares para ter dois laterais esquerdos de raiz sem necessidade de adaptar João Cancelo ou Diogo Dalot (mas também pelo momento que atravessa na Serie A pela Lazio), Jorge Jesus apostou em Fábio Silva como terceiro avançado a par de Ronaldo e Gonçalo Ramos revelando mais tarde que André Silva e Gonçalo Paciência também estavam pré-convocados e trouxe de volta João Palhinha à equipa, passando ao lado dos problemas que existiram para que o agora médio do Benfica não tivesse sequer entrado na pré-lista de hipóteses para a fase final do Campeonato do Mundo.
“Dos quatro novos, tirando o Fábio Silva, todos trabalharam comigo: o Samuel Soares, o João Palhinha e o Nuno Tavares. Trabalharam comigo, eu trabalhei com eles. E, tirando o João, em 2030 ainda não chegaram aos 30 anos, são jogadores de presente e futuro. Se falei com o Palhinha? Achei que não tinha de falar, já foi meu jogador num clube em que eu estive. Receção ao Palhinha em Alvalade? Estou a convocar jogadores para a Seleção, não estou preocupado se jogam no Benfica ou no Sporting. O que me importa é o momento e a qualidade dos jogadores. Não posso responder à reação dos adeptos…”, apontou, antes de falar da situação de Cristiano Ronaldo e de comparar a sua lista com os 44 eleitos de Jürgen Klopp na Alemanha.
“Em relação ao Cristiano Ronaldo, está convocado e todos estão à minha disposição e podem jogar. Golo 1.000 na Seleção? Acredito que ele tenha de fazer o golo 1.000 mais no Al Nassr do que na Seleção… Não me perguntaram isso mas nesta convocatória estão 13 jogadores que trabalharam comigo. Não tenho uma base, por isso, dentro deste perfil, houve vários jogadores que foram importantes nesta convocatória. O Cris é um jogador como todos os outros. Se tem rendimento joga, se não, não joga. Tem um estatuto diferente, tem cinco Bolas de Ouro, mas isso conta para as minhas decisões? Não. Agora, que ele é diferente é…”, destacou, antes de negar qualquer tipo de conversa com Rafa Silva sobre um possível regresso à Seleção.
“Porquê 25 e não 44 como fez o meu colega [Jürgen Klopp]? Havendo jogos de três em três dias, vai haver modificações mas só depois do jogo é que saberemos as condições físicas dos atletas, a partir daí vamos tomando as nossas decisões em função do momento de cada jogador. Não quero alongar-me muito em relação ao que o meu colega Klopp. Todos fizeram uma pré-convocatória, a nossa tem 46 jogadores. Neste primeiro período, temos 25 jogadores. Ter uma convocatória de 44 jogadores na Liga das Nações… Podem estar lesionados, tem de haver alterações na mesma. Para mim não tem lógica nenhuma. Olhei para a lista que teve no Mundial e não fazes duas equipas ao mesmo nível em Portugal. Nem na Alemanha fazes e ele [Jürgen Klopp] escolheu duas equipas. Olhei também para aqueles que não estiveram no Mundial e que podia escolher, para as características que podiam encaixar dentro do meu modelo”, argumentou.
Jorge Jesus aproveitou também a primeira conferência após uma lista de convocados para falar mais sobre as ideias que tem para o novo projeto, o primeiro numa seleção. “Cada treinador tem as suas ideias de jogo e eu tenho a minha sobre aquilo que quero para a Seleção, acreditando na qualidade dos jogadores e pelo que temos feito nos clubes que temos representado. Dentro da minha ideia, existe mais um segundo avançado do que um terceiro médio, por isso há vários jogadores além do João Félix que podem fazer essa posição, como o Bruno Fernandes, o Rafael Leão e o Francisco Trincão. Tenho de acelerar o processo para que os jogadores se possam identificar com aquilo que eu quero. Vou dizer mais uma frase minha: ‘Tenho treino de campo e treino de sala’. Comigo, não há palestras. Acredito muito na inteligência dos jogadores e têm de resolver todas as situações que acontecem dentro do jogo”, reforçou o selecionador.
“Posso falar das características dos jogadores que são diferentes mas não vou dizer quem vai jogar. As minhas equipas têm um médio mais posicional que entende as duas fases, ofensiva e defensiva. Têm muita responsabilidade tática daquilo que penso. Falou no Palhinha mas não falou do Rúben Neves que faz essa posição e bem comigo no Al Hilal. Tens de ter um modelo de jogador e um modelo de jogo e ainda tens de ter um modelo de treino, que ainda não é para aqui chamado. João Félix? Comigo não é jogador para jogar numa ala. Vai ser sempre um segundo avançado e um primeiro avançado. O Rafael Leão comigo jogou sempre como primeiro avançado. Também temos quatro laterais ofensivamente muito fortes. Olho para o jogo tendo laterais que possam dar uma resposta ofensiva com a confiança e certeza que temos essa qualidade. Mas não podemos olhar para o jogo só para a frente. Os jogadores estão mais tempo sem bola do que com bola, temos de olhar para as duas vertentes do jogo. Não são todos iguais”, acrescentou ainda a esse propósito.
Em paralelo, e neste caso a propósito das ausências, Jorge Jesus abordou também o caso de António Silva, a opção por Fábio Silva e outros nomes como Rodrigo Mora, Flávio Gonçalves, Matheus Nunes ou Mateus Fernandes: “Convoquei quatro centrais e o António Silva podia ser um dos quatro, mas optei por dar continuidade aos mesmos, dos quais dois já trabalharam comigo. O Fábio Silva tem condições diferentes de todos os outros avançados, o Gonçalo Ramos e o Cris não sabem puxar o jogo. Entre os outros dois que podiam ser, o André Silva e Gonçalo Paciência, têm características diferentes. Além disso tem 24 anos. Já falámos das quatro novidades mas esta lista não tem nada a ver com a do último treinador. Ele tinha uma ideia, eu tenho outra. Achei que não era a oportunidade deles, que são o presente e o futuro”.
Por fim, Jesus revelou também que não teve qualquer conversa com Roberto Martínez após ter assumido a Seleção. “Não falei com o meu colega até hoje. A mudança para selecionador não é complicada para mim. Nos clubes, às vezes temos treinos bidiários. Aqui, continuo a trabalhar de manhã com a minha equipa técnica em ideias para o treino e fora do treino. Surpreender? Não vou surpreender. Acredito que possamos ter alguma modificação de ideias de jogo. Por isso, tenho de acelerar o processo. Isso vem com o treino. Não terei muito tempo para treinar mas essa é a realidade. Os que entraram, como o Klopp, também não têm. Não temos uma base, vamos ter de ir corrigindo, mas não há volta a dar. Não é problema”, concluiu.