Há momentos que ficam na história. E que resultam em fotografias que se tornam autênticos símbolos. É o caso desta, com Tommie Smith e de John Carlos.  Estes dois atletas americanos venceram, em 1968, a medalha de ouro e bronze nos 200 metros, nos Jogos Olímpicos na Cidade do México. Mas o grande momento aconteceu depois. Na cerimónia de entrega das medalhas, e quando o hino americano começou a tocar, os dois velocistas negros, com um crachá na parte esquerda do peito do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos, levantaram o punho com uma luva negra. E o momento ficou para a eternidade conhecido como a “saudação do poder negro”.

Os Jogos Olímpicos da Cidade do México ocorreram numa época de grande agitação social nos Estados Unidos da América. O Movimento dos Direitos Civis da comunidade afro-americana estava no auge. Martin Luther King, tal como John F. Kennedy e Bobby Kennedy, tinha sido assassinado. Milhares de negros eram mortos ou espancados. Lutava-se pelo fim da segregação e do racismo. Aquele gesto, aquela foto, aquelas vitórias ganharam assim um significado extraordinário.

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De facto, olha-se para foto e é difícil reparar noutra coisa. O momento e a imagem está preenchida pelos atletas e as suas luvas negras. Mas a verdade é que há mais gente no pódio. Mais concretamente o vencedor da medalha de prata. Que afinal também tinha o mesmo crachá no peito.

Esse segundo lugar do pódio passou de tal maneira despercebido que nos monumentos que imortalizam o momento ele simplesmente desapareceu, como é o exemplo desta estátua na Universidade de San Jose na Califórnia:

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Mas a história do australiano Peter Norman — sim, ele tem nome — também merece ser contada, tal como fez o site Griotmag. Afinal o atleta que venceu a medalha de prata dos Jogos de 1968 depois de fazer o tempo de 20.06 segundos, detém, ainda hoje, o recorde absoluto na Austrália. Mas Morgan foi ainda mais que isso. Quis utilizar o crachá do Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos por acreditar e apoiar a causa de Smith e Carlos. Foi até acusado de conspiração depois dos dois americanos terem sido suspensos da equipa olímpica dos Estados Unidos e expulsos da aldeia olímpica.

Quatro anos depois, Norman ficou de fora da equipa australiana dos Jogos Olímpicos de 1972 em Munique, apesar dos resultados na edição anterior da competição. Depois disso, abandonou a competição. A família rejeitou-o e passou a ser quase impossível encontrar emprego. Foi treinador num ginásio, trabalhou também, ocasionalmente, num talho. Um incidente fez com que o ex-atleta ficasse com gangrena levando-o à depressão e ao alcoolismo.

John Carlos, desde os EUA, chegou a afirmar que “se nós estávamos a levar pancada, Peter estava a enfrentar um país inteiro e a sofrer sozinho.”

Na mesma publicação é contada ainda uma situação mais impressionante. Norman teve a possibilidade de estabilizar a sua vida e até de ter participado na organização dos JO de 2000 em Sydney. Bastar-lhe-ia, para isso, testemunhar contra os seus colegas americanos. Mas nunca o fez.

O Comité Olímpico Americano, depois de conhecer a história do australiano, convidou-o para a festa de aniversário de Michael Johnson, um ídolo para Peter Norman.

Aquele que é, provavelmente, um dos melhores atletas de sempre da Austrália morreu em 2006 devido a um ataque cardíaco fulminante. No funeral, o seu caixão foi transportado por Tommi Smith e John Carlos.

Peter era um soldado solitário. Ele escolheu conscientemente ser sacrificado em nome dos direitos humanos. Não há ninguém que mereça mais ser honrado, reconhecido e apreciado pela Austrália.” John Carlos

Nem de propósito, em 2002, o Parlamento australiano aprovou uma moção de agradecimento e de pedido de desculpas a Peter Norman:

Desculpas a Peter Norman pelo mal feito por parte da Austrália em não convocá-lo para os Jogos Olímpicos de 1972 em Munique, apesar de se ter qualificado repetidamente; e reconhece tardiamente o papel que Peter Norman desempenhou na luta pela igualdade racial.”

Aqui fica também o vídeo do momento que marcou a história dos Direitos Civis americanos e da vida de Peter Morgan, o atleta eternamente esquecido: