Os resultados jogos dos quartos de final do Campeonato Mundial de Râguebi, na Inglaterra, foram surpreendentes. Nenhuma equipa europeia conseguiu chegar às meias finais do campeonato, enquanto todas as do Hemisfério Sul seguiram viagem: Nova Zelândia, África do Sul, Austrália e Argentina. São estas as equipas candidatas ao troféu e que agora vão disputar as meias-finais. Mas o resultado mais esmagador, nesta fase, pertence à equipa da Nova Zelândia, conhecida pelo nome All Blacks, que sábado não deixou respirar a seleção francesa, esmagando os gauleses com um resultado de 63-12.

Fala-se de um desastre histórico e de uma humilhação, para os franceses, que sucumbiram à magia negra dos neozelandeses. A equipa de Philippe Saint André entrou confiante, mas a tirania negra não lhe deu margem de manobra. A última derrota dos All Blacks foi precisamente contra a França, em 2007, que desta vez não conseguiu repetir a façanha.

O mundo do râguebi está de olhos postos na equipa neozelandesa, que conseguiu alcançar uma hegemonia mundial quase indisputada. E a questão impõe-se : por que é que os All Blacks são tão bons? E como é que um país tão pequeno como a Nova Zelândia produz equipas capazes de esmagarem as de países dez vezes maiores e com uma antiga tradição na modalidade?

«Tenei te tangata puhuruhuru nana nei i tiki mai whakawhiti te ra», pode ouvir-se, no início de cada jogo. É a tradição do Haka, o canto de guerra, que assusta e mete respeito. Mas não é só isso. A equipa da Oceânia é uma máquina de jogar râguebi. Ganhou 53 dos 58 jogos que disputou nos últimos quatro anos, o que lhe vale uma taxa de sucesso equivalente aos 91%, permanecendo em 87% se falarmos dos últimos 10 anos e em 84% se retrocedermos duas décadas, segundo dados do El Mundo.

Os All Blacks têm a sua origem num pequeno território ocupado por apenas 4,5 milhões de habitantes, mas a sua garra parece imbatível. “Somos poucos, mas o râguebi é tudo: é a nossa cultura, o modo como nos apresentamos ao mundo; (…) nós nascemos com uma bola oval debaixo do braço e jogamos desde o jardim de infância”, explica o internacional dos anos oitenta, Bruce Hemara, ao El Mundo.

Segundo o El Mundo, o primeiro jogo de râguebi na Nova Zelândia realizou-se em 1870, sendo que em 1892 foi fundada a primeira liga com dez equipas. Apenas uma década passou até se formar a seleção, em 1903. A primeira vez que a seleção neozelandesa viajou até à Europa e aos Estados Unidos jogou 31 jogos e ganhou 30, marcando 976 pontos e sofrendo apenas 59.

“O importante não são os anos, é o peso dessa tradição. Todos os jogadores querem elevar o nível. Todos nós queremos ser chamados a continuar a história, para ganhar. Podemos não ter grandes escolas e as melhores instalações, mas queremos mais e mais, e é isso que nos empurra “, garante Hemara.

Versatilidade, técnica e entendimento do jogo, tudo características do jogadores neozelandeses, que desde pequenos são ensinados a jogar em qualquer posição.

“O haka é um símbolo excelente porque, ao contrário dos outros países, o râguebi na Nova Zelândia não é reservado às elites. Existem desde jogadores de origem europeia, até jogadores Maori [o povo nativo que vivia na região antes da chegada dos europeus]. Todos jogam”, explicou o diretor desportivo do UE Santaboiana, Albert Malo, ao El Mundo.

Um terço da equipa de Steve Hansen é indígena, sendo alguns jogadores originários das Fiji, Tonga ou Samoa. “A génetica ajuda-os muito, pois têm uma forte envergadura que também influencia o seu caráter. Têm um combinação perfeita. A faísca, o improviso, a imaginação e a disciplina. Eles são um exército que joga bonito. No final, eles jogam um râguebi moderno, que prevalece e que todos tentam imitar”, acrescenta Albert Malo.

A forma como bateram este sábado a poderosa França é eloquente.

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