Meteorologia

Porque é que existe verão de São Martinho?

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Em pleno outono e de folhas castanhas do chão, o calor volta por uns dias regado por água-pé e acompanhado por castanhas. O verão de S. Martinho está de volta por uns dias. Mas de onde terá vindo?

AFP/Getty Images

Todos os anos é (quase) sempre a mesma coisa. Chegam os primeiros dias de novembro, o outono é suspenso, o verão regressa. Já todos nos habituámos a estes devaneios meteorológicos e, na verdade, nem sequer nos importamos muito com eles. É-nos agradável sentir aqueles raios de sol improváveis e que já pareciam distantes. É o verão de São Martinho, o período quente a meio de novembro, que vem “quebrar o gelo” acabado de chegar. 

A explicação meteorológica

É então provável que esteja a ler este artigo debaixo de um Sol estival, depois de muita chuva, alguma tão intensa que provocou as cheias que inundaram o Algarve na semana passada. Lendas à parte (já lá vamos), há uma justificação meteorológica para o bom tempo que se faz sentir desde este fim de semana e durará mais uns bons dias (parece que chuva só quarta da outra semana, ou seja, 18): a atmosfera está a ajustar-se à nova estação do ano, a reequilibrar-se, conforme explica Ilda Novo, do Instituto Português do Mar e Atmosfera.

O período em que estamos corresponde, assim, a um intervalo de “flutuação meteorológica” entre duas estações: tivemos o verão, veio o equinócio de outono e agora a Terra prepara-se para o inverno. Ora, a atmosfera movimenta-se em função da energia solar que absorve e que depende da estação do ano. Durante o verão, a atmosfera terrestre absorve mais energia solar do que aquela que perde. Mas durante o inverno passa a acontecer o contrário. Entre um e outro momento, a atmosfera da Terra ajusta-se para garantir um equilíbrio energético e então podemos assistir a fenómenos atípicos para a época como este.

Dicionário da Meteorologia

Um anticiclone é um centro de alta pressão atmosférica em que o ar se move no sentido do ponteiro dos relógios (no hemisfério norte, a sul o movimento é contrário). Uma zona depressionária é formada por um processo chamado “ciclogénese” em que o ar roda no sentido ciclónico.

Como é que a atmosfera se reequilibra? Através dos fenómenos atmosféricos que determinam as condições meteorológicas, nomeadamente os anticiclones e as zonas depressionárias. Este reequilíbrio, que garante o balanço energético da atmosfera, tem como consequência o movimento de massas de ar. Em Portugal, como o anticiclone dos Açores ainda mantém a mesma posição que no verão e se assiste a um transporte de ar quente vindo do norte de África, recebemos o verão de S. Martinho de abraços abertos entre o final de outubro e meados de novembro.

O anticiclone dos Açores, que influencia a condição meteorológica em Portugal, é subtropical. Isto significa que é quente e responsável pelo bom tempo.

Mas a meteorologia não é matemática, sublinha Ilda Novo. O tempo seco do verão de S. Martinho pode falhar por vezes, dependendo de outros fatores condicionantes como a temperatura da água do mar e dos oceanos. É por isso que às vezes as castanhas e a água pé não se bebem de manga curta, mas sim de galochas, cachecol e chapéu de chuva.

A lenda de S. Martinho 

Quanto à lenda, é bem mais conhecida, e atravessou o tempo desde o Império Romano até agora: Martinho era um soldado temente a Deus que havia lutado em França e regressava a Itália. Enquanto atravessava os Alpes, agasalhado com um manto vermelho, encontrou um homem cheio de frio à chuva e com fome. Martinho não tinha comida para lhe dar, mas tinha o manto e uma espada: rasgou o manto ao meio e cobriu o homem para o aquecer. E então as nuvens desapareceram e o Sol voltou a brilhar. Durante três dias, Deus esqueceu que era outono e o verão regressou.

Ora, Martinho de Tours existiu mesmo. Nasceu no século I na atual Hungria, mas foi criado em Itália por uma família pagã. Depois converteu-se ao Cristianismo e fundou o mosteiro mais antigo da Europa, localizado numa comuna francesa chamada Ligugé. Viveu em função dos outros, pregando os ensinamentos bíblicos e servindo aos mais desfavorecidos na qualidade de bispo de Tours. Morreu a 11 de novembro, o dia em que se celebra hoje em dia o Dia de S. Martinho. E foi enterrado ao fim de três dias.

Lenda ou não, a verdade é que o este sol de outono raramente nos falha. E este ano a boa ação de São Martinho ainda nos vai valer mais uma semana de temperaturas amenas e sol forte.

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