Existe uma nova edição portuguesa de O Principezinho, um dos livros mais amados, vendidos e traduzidos em todo o Mundo. A história da viagem iniciática de um menino através do Universo — que acaba por regressar a casa, para aquilo que ama e conhece — deu aos leitores frases e ilustrações que têm tanto de poético como de simbólico (e que pode relembrar na fotogaleria acima).

“A história releva a importância das coisas simples da vida: o Principezinho só encontra desilusão nos outros asteróides e na Terra. E volta para o seu planeta, mais pequeno, mas onde se sentia feliz. É uma parábola sobre os elementos simples e ternurentos da vida“, assim resume a história ao Observador um dos tradutores, Rui Santana Brito.

A mais recente versão da obra tem a particularidade de ter a capa preta, onde sobressai a “dimensão galáctica da história, do périplo do Principezinho, desde o asteróide B 612 até cair na Terra, através das estrelas — que saltam à vista logo na capa,” explica Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz, que também participou na tradução.

O Principezinho já foi traduzido em mais de 270 línguas e dialetos (incluindo Braille e mirandês) e vendeu mais de 145 milhões de exemplares em todo o mundo, refere a Le Nouvel Observateur. Em 1999, o jornal Le Monde publicou uma lista dos cem livros mais importantes do século XX e o Le Petit Prince (o título original em francês) ficou em quarto lugar, revela o site SensCritique.

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Colecção de exemplares de O Principezinho em várias línguas, do Museu Nacional de Etnologia de Osaka, no Japão. Créditos: Yanajin33 via Wikimedia Commons

É também o livro mais vendido de sempre pela editora francesa Gallimard. A primeira publicação foi em inglês e francês em 1943 pela Reynal & Hitchcock, em Nova Iorque, onde o escritor e aviador francês se exilou quando a França estava ocupada pelos nazis.

Em Portugal, existem várias edições e cerca de sete outras traduções. Para Manuel S. Fonseca, a vontade de empreender uma nova versão e edição do livro de Antoine de Saint-Exupéry, partiu da sua paixão pela obra enquanto leitor e também por considerar que podia acrescentar algo ao texto do autor. “Cada um de nós acha que tem em si uma componente de ternura, simplicidade, inocência, que pode dar a uma nova versão”, diz Fonseca. Para além disso, era também importante que as histórias que estão na génese do livro se repercutissem na tradução. Duas histórias que Manuel S. Fonseca partilhou com o Observador.

“Numa viagem de Saigão para Paris quando pilotava o seu avião, teve que aterrar no deserto da Líbia. E essa aterragem forçada coincidiu com a passagem de uma caravana de nómadas berberes. O Saint-Exupéry e o seu avião, caídos do céu, devem ter sido uma aparição do outro mundo para essas pessoas. Foi aí que nasceu a ideia para a história do Principezinho.

Para além deste episódio, que terá motivado o aviador a escrever a história, o editor contou também outra, menos conhecida, que terá inspirado o personagem principal.

Nos anos 30, Antoine de Saint-Exupéry viajou até à União Soviética de comboio. Imagine-se a dureza de uma viagem de comboio naquela época. Foi nessa viagem e nesse comboio que encontrou um casal com um filho com aqueles cabelos de ouro, muito parecido com a descrição do Principezinho. O filho de dois operários soviéticos… Um casal que tinha uma criança “com todo o futuro do mundo estampado na cara”.

A história do menino que cai do céu no deserto, “é um livro belíssimo e fiz a tradução em bicos de pés“, diz Rui Santana Brito. Mas confessa ter ficado “um bocadinho tolhido” pelo peso do texto. “Além de que há mais do que uma tradução em português. E uma delas muito boa, a da Joana Morais Varela. E pensei: o que posso eu fazer a este texto?”

A singeleza da narrativa contrasta com a riqueza vocabular da linguagem e a resposta a esta pergunta não é evidente. A tradução a quatro mãos demorou cerca de um mês e meio, em três momentos. No primeiro, Rui Santana Brito traduziu o texto. Depois, foi a vez de Manuel S. Fonseca, que também o editou. E, no terceiro, os dois cotejaram o texto e plasmaram a versão final.

“Não queria desrespeitar o texto ou ser atrevido demais”, refere Rui Santana Brito. E esse desejo de contenção e cuidado, “com muito respeito pelo texto original”, provocou alguns momentos de dúvida. O tradutor lembrou ao Observador dois vocábulos que foram motivo de hesitação — “palavras consagradas nas outras traduções e que tentei mudar”. Um deles foi embondeiro, “baobabs“, em francês. “Pensei em mudar para outro mais correto botanicamente, baobá, mas desisti.”

O outro foi o verbo “apprivoiser”. O verbo tem vários significados possíveis, como seduzir, domesticar, prender, domar ou tomar conta. Foi vertido para português nas traduções anteriores como “cativar”, opção que Rui Santana Brito também adotou. Para o tradutor, esta palavra é “única porque encerra em si mesma, o significado do livro: o amor só acontece a quem é cativado.

O livro entrou no domínio público este ano, mas Manuel S. Fonseca não considera que isso venha a ter impacto comercial: “Não vai diminuir as suas vendas, porque é um livro que atravessa gerações e que tem uma mensagem que agrada a todos, através de diferentes países e culturas”.

É um dos raros livros que é infantil, a leitura enternece, é um conto de fadas, com a rosa, a raposa… Mas ao mesmo tempo é um livro também para adultos, que fala sobre a solidão, a procura de afetos. É uma lição sentimental, que ensina a cativar e a ser cativado. É um livro que reúne de forma simples e singela as duas coisas em simultâneo.

Para Rui Santana Brito, O Principezinho é “um livro muito mais para adultos do que para crianças”. A ligação mais importante da história (para lá do vínculo do menino com a rosa e com a raposa) é a do Principezinho ao aviador, diz o tradutor, relação que se reflete na capa preta. “Foi uma opção do editor, com a qual concordei completamente. As outras edições são de capa azul claro ou branco. As outras capas são um pouco, como dizer… ‘delicodoces’. Esta capa faz jus ao contraste forte entre as duas personagens principais: o Principezinho e o aviador”.