Abreu Silva. Dito assim, e por muito que conheça os apelidos da bola, este dir-lhe-á pouco ou nada. Não, não é nenhuma contração de inverno para os “grandes”. Trata-se, isso sim, do presidente do União da Madeira: Filipe Abreu Silva. Anda nas lides do futebol há (bem) menos anos do que Pinto da Costa. Não se senta no banco de suplentes como Bruno de Carvalho. E certamente que não negoceia contratos de TV como Luís Filipe Vieira. Mas Abreu Silva fez o que nenhum deles fez: ameaçou por tudo, treinadores e jogadores no olho da rua. Porquê?

Recuemos à tarde de dia 13 de dezembro. Aí, em Paços de Ferreira, o União perdeu. E perdeu por 6-0. Seis. Abreu Silva não só não gostou, como o disse a quem quisesse ouvir. E o destinatário era o próprio clube. Mas era sobretudo um: Norton de Matos. Cite-se Abreu Silva, na sala de imprensa, em Paços de Ferreira: “Hoje chegámos à tolerância zero. Depois de ver o jogo [Paços de Ferreira-União da Madeira], percebi que alguma coisa vai mal e é preciso que todos honrem a camisola que vestem. Houve falta de profissionalismo de todos. Sabemos que este plantel tem qualidade, mas isso não tem sido demonstrado. Vamos aguardar pelos jogos com o Benfica e o Sporting para tomarmos decisões – e essas decisões passam pela continuidade ou saída da equipa técnica e de jogadores. Há dois jogos para alterar esta postura ou tomarei medidas drásticas.”

Não se fazem mais presidentes assim. Daqueles que entram no balneário e são-no mais treinadores que os próprios treinadores. Ou chegam à sala de imprensa e, mais do que falar de árbitros para aqui e árbitros para acolá, apertam com o plantel. Publicamente. Para o bem e para o mal, não se fazem mais presidentes assim. No futebol europeu não há mais um Jesús Gil y Gil ou um Bernard Tapie, como havia no Atlético de Madrid e no Marselha das décadas de 1980 e 90. Os presidentes de hoje são multimilionários, do Qatar, da Rússia, da Indonésia ou de onde for, pegam numa mala cheia de petrodólares e brincam ao Football Manager na vida real. Os presidentes que não são multimilionários, são empresários — veja-se os Glazer no Manchester United. Sobretudo isso. O futebol tornou-se num negócio de milhões e os presidentes não têm mais a paixão por ele – a Gil y Gil e Tapie apontem-se-lhe todos os defeitos (e pagaram por eles) do mundo, mas viviam-no com paixão.

No Calcio, a sul de Itália, ainda há um Aurelio de Laurentis no Nápoles ou Maurizio Zamparini no Palermo, mas falta-lhes tirar um Paulo Futre de dentro da manga ou vencer uma Liga dos Campões (Tapie venceu-a a 1993) para não serem só loucos. Mas voltemos a Abreu Silva.

O presidente do União da Madeira deu um murro na mesa, foi criticado por isso, disse-se dele que foi excessivo, mas a verdade é que não só o União empatou contra o Benfica, como venceu o Sporting. O futebol propriamente dito não foi melhor do que contra o Paços de Ferreira. Aliás, atacou-se mais nesse jogo do que somados os dois contra encarnados e verde-e-brancos. Mas o que importa realmente são os resultados. Pelo menos para quem preside e sabe o quão importante é manter-se entre os maiores, na divisão das divisões.

Hoje, contra o Sporting, e no derradeiro jogo que fará na Choupana – o estádio da Ribeira Brava é num recanto idílico da ilha, pequeníssimo (são somente 2.500 lugares sentados e a ampliação só avançará em 2017), mas não tinha iluminação artificial boa o suficiente para que lá se jogasse à noitinha –, o União defendeu com quatro defesas, dois centrais e dois laterais, três médios, todos eles defensivos e cães de fila, dois extremos a apoiar os laterais e um avançado-centro que mal punha o pé em ramo verde, que é como quem diz, o meio-campo do Sporting

E foi assim o jogo todo. Todo ou quase todo. Aos 69′, no segundo remate enquadrado que fez em todo o jogo (o Sporting fez 24), o União marcou. Paulinho tabelou com Amilton na direita, ganhou a frente a Jefferson e cruzou para o segundo poste. Esgaio tinha uma missão: defender o recém-entrado Danilo Dias como defendeu o substituído Jhonder Cádiz. Não o fez, deu-lhes as costas e Danilo cabeceou para o 1-0.

Se o União defendia já muito, a partir daí, e com a possibilidade de conseguir três pontinhos e não só um, defenderia mais ainda. E valeu-se de tudo – o que não é novidade no futebol em Portugal: berrar por um arranhãozinho como se fosse uma fratura da tíbia, contorcendo-se com dores; perder tempo das reposições de baliza – André Moreira, que fez um jogo de antologia, viu amarelo por isso; tirar avançados e pôr centrais matulões como Tiago Ferreira. Contas feitas, conseguiu o que quis: venceu.

O Sporting tentou de tudo para vencer. Tentou entrar na área com a bola no pé e chutar, tentou-o de fora também, cruzou para a molhada, cruzamentos atrás de cruzamentos, até de livre chutou, mas nada, nem um golinho se viu. E fez mais hoje do que fez em muitos jogos que venceu sem sobressalto. Fez mais hoje do que fez em Braga. Mas foi-lhe impossível ultrapassar um “autocarro” que o União estacionou em frente da baliza – o mesmo que o Benfica não ultrapassou.

A diferença entre o jogo deste domingo e de terça-feira é que o Sporting, não ultrapassando um muro de defesas e o “muro” que foi André Moreira na baliza, viu-se ultrapassado de “mota”, primeiro por Paulinho na lateral-direita e depois por Danilo na esquerda. E perdeu. Perdeu pela primeira vez nesta Liga. E perdeu como nunca tinha perdido em 12 jogos contra o União.

Pior: o Sporting, que se via líder no Natal, e aguardava pelo FC Porto a 2 de janeiro na frente, poderá esta noite ser ultrapassado pelos dragões, que estavam a dois pontos antes do jogo com a Académica. Quanto a Filipe Abreu Silva, o futebol do União não pode sequer adjetivar-se de “mau”, porque é uma nulidade — e isso até é uma adjetivação menos má. Mas os resultados melhoraram e muito. Se a moda de puxar as orelhas (em público) aos próprios jogadores e treinadores pega, não só vamos ter mais Gil y Giles e Tapies, como os “grandes” que se ponham a pau. Que o digam Benfica e Sporting.