Luís Cunha e Arturas Slidziauskas sempre disseram que queriam ter o seu próprio negócio antes dos 30. Ambos na área de saúde e com os 29 quase a terminar, encontraram o remédio perfeito num prazer que tinham há vários anos: revistas internacionais, quase todas independentes, tão bem desenhadas e escritas que se guardam nas estantes como livros. Dia 15 de dezembro abriram a Under the Cover, uma livraria que vende publicações vindas da Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Japão, Espanha, Itália e até do Líbano, dentro da chamada imprensa indie e alternativa.

“Já tínhamos por hábito consumir estas revistas e achámos que havia uma lacuna em Lisboa”, começa por dizer Luís. “Algumas delas até se podem encontrar em quiosques hoje em dia — não todas — mas não estão apresentadas de forma a favorecer o produto. Neste caso achamos mesmo que menos é mais. Ter o material exposto de uma forma apelativa se calhar faz com que as pessoas não venham para comprar sempre a mesma revista mas explorem também coisas diferentes.”

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Arturas Slidziauskas, 30, e Luís Cunha, 29, abriram a Under the Cover para partilhar a sua paixão por revistas internacionais independentes. © Hugo Amaral/Observador

Quem passa na Rua Marquês Sá da Bandeira, junto à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, encontra no número 88 B uma montra clean, paredes brancas, uma única mesa no centro e estantes que mostram as revistas como quadros. Apesar de o nome da loja ser uma brincadeira com a velha expressão “não se deve julgar um livro pela capa” — até para que quem vai comprar uma veterana mais conhecida como a Wallpaper se deixe conquistar pelos textos de uma revista “feita por cinco ou dez pessoas numa casa” –, a verdade é que se parar para apreciar a primeira página destas publicações não se irá sentir defraudado.

A “qualidade do papel, do design e da impressão” são transversais a todas as escolhas da pequena livraria, mas há outros denominadores comuns. Com mais ou menos gramagem no papel, estamos a falar de revistas que falam de temas contemporâneos — da fotografia à culinária, passando pela arte, moda e erotismo –, e dão vontade de colecionar.

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Da revista sobre a cultura das bicicletas Bone-Shaker, à Bíblia “hipster” Kinfolk, a escolha é muita. © Hugo Amaral/Observador

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Passando os olhos pelo catálogo já existente — e são várias as encomendas por chegar — é possível encontrar desde pequenas revistas com escolhas literárias, como a The Happy Reader, a compilações que exploram a relação entre os cães e os seus donos, como a Four & Sons. Mas as referências são várias: Flash Art, Riposte, Frankie, Majestic Disorder, Elephant, Cherry Bombe, Gup, Noble Rot, Bone-Shaker, Kinfolk, Cura, Hole & Corner, Girls Like Us, Hotshoe e Oh Comedy, entre outras. Há ainda pelo menos um título exclusivo — The Outpost, uma revista feita em Beirute, no Líbano, e que acaba por ser uma montra da nova sociedade árabe escolhendo um tema diferente a cada edição (a que está agora nos escaparates é sobre as possibilidades do corpo) –, ou outras mais difíceis de encontrar como a gay friendly Hello Mr, sediada em Nova Iorque.

Apesar das geografias diversas, quase todas as revistas são em inglês ou pelo menos bilingues, capazes de agradar também aos turistas que visitam o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, a cinco minutos de distância a pé. “Quisemos abrir aqui porque percebemos que na zona havia muitas livrarias, e isso em vez de jogar contra nós pode jogar a nosso favor, na medida em que temos uma oferta diferente e complementar ao que já existe”, diz Luís. Arturas acrescenta, num sotaque que não esconde as origens lituanas: “Agora só chove, mas não nos podemos esquecer que quando o tempo estiver melhor, há um parque muito agradável para ler revistas deitado na relva.”

Depois de sair da Under the Cover, há outras coisas que também pode levar para os jardins da Gulbenkian: uma seleção de livros, sobretudo da editora Phaidon, com temas semelhantes aos das revistas, posters com letras da Playtype, “uma marca dinamarquesa que começou como uma empresa de tipografia até perceber que havia um potencial artístico nisso”, ou ainda porta-chaves criados pelos proprietários que, apesar de não serem designers e sublinharem que vêm da área da saúde, sabem bem que rir é um dos melhores remédios e brindam os seus visitantes com frases sarcásticas como “you say potato, I say vodka” ou “I love you more than Prada”.

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Os porta-chaves existem em várias cores e custam 9,90€. © Hugo Amaral/Observador

Nome: Under the Cover
Morada: Rua Marquês Sá da Bandeira, 88 B
Contacto: 91 537 4707; office@underthecover.pt
Horário: Segunda a sexta das 11h00 às 19h00, sábados das 11h00 às 16h00 (em janeiro abre também aos domingos, das 12h00 às 17h00).
Preços: 4,90€ a 40€