Tínhamos encontro marcado para a tarde de 15 de março. Mas, ao chegar ao número 101 da Rua da Alegria, na Baixa do Porto, onde um novo espaço de chá e cultura chamado Casa Branca se tinha instalado no início do mês, as portas estavam misteriosamente fechadas. A justificação do proprietário, Miguel Branca, não era animadora: “Houve um incêndio de madrugada”.

Na altura não se conheciam as causas do fogo, que deflagrou num dos andares superiores do edifício, nem durante quanto tempo é que o novo projeto teria de ficar encerrado. Era preciso pintar de novo algumas paredes e recuperar todo o sistema elétrico do prédio. A casa de banho e o escritório sofreram danos e “por sorte não se queimaram documentos”, nem as obras de Helena Zália e Miguel Oliveira e Ramos, os dois primeiros artistas a exporem na Casa Branca.

Depois de muito trabalho, a nova casa de chá e cultura do Porto reabriu. E, não fosse o incêndio, teria sido a rábula de Herman José, “eu é mais bolos“, a dar o mote para esta história. “O projeto começou porque eu comecei a fazer bolos em casa e a vendê-los para fora”, explica o ator Miguel Branca, que sempre gostou de fazer doçaria. E foi num domingo de praia, com a família toda reunida, que a namorada Rute Domingues lançou a ideia de se lançarem os dois num negócio.

Patrícia Soares, que já trabalhou numa chocolateria e tem experiência na área, completa a coligação que governa esta Casa Branca. Não é tão grande como aquela onde mora o presidente dos Estados Unidos, é certo. Mas também tem um jardim, neste caso nas traseiras, com um chafariz, laranjeiras, bancos e mesas em pedra. Agora que vem o bom tempo, o objetivo é arranjar a relva, instalar iluminação para a noite, instalar mais mesas e cadeiras com almofadas, plantar legumes e ervas aromáticas para depois usarem na confeção dos alimentos.

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O jardim é amplo, tem mesas e cadeiras em pedra e vai sofrer melhorias com a chegada do bom tempo. (foto: © Divulgação)

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E, pelo menos nesta Casa Branca, toda a gente é bem-vinda e bem servida. Começando pelos chás e infusões (todos entre 1,90€ e 2,50€), com plantas que são fornecidas pela casa biológica de Gaia, Cantinho das Aromáticas, e também pela Mùi, que funciona em Miguel Bombarda. São todos preparados e servidos tendo em conta a temperatura da água e o tempo de imersão das ervas, “para não se alterar o sabor”, explica Miguel Branca, que fez várias formações antes de se lançar no negócio. “Quem prova a nossa erva cidreira, que é das mais simples, diz: ‘uau, que sabor fantástico!'”.

Os scones de aveia e nozes são uma das opções para acompanhar o chá, ou os bolos, como o de sementes de papoila e coco com glacé de limão, todos feitos ali diariamente — opção sem glúten disponível. As torradas em pão de Bragança vêm acompanhadas com compota (há uma de lima com cachaça e outra de morango com vinho do Porto, por exemplo), e geleia de alfazema. O chocolate quente (2,50€) é feito ao longo de 10 minutos com Pantagruel e leite vegetal, podendo ficar mais ou menos espesso, consoante o gosto de quem pede. Outra opção é a granola artesanal sem glúten, com iogurte, fruta e doce (3,50€).

Quem quer almoçar encontra sempre uma quiche vegan, uma salada e tostas, que “têm tido imensa saída”, conta Rute Domingues. As sopas, seja o creme de ervilhas ou a batata-doce com lentilhas, são todas feitas com produtos biológicos fornecidos localmente pela Bio em Casa. Uma sopa mais uma salada ou tosta, uma bebida a copo (à escolha entre limonada, laranjada ou chá do dia) e um café custam 7,50€, de terça a quinta-feira.

Às sextas-feiras, o almoço é sempre vegan ou vegetariano e pode ser temático. Esta sexta-feira, por exemplo, a Índia vai estar em destaque com uma sopa Dhal, de lentilhas, caril de couve flor e tofu e, para sobremesa, Barfi de coco. Também há vinho biológico disponível, cerveja artesanal e sumos com legumes, frutas e raízes, feitos num espremedor lento, sem recurso a água nem açúcar e onde não há fibra, logo o sumo não oxida e não se perdem nutrientes.

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Uma das ilustrações de Helena Zália, atualmente em exposição.
(foto: © Divulgação)

Percorrida a parte do chá, é preciso explicar que o nome “Chá e Cultura” que se encontra na porta, ao lado de um poema que muda diariamente, não foi escolhido só para parecer bem. A Casa Branca vai ter mensalmente nas suas paredes obras de artistas emergentes, seja pintura ou fotografia, sobretudo da região do Porto, “onde há imensos artistas a precisar de um espaço para expor as suas obras”, diz Miguel Branca. Se os clientes gostarem, podem comprá-las.

Para além dos dois espaços de exposição, o objetivo é transformar o piso inferior e o jardim numa sala de espetáculos ao ar livre, pronta a receber showcases musicais, leitura de poesia, atividades para crianças, apresentações de livros e tertúlias. Contactos de interessados não faltam. “Queremos ser investidores culturais”, explica o ator, que conhece as dificuldades do meio artístico. A ideia no futuro é pagar um cachê aos artistas que ali se apresentem. O primeiro evento cultural acontece este domingo, dia 10 de abril, às 16h30, com a atuação da violoncelista espanhola Georgina Sánchez Torres.

Nome: Casa Branca
Morada: Rua da Alegria, 101, Porto (Baixa)
Horário: Terça-feira a domingo das 11h00 às 20h00 (no verão querem abrir mais tarde e fechar mais tarde)
Telefone: 22 323 5186
Site: www.facebook.com/casabrancaporto