Panama Papers

Ilídio Pinho. O “latoeiro” que se tornou um dos homens mais ricos de Portugal

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Em 1964 lançou a Colep, uma empresa dedicada a embalagens para bolachas. Daí para cá, teve ligações ao BES, EDP e TAP. É ou foi próximo de Mário Soares, Marcelo e Passos Coelho.

Pedro Granadeiro/ Global Imagens

Autor
  • Miguel Santos Carrapatoso
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Tornou-se próximo de alguns dos mais influentes políticos da história do país, de Mário Soares a Marcelo Rebelo de Sousa, passando também por Luís Filipe Menezes e Pedro Passos Coelho. Construiu um império, primeiro na área das embalagens, depois estendendo a sua influência a quase tudo o resto. Desempenhou funções ou teve ligações a alguns dos principais grupos económicos portugueses — BES, EDP e TAP, por exemplo — até se tornar um dos homens mais ricos de Portugal. Esta sexta-feira, surgiu associado ao escândalo Panama Papers. Nega tudo.

Na primeira reação ao caso, em declarações ao Expresso, refutou todas as acusações. “Não tenho rigorosamente nada a ver com isso. Cumprimos rigorosamente as nossas obrigações fiscais”. No entanto, e de acordo com a informação avançada pelo Expresso/TVI, Ilídio Pinho e muitos dos seus colaboradores mais próximos estiveram associados a empresas offshore no Panamá — o que, por si só, não constitui qualquer ilegalidade.

Mas, afinal, quem é Ilídio Pinho? Nascido em Vale de Cambra, a 19 de dezembro de 1938, formado em Engenharia Eletrotécnica e Máquinas, tornou-se um dos mais relevantes industriais nortenhos, depois de ter lançado a Colep, em 1964. Foi a primeira pedra do seu império.

Começou por produzir e vender embalagens para bolachas, biscoitos e chocolates, mesmo contra a vontade do pai, também ele um self-made man ligado à indústria metalúrgica, que pretendia que o filho lhe sucedesse nos negócios. Ao Diário de Notícias, Ilídio Pinho chegou a descrever-se assim:

É verdade. Eu fui um latoeiro. A Colep começou com máquinas em segunda e terceira mão. Eu não tinha dinheiro, portanto comprei máquinas usadas, em segunda, terceira mão. Comecei a produzir latas para bolachas, que depois levavam rótulos. As bolachas vendiam-se à unidade nas lojas, nas tascas…”

As jogadas certeiras fizeram com que se tornasse líder de mercado. Acabaria por voltar-se para as embalagens de vernizes e tintas, lubrificantes e outros segmentos. Mais tarde, acabaria por estender a sua influência às finanças, aos transportes, ao papel, à metalomecânica e aos laticínios. Tornou-se, assim, um dos homens mais relevantes da cena económica do país.

Atualmente, controla o grupo IP Holding, o maior acionista da Fomentinvest — empresa da qual Pedro Passos Coelho chegou a ser administrador. Mantiveram-se próximos. Em 2015, quando lançou a sua biografia, a intervenção de encerramento ficou a cargo do então primeiro-ministro. E Passos descreveu-o como “um homem lutador, que tem colocado a sua energia e o seu saber também ao serviço da comunidade”.

Não seria o único político a fazê-lo. Mário Soares referiu-se a ele como “um homem com uma visão para Portugal, com uma ideia de Portugal, o que é extremamente importante e raro, mesmo nos empresários”. O ex-Presidente da República chegou mesmo condecorá-lo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Mais uma prova da importância de Ilídio Pinho. No dia em que lançou a sua biografia, contou com 600 convidados, com várias figuras ilustres do setor empresarial e da política, como António Pires de Lima e Nuno Crato. Os testemunhos de Mário Soares, Passos Coelho ou Marcelo Rebelo de Sousa encontram-se entre os 72 depoimentos que a biografia reúne. E ainda há Luís Filipe Menezes. Em 2012, o empresário nortenho foi líder da comissão de honra do então candidato à Câmara Municipal do Porto. Ou António Lobo Xavier, do CDS, que se referiu a ele como “um verdadeiro caçador de sonhos”.

No final de 2015, em entrevista ao Diário de Notícias, Ilídio Pinho garantia nunca ter entrado em esquemas de corrupção e rejeitava qualquer promiscuidade com o poder político. “Nunca fiz corrupção, nunca dei um troco a um deles [políticos], nem eles me deram a mim.”

Nessa mesma entrevista, tinha uma afirmação curiosa. “Nós, portugueses, não somos caloteiros. Como diz o Kaplan, a burocracia torna difícil o que é fácil através da inutilidade. Precisamos de ter um aparelho administrativo amigo do cidadão. Porque hoje dificulta que o cidadão tenha direito à lei quando precisa. Essa é a base da corrupção em Portugal: tem de se comprar legalidade.”

As empresas de Ilídio Pinho estiveram sempre no centro de todas as atenções. No final de 2014, o Observador contava como a Spiering SGPS, controlada pela holding IP, estava entre as empresas com maiores benefícios fiscais concedidos pelo Ministério das Finanças – teve direito a uma isenção de pagamento de 36,6 milhões de euros em sede de IRC. Mas não foi a única empresa nestas condições.

No entanto, se há um episódio incontornável na vida de Ilídio Pinho é a morte do filho, Pedro, aos 22 anos. Em 1990, o “herdeiro natural” morria na Suíça, num acidente. Quando vendeu a Colep a um fundo do BES, decidiu criar a Fundação Ilídio Pinho, com uma dotação de 50 milhões de euros. Fê-lo em homenagem ao filho.

A relação difícil com os pais e com os irmãos

A morte do filho acabaria por reaproximá-lo dos pais — sobretudo do pai, com quem há muito tinha cortado relações. “Os meus pais foram apresentar-me os seus pêsames. Perguntaram-me se o podiam fazer, eu disse que sim e perdoei-lhes, em memória do meu filho. Eu tinha dado ordens para que, se eu falecesse primeiro, os meus pais e os irmãos não fossem ao meu funeral”, revelou nessa entrevista ao DN.

Quando perdi o meu filho, entendi que a minha ambição empresarial tinha chegado ao fim em termos de autoestima empresarial, em proveito do meu umbigo. Entendi que deveria criar condições para ser um empresário de utilidade pública. E tenho boas razões para não estar arrependido.”

O pai, Arlindo Soares de Pinho, nunca aprovou a carreira que decidiu seguir. Chegou mesmo a impedir que os irmãos de Ilídio se tornassem seus sócios. “Nunca consegui ter sonhos bons com o meu pai, tive sempre pesadelos com ele. Terríveis”, chegou a dizer.

Também teve dificuldades em perdoar a mãe. “[A minha mãe] não se opôs [ao meu pai]. Foi pena. Um dia pediu-me que perdoasse o meu pai e eu perguntei-lhe se não tinha de perdoar-lhe a ela também”.

Já depois de ter perdoado o pai, e três anos depois de o filho morrer, convidou Arlindo a visitar a Colep. Era já um dos principais empresários portugueses. Em entrevista ao DN, descreveu o momento em que o pai viu tudo aquilo que tinha conseguido sozinho como uma das grandes alegrias da vida.

Foi o maior prazer da minha vida, mostrar-lhe a minha vitória, mostrar-lhe que se enganou. E disse-lhe: “Não quero nada do que é seu. Sabe porquê? Queima-me os dedos.” Qual é o grande favor que devo aos meus pais e aos meus irmãos? Foi não terem aceitado ser meus sócios. Porque se o tivessem feito eu perdia a autonomia que é o meu paradigma.”

Mesmo sem o apoio da família, Ilídio Pinho acabaria por se tornar um dos principais nomes da economia portuguesa. No currículo, o empresário conta ainda com ligações a alguns dos maiores grupos económicos portugueses. Foi fundador da empresa de transporte e distribuição de gás Nacional Gás e é atualmente membro do conselho Geral e de Supervisão da EDP. Entre 2000 e 2005, foi ainda membro do conselho de administração não executivo do BES, além de ter sido acionista na Companhia de Electricidade de Macau. Foi ainda fundador da EDISOFT (em associação com a TAP).

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