As estrelas são as mães de tudo no Universo. Quando o cosmos nasceu, num evento que julgamos ser o Big Bang, o mundo estava dominado pelo elemento mais leve que existe: o hidrogénio que, podemos dizer assim, é o pai da existência como a conhecemos. Antes que se baralhe na árvore genealógica universal nós explicamos tudo: no seio das estrelas há uma série de transformações químicas, a “fusão nuclear”. Esta permite que uns elementos se transformem noutros. E foi dentro das estrelas que o hidrogénio se transformou em hélio, que o hélio deu origem ao lítio, que do lítio nasce o berílio e assim sucessivamente. No fundo, a tabela periódica que estudamos na escola não passa precisamente de uma árvore genealógica com raízes nas estrelas por todo o universo.

Essas transformações químicas conseguem explicar bem de onde vieram os elementos mais leves. Mas há mais de sessenta anos que os cientistas se veem em apuros para descobrir como é que os elementos mais pesados – e mais valiosos na Terra por serem mais raros – nasceram no meio de tantos partos cósmicos, a que a ciência chama de nucleossíntese. Elementos como o ouro, a prata e a platina requerem uma grande quantidade de energia para nascerem, porque os seus núcleos são altamente ricos em neutrões. Se estes elementos fossem pessoas, eram com certeza pessoas muito ricas nascidas num berço a que os cientistas chamam de “processo R”. Este processo é um tipo de nucleossíntese (os tais partos cósmicos) que ocorre aquando do colapso do núcleo de uma supernova, corpos celestes resultantes da explosão de uma estrela com a massa de pelo menos dez sóis.

Ao fim de sessenta anos, os cientistas chegaram agora a uma resposta e publicaram-na na revista Nature. Numa pequena galáxia – a Reticulum II – a 98 mil anos-luz da Terra, há estrelas que contêm uma quantidade considerável de metais como o ouro, a prata e a platina. E isso significa que a pequena Reticulum II é um verdadeiro berço de metais raros. “Entender como estes elementos de processo R são formados é um dos maiores problemas da física. A energia requerida é tão grande que é praticamente impossível simular o processo em laboratório. Ele simplesmente não funciona na Terra. Então precisamos de usar os corpos do cosmos como laboratórios”, explicou a física Anna Frebel, uma das cientistas envolvidas na descoberta.

Reticulum II foi descoberta o ano passado e é atraída pela força gravítica da Via Láctea, que é orbitada por ela. Ao início, os cientistas viam nela uma grande oportunidade para descobrir a tão procurada matéria negra. Afinal, Reticulum II escondia outro mistério da física: a origem dos elementos que mais fazem brilhar os olhos dos seres humanos.

A descoberta destes elementos foi possível a partir dos registos do telescópio do Observatório de Las Campanas, no Chile. Mas nem tudo ficou explicado: é que as estrelas mais brilhantes desta galáxia não podiam ter produzido os elementos de processo R completamente sozinhas. “Quando estudámos o conteúdo de processo R naquela primeira estrela que nos apareceu no telescópio, algo pareceu errado, como se esse conteúdo não pudesse ter vindo originalmente da Reticulum II”. Então, o que poderá ter acontecido? E como podem a prata, o ouro e a platina ter chegado até ao nosso planeta?

Essa é a resposta que os cientistas perseguem agora, mas já existem apostas. Uma das teorias supõe que os elementos foram criados através da explosão de duas estrelas de neutrinos, que se acabaram por fundir no seio de galáxias muito pequenas, tendo depois ficado “coladas” às estrelas e aos asteroides, que os transportaram até à Terra. Isso pressupõe outra coisa: que todo o ouro existente na Terra vem de asteroides que colidiram com o nosso planeta quando ele ainda era uma criança sem a crosta bem solidificada. E que, não só somos feitos de matéria estelar, como também somos compostos por matéria preciosa vinda das mesmas explosões cósmicas que deram origem ao ouro, por exemplo. Essa matéria é como uma herança genética que nos ficou incrustada nas células há milhões e milhões de anos.