Cinema

Lisboa viu cinema pela primeira vez há 120 anos

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O desaparecido Real Coliseu foi palco, faz este sábado 120 anos, da primeira sessão de cinema em Lisboa. Passaram oito filmes da produtora do inglês Robert W. Paul, como recorda Eurico de Barros.

Autor
  • Eurico de Barros

Foi numa fria noite de final de Dezembro de 1895, em Paris, que os irmãos Lumière fizeram a primeira sessão pública da sua invenção, o Cinematógrafo. Seis meses depois, no dia 18 de Junho de 1896, há exatamente 120 anos, anunciava-se um Verão tranquilo e quente em Lisboa, e realizava-se na capital a primeira sessão de cinema, no Real Coliseu de Lisboa, à Rua da Palma. Inaugurado em 1887, era um espaço multifuncional que tanto recebia óperas cómicas como circo e espectáculos equestres. Um cartaz à porta anunciava um novo espetáculo, da responsabilidade de um Sr. Rousby, “eletricista húngaro”, e dias antes, o “Jornal Ilustrado” explicara o que ia passar-se: “Vamos admirar dentro de poucos dias a novidade mais prodigiosa e mais recente que tem sido o assombro de Londres, Paris e Madrid. É o animatógrafo apresentado por Mr. Rousby. Nesta máquina apresenta-se a fotografia viva, exibindo as cenas da vida real com a maior perfeição e fidelidade, pois com o animatógrafo obtém-se a fotografia instantânea com a rapidez de 15 provas por segundo.”

O responsável pela iniciativa era António dos Santos Júnior, o empresário do Real Coliseu de Lisboa, que tendo assistido à espantosa novidade em Madrid, decidiu divulgá-la entre nós, chamando Edwin Rousby, um exibidor húngaro (ou americano de origem húngara, segundo alguns), à capital portuguesa, onde chegou no dia 15 de junho. A máquina projetora usada na primeira sessão pública de cinema em Lisboa, e no nosso país, não foi o Cinematógrafo dos Lumière, mas sim o Teatrógrafo, sua concorrente, concebida pelo inglês Robert W. Paul, eletricista e fabricante de instrumentos óticos, e pioneiro do cinema em Inglaterra (Rousby era seu agente comercial), e aqui anunciada como “Animatógrafo”. A sessão estava para ter lugar a 17 de junho, mas como o Real Coliseu não tinha eletricidade, alugou-se um gerador, que teve uma avaria. Os 200 convidados receberam as desculpas de Rousby e a sessão foi adiada para o dia seguinte.

[Filme da produtora de Robert W. Paul feito na Boca do Inferno, em 1896]

No dia 18, não houve problemas, e depois de uma apresentação formal à imprensa, no início da tarde, deu-se a sessão pública à noite, tornando-se Lisboa na oitava grande cidade europeia a receber o novo espetáculo. Os filmes que Rousby exibia também eram pertencentes à casa produtora de Robert W. Paul, e tinham títulos como “Bailes Parisienses”, A “Ponte Nova em Paris”, “O Comboio Real” ou “A Dança Serpentina”. No total, passaram oito filmes com uma duração de 20 segundos a um minuto cada. Por essa altura, estava a ser apresentada no Real Coliseu a “opereta cómica de costumes” em três atos “O Comendador Ventoínha”, pelo que os filmes foram exibidos durante um dos intervalos, sem que o preço dos bilhetes fosse por isso mais caro (um ingresso para a geral custava então 100 réis).

[Excerto de um dos filmes vistos em Lisboa há 120 anos]

Uma tela branca, com a dimensão de 2,50 metros por 3,00 metros, servia de ecrã. A projeção era feita nas costas da tela, que tinha sido humedecida para aumentar a transparência. Conta A.J. Ferreira no seu livro “O Cinema Chegou a Portugal” (2009, Bonecos Rebeldes, Lisboa), que “na escuridão da sala, sucederam-se exclamações impertinentes e obscenas, havendo espetadores que solicitariam maior controlo para evitar tais zaragateiros”. Escreveu o “Diário de Notícias” na altura: “Mr. Rousby coloca o aparelho (…) ao fundo do palco, vindo as figuras projetar-se num quadro de tela fixado à boca de cena, algo que encanta e maravilha, por ser a reprodução da vida.” E acrescentava o jornalista ser esta “uma prodigiosa novidade”. (Ao que se sabe, não houve mais perturbações nas sessões seguintes).

[Outro dos filmes exibidos em Lisboa no Real Coliseu]

Contratado para cinco espetáculos, Edwin Rousby apresentou o último a 22 de junho. Ia em seguida para Barcelona, mas António dos Santos Júnior conseguiu que ele ficasse em Lisboa por mais algum tempo. Acabaria por se ir embora apenas a 16 de julho, após um mês em que o Teatrógrafo obteve um enorme êxito entre os alfacinhas, que se renderam com espanto e entusiasmo à grande e deslumbrante novidade desse final de século. Depois de emitir um comunicado de despedida onde manifestava o seu “sincero reconhecimento pelo acolhimento carinhoso e gentil que a Ilustrada imprensa e o inteligente e generoso público” lhe tinham dispensado, Rousby seguiu então para o Porto, onde mostrou os filmes no Teatro-Circo do Príncipe Real, embora com menos sucesso do que em Lisboa.

Um dos mais atentos espetadores destas sessões portuenses foi o fotógrafo amador Aurélio da Paz dos Reis, que assistiu a todas as sessões. Nesse mesmo ano, depois de uma viagem a Paris para adquirir equipamento, Paz dos Reis rodava o primeiro filme português, “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, apresentado, juntamente com outros títulos (alguns deles manivelados em Lisboa), na mesma sala do Príncipe Real, a 12 de Novembro de 1986. Nascia o “Kinetographo Portuguez”. Em Lisboa, entretanto, como consequência da sensação que tinham feito, e do muito que haviam dado que falar as sessões de cinema de Edwin Rousby, o empresário do Real Coliseu criou neste recinto o Cinema Colossal, que usava a mesma tela de projeção no palco principal do Coliseu.

[“Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, de Paz dos Reis]

O Real Coliseu de Lisboa acabou por fechar em 1925. O espaço pioneiro na exibição de cinema aos lisboetas, foi depois um armazém de encomendas postais dos Correios. Acabou por ser demolido em 1929. Em 1930, o terreno foi comprado e lá construída a Garagem Auto-Lis. Hoje, muito poucos sabem que foi naquele local, faz hoje 120 anos, que os fantasmas de celulóide se manifestaram pela primeira vez em Lisboa.

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