Um “bolo fofo” não é um pão de ló. Segundo o fascinante léxico criado espontaneamente pelo concorrentes do reality show da TVI “Love on Top”, um “bolo fofo” é a definição pejorativa de um bom rapaz. Porque o que as raparigas deste concurso desejam é um homem – a que chamam “bad boy” — que as trate mal mas que, ao mesmo tempo, as respeite. Nunca o respeito andou tanto pelas ruas da amargura.

É destes contrassensos que se alimentam as relações do “Love on Top”, um desafio cujo prémio é o amor (e uma viagem a Punta Cana), ainda que ninguém pareça muito interessado em ganhá-lo. Mais interessados estão em protagonizar psicodramas vagamente baseados em representações da paixão mas que não são mais do que manifestações violentas de orgulho e posse. É uma coisa tipicamente portuguesa: partem para a relação com a premissa de que ninguém os comerá por parvos. E depois comem-se todos, uns aos outros.

É uma coincidência – não creio mesmo que seja mais do que isso – o facto de o título deste concurso ser roubado a uma canção de Beyoncé cujo refrão é qualquer coisa como:

Nada é perfeito, mas vale a pena — depois de ter lutado contra as minhas lágrimas, finalmente puseste-me em primeiro lugar”

De facto, essa ideia de ser servido pelo outro perpassa toda a conceção de amor destes jovens concorrentes que nunca leram Miguel Esteves Cardoso. Perdão: destes jovens concorrentes que nunca leram. Ponto final. Miguel Esteves Cardoso publicou há dias uma crónica no Público intitulada “O Que Custa o Amor” em que diz: “Amar é a bênção. Ser-se amada ou amado é apenas uma questão de sorte”. Já os pensadores do “Love on Top” dizem: “Vais ter de provar que me mereces”.

O ciúme é, por isso, um requisito. Porque o ciúme gera conflito e o conflito não só dá protagonismo e audiências como é também a caricatura possível do arrebatamento que não sentem. Uma caricatura possível é aquilo que fazem os desenhadores com muita manha e pouca sensibilidade: aumentam o nariz e o queixo de toda a gente porque não conseguem realmente apanhar-lhes os traços.

As cuecas favoritas

No “Love on Top”, é comum vermos pessoas a perder a cabeça por ciúme. Há pratos atirados ao chão e cadeiras pelo ar. Uma rapariga chora histericamente e a atira-se, vestida, para a piscina depois de ser coagida pelo macho ciumento que ameaça acabar tudo porque a viu falar com outro. No plano seguinte ela diz, sorridente: “Eu tenho de provar que gosto mesmo dele”. Ele, por seu lado, derrete-se quando a vê chorar daquela maneira.

Não há nada que una estes concorrentes – que acabaram de se conhecer e vão passar dois meses numa casa – senão o sentimento de posse. Mas não é o sentimento de posse da paixão louca, da faca na liga. É, sim, aquele que nutrimos pelas nossas cuecas favoritas: não queremos que mais ninguém as use porque são nossas mas também porque, se forem usadas por outros, ainda apanhamos alguma doença.

Também o sexo é um exercício de psicodrama no “Love on Top”. É tão postiço e performativo que ficamos com saudades dos tempos em que a promiscuidade era uma coisa séria. Num momento de conversa descontraída, os rapazes e as raparigas gabam-se de contorcionismos e acrobacias. É a caricatura possível de uma relação sexual, baseada nos grandes narizes e nos grandes queixos desenhados pela pornografia pós-internet.

Finalmente, há no comportamento deste elenco uma tentativa recorrente de caricaturar o amor propriamente dito. O amor da abnegação, da gratidão, da “bênção de amar” de que falava Miguel Esteves Cardoso. Este amor é, para eles, uma tarefa sentimental cumprida eficazmente por um pequeno-almoço na cama. Não é preciso mais nada.

Uma relação no “Love on Top” resume-se a isto: posse, sexo olímpico e pequeno-almoço na cama. E a verdade é que muitas relações fora do “Love on Top” também se resumem a isto, de forma mais ou menos caricatural, inspiradas pelos vídeos do PornHub, pelos textos do Jáfoste.net, pelas citações de Pedro Chagas Freitas, por Charles Bukowski ou Florbela Espanca, só muda o embrulho. Não é uma questão de educação nem de classe social. É transversal: poucos se dispõem a amar porque a maior parte não está para sofrer. “O amor é a aflição de quem tem a sorte de sofrer sem razão”, remata Miguel Esteves Cardoso. Eu gosto de ver o “Love on Top” porque me faz lembrar da sorte que tenho.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3