https://www.youtube.com/watch?v=a6TeplKt2d0

Este clip diz tudo sobre Renato Sanches. Protege a bola com a fúria e dimensão de um homem de três metros e tem a ratice e criatividade para, com um toque sublime, fazer uma “cueca” ao rival de branco. A seguir, qual garoto deslumbrado, quer mais e acaba por perder. É o futebol de rua, sem dono, sem amarras, ousado. Tem mais coisas boas do que más, arriscamos dizer. Vejamos Neymar: é possível oferecer novas ferramentas a um miúdo que joga como no recreio da escola, mas já não é possível fazer o mesmo ao contrário. Ou se tem ou não se tem. E só por essa razão podemos compreender o porquê de um Bayern Munique deixar um saco cheio de dinheiro no Estádio da Luz.

Atenção: no vídeo em cima, o jogador talvez nem tivesse outra opção de passe (provavelmente tinha), mas o Observador usa este exemplo porque foi muito do que se viu durante o ano no Benfica. Força, potência, técnica e risco, que leva muitas vezes à perda da bola. Tem 18 anos, senhoras e senhores. O futebol de formação evoluiu muito, está à vista de todos, mas o tão badalado “futebol de rua” vai-se perdendo, por isso quando surge alguém mais anárquico ou selvagem, que não pensa só em números, seduz.

Basta navegar pelas redes sociais ou mergulhar nos grupos de amigos no WhatsApp para compreender, com mais ou menos clubite, qual é a pinta que se tira ao miúdo. Uns dizem que foi a imprensa que o fez, que falha muito, que corre à toa, que pressiona mal, que só joga para o lado e para trás e que perde muitas bolas. Os que gostam preferem ver em Renato alguém com coragem, que pede a bola quando todos se escondem, e veem o futuro de Portugal assegurado.

Os mais equilibrados veem um rapaz com um senhor potencial, mas com alguns defeitos. Muitos deles próprios da idade: pressionar mal ou com “demasiada vontade”, deixando buracos no meio campo, desmontando a estrutura da equipa. Há quem ache que o médio deveria ter sido mais protegido, ou que lhe teria feito bem ir, de vez em quando, ao banco, para não sentir que o Benfica era ele e mais dez. É por isso que é preciso é ouvir quem sabe, para o bem e para o mal. Quando se ouve Carlo Ancelotti, parte muito interessada no processo, dizer que é o craque do Campeonato da Europa ou ainda Pierre van Hooijdonk que o comparou a Clarence Seedorf, tem muito que se lhe diga.

Três vezes suplente utilizado, titular no último jogo. O que fez Renato Sanches no Euro2016?

As conversas entre adeptos nos cafés, tascas e casas de amigos pelo país têm sido, claro, praticamente só Benfica vs. Sporting. Há muita tática, muita estratégia, muito “tem pouco que saber” e muita teoria da conspiração. Tudo isto mas com os seus de início. Renato Sanches tem de jogar. Não, senhor. Adrien, João Mário e William deveriam estar juntos porque estão habituados e porque Jorge Jesus lhes deu uma ensaboadela daquelas. Talvez.

Uma opinião é tão válida quanto outra, por isso o Observador não pretende aqui, ao estar a analisar Renato ao pormenor, justificar a titularidade. Simplesmente vamos a reboque da UEFA, que o escolheu pela segunda vez como o homem do jogo. Analisemos, portanto, a revelação do campeonato português, dando a mão aos números disponibilizados pelo WhoScored e pelo FourFourTwo. O novo médio do Bayern Munique entrou em dois jogos da fase de grupos, entrou novamente nos “oitavos” contra a Croácia e fez os 120′ nos quartos-de-final vs. Polónia.

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Renato Sanches vs. Islândia (fonte: FourFourTwo)

No primeiro jogo, contra a Islândia, Renato Sanches entrou aos 71′. Não teve muito tempo nem bola para levar a equipa para a frente como gosta, até porque os islandeses estavam mais preocupados em fechar a sua baliza. Pedia-se, então, acerto: em 13 passes acertou dez. Fez uma falta, fez um tackle e ainda limpou a bola da defesa uma vez. As falhas, como se vê em cima, foram mais perto da baliza adversária, longe de zonas de risco. Foi pouco tempo, e a equipa não estava ligada, não foi um jogo fácil para entrar a 20 minutos do fim.

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Renato Sanches vs. Hungria (fonte: FourFourTwo)

Fernando Santos optou por não tirar Renato Sanches do banco no segundo jogo, contra a Áustria, por isso só voltaríamos a ver o médio no terceiro jogo, no tal empate a três contra a Hungria. Aí, Renato entrou aos 45 minutos e já teve mais tempo. Falharia apenas três passes, embora a maioria dos passes que observamos sejam mais curtos e para o lado ou para trás, uma das críticas que mais se fez durante o ano.

Não podemos esquecer que Portugal joga, ou tenta jogar, ou vai jogando, com quatro jogadores ali a “passear” no meio, por isso é normal e aconselhável que o futebol seja apoiado, curto e seguro. Por isso, não podemos logo catalogar a coisa como “falta de coragem”, até porque Portugal teve 63% de posse de bola (450 passes vs. 218; no último terço: 164 vs. 49) — ou seja, é normal não haver entradas pelo corredor central, quando a outra equipa está fechadinha. Voltou a cometer apenas uma falta, mas já perdeu três vezes a bola por tentar 1×1 (são as estrelas a laranja).

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Renato Sanches vs. Croácia (fonte: FourFourTwo)

Nos quartos-de-final chegava o osso mais duro de roer. A Croácia de Rakitic, Modric, Mandzukic e Perisic impunha respeito, até pela exibição (e vitória) contra a ainda bicampeã europeia, a Espanha. Por isso mesmo, Fernando Santos optou por jogar com Adrien perto de William Carvalho, para fechar com outra sabedoria o centro do terreno, onde navegam os craques do Barcelona e Real Madrid. Adrien tem mais acerto na hora de pressionar, sabe timings, conhece o futebol de ginjeira. Esteve muito bem e foi um dos destaques da imprensa europeia. Com justiça. Ver aqui os números da sua exibição.

Mas aquilo estava bem para defender, com coesão, com garra de leão, com segurança, mas faltava quem olhasse para a frente, que pudesse pegar na bola e inventasse um golo, com pouca vergonha e timidez. Santos lançou o ex-médio do Benfica aos 50′. Aqui, nota-se que Renato Sanches jogou contra uma equipa de topo, que teve mais bola (59%) e fez muitos mais passes (574 vs. 363). Ou seja, Portugal jogou com menos conforto, mais longe da baliza, mais desconfortável na hora de começar as jogadas. Haveria, portanto, mais risco, menos certeza no passe, na teoria.

E nota-se bem no gráfico de Renato: acertou apenas 32 de 41 passes que tentou. Teve de arriscar mais, e jogar mais longo. E fez mais faltas. Facto: esteve ligado ao golo da vitória, ao conduzir o contra-ataque pelo centro, qual furacão, para depois entregar para Nani. O extremo do Fenerbahçe tentou chutar, a bola seguiu para Ronaldo, que também tentou, mas seria Ricardo Quaresma a sentenciar a vitória, com a bola deserta. E de cabeça. Renato terá feito o que lhe pediram: defender certinho e, quando possível, disparar na frente para aproveitar a Croácia contra pé. Os croatas assumiam então o lugar de equipa mais forte em campo, com mais bola, com mais metros de relva conquistados. Bingo, senhor Fernando Santos.

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Renato Sanches vs. Polónia (fonte. FourFourTwo)

Contra a Polónia a cantiga foi outra. Pela primeira vez na vida do jovem, Fernando Santos decidiu colocar Renato Sanches de início. Portugal até começou logo a perder, passando uns minutos difíceis, sem saber bem como segurar Lewandowski e Milik juntos na frente. As coisas foram acertando e a bola foi serenando na relva. Renato acertou 60 dos 64 passes que tentou. Só William Carvalho fez mais (63/70).

Os jogadores de topo fazem o mais difícil: jogar, tocar e decidir bem no último terço. Renato acertou 34 dos 35 passes nessa zona do terreno polaco, o que impressiona, até pelas críticas que já vimos em cima, no Benfica. Notou-se que o médio estava mais focado em fazer passes que rompiam com a organização da Polónia. Aqueles passes entre os médios, que têm como destino os interiores, o número 10 ou os avançados são dos passes mais perigosos para a organização do inimigo. Aquilo permite tabelinhas, toques de primeira rápido na linha, ou até uma receção e virar para a baliza. Renato insistiu neste dia e esteve feliz. Pep Guardiola, que hoje foi apresentado no Manchester City, ficaria muito feliz com isto. É umas das suas batalhas diárias.

Uma coisa é certa: quando Renato descaiu para as linhas, perdeu influência. Isso foi gritante. E isso aconteceu mais na segunda parte, quando esteve meio esquecido na ala esquerda. Quanto a disparos, Renato rematou três vezes, sendo que uma dessas deu golo, com a canhota, e as outras duas foram bloqueadas. O golo à Polónia transformou-o no jogador mais jovem de sempre a marcar num jogo de mata-mata em Campeonatos da Europa. Cristiano Ronaldo rematou cinco vezes, mas só uma vez acertou na baliza e Nani tentou cinco para acertar duas no alvo.

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Renato Sanches vs. Polónia (fonte: FourFourTwo)

Quanto a dribles, ou tentativas de ultrapassar adversários (take-ons), Renato foi bem-sucedido em sete das 13 vezes. Lá está, o seu futebol de rua, que tanto faz admirar e suspirar como arrancar os cabelos, quando perde bolas fáceis ou com um colega por perto. Há risco no seu futebol. Há 18 anos no seu BI, por isso é normal, para o bem e para o mal. Voltamos ao ponto de partida do texto: ele tem o que os treinadores gostam, mas falta (por vezes) acerto na decisão e no timing da pressão. Isso aprende-se. Coração, ousadia e futebol de rua já é mais difícil de incutir…

Estes números, o seu peso na equipa, tornam-se ainda mais importantes quando compreendemos que Portugal jogou contra uma equipa do seu valor, em nada inferior mesmo. A Polónia teve mais bola (52%), fez mais passes (525 vs. 474), embora Portugal tenha vencido nos passes no último terço (215 vs. 136). Os portugueses ganharam também nos remates (19 vs. 14).

https://www.youtube.com/watch?v=mgvME26_lpE

Resumindo, Renato Sanches entrou em três partidas (Islândia, Hungria, Croácia) e foi titular nos quartos-de-final, contra a Polónia. Segue-se o País de Gales, uma equipa com andamento, sem problemas em partir o jogo, para meter Robson-Kanu e Gareth Bale nas correrias. Gales defende com três defesas, criando normalmente uma linha de cinco. Ou seja, na teoria, Portugal terá a bola e terá de inventar espaços entre a teia defensiva dos britânicos, que se estreiam em Campeonatos da Europa. Na hora de perder a bola, os portugueses terão de saber fechar o meio rapidamente, para bloquearam as ligações entre defesa e ataque do rival. As mudanças de velocidade de Renato Sanches poderão ser importantes, mas só se o acerto no passe também estiver naqueles dias bons, como estiveram contra a Polónia, por exemplo.

Uma coisa é certa: Gales estará mais frágil. Aaron Ramsey, um craque do Arsenal, é o cérebro da equipa e o jogador mais influente do Europeu, com quatro assistências e um golo, mas o médio viu um amarelo contra a Bélgica, por isso falhará o duelo contra Portugal, em Lyon, quarta-feira, pelas 20 horas. Em baixo, alguns dados e a forma como se deverão apresentar os galeses vs. portugueses, na busca pela desejada final.

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(fonte: whoscored.com)