Michael Reiziger colocou-se pela frente, para tentar travar mais uma correria do miúdo-maravilha da seleção portuguesa. Esse garoto era o número 17 de Portugal, alguém que era ousado, rápido, explosivo e que fazia suspirar. Desta vez Reiziger soube travar o wonderkid, mesmo após o recurso ao seu calcanhar, o suspeito do costume. A bola foi para canto e Ronaldo respirou fundo, enquanto mirava o chão, como quem pensa “já sai a seguir”. O relógio namorava o minuto 26′, quando Deco assumiu mais um canto e colocou a bola redondinha, redondinha na grande área. O costume, certo? Cristiano Ronaldo entrou, qual furacão, e meteu-a lá dentro. Edwin van der Sar quase nem esboçou movimento e olhou, impotente, para Edgar Davids. Um-zero.

Portugal de Felipão venceria esse jogo por 2-1, com golos de Maniche (golaço!) e Jorge Andrade, na própria baliza, e seguiria para a final do Euro-2004. Mas o que interessa mesmo é que Ronaldo, nesse momento, tornava-se no jogador mais jovem da história do futebol a marcar num jogo de mata-mata. O atual capitão da seleção tinha 19 anos e 146 dias, conta o Mister Chip (o senhor da estatística). A data especial para o 7 da seleção estava assinalada: quarta-feira, 30 de junho de 2004, precisamente há 12 anos. O palco? A sua casa: Estádio José Alvalade, em Lisboa.

Ou seja, Cristiano ultrapassava Ferenc Bene, um húngaro que ocupou esse posto entre 1964 e 2004. Isso, 40 anos. Bene, cujo nome lhe assenta tão bem, jogou a vida toda no Újpesti Dózsa (1961–1978) e fez história no Campeonato da Europa de 1964, disputado em Espanha. Na altura, tal como Renato Sanches hoje, Bene colocou a Hungria no prolongamento, embora tenha sido na semi-final contra a Espanha, a equipa da casa. Jesús María Pereda fez o um-zero para os espanhóis, em pleno Santiago Bernabéu, perante quase 35 mil adeptos. Bene empatou aos 84′ (os espanhóis venceriam, com golo de Amancio Amaro, aos 112′) — o avançado magiar tinha 19 anos e 183 dias. Nota: Ferenc Bene marcou ao Brasil no Mundial de 1966, no 3-1 da Hungria aos craques da canarinha. Curiosamente, nesse Grupo 3, Portugal e Hungria deixaram o Brasil pelo caminho. Va Bene!

Voltemos ao século XXI. E à mudança de cadeiras no reinado europeu. Renato Sanches roubou o trono a Cristiano Ronaldo: o médio do Bayern Munique é agora o mais jovem jogador da história do futebol europeu a marcar num jogo de mata-mata. E, já agora, é também o português mais jovem a marcar em jogos a eliminar em Europeus e Campeonatos do Mundo. Tudo aconteceu no Estádio Vélodrome, em Marselha, ao minuto 33. Renato Sanches pegou na bola, levantou a cabeça, tocou para Nani e avançou para o espaço. O extremo tocou de calcanhar e meteu a bola onde devia, ali, perfeitinha à espera do médio que oferece um cheirinho a futebol de rua sempre que o vemos. Renato dominou, ajeitou e chutou com a canhota. A bola, caprichosa e seduzida pelo miúdo, quem sabe, decidiu desviar subtilmente num defesa polaco e aninhar-se nas redes da baliza de Fabienski. Goooolo! Na baliza e na história.