Um grupo de investigadores portugueses descobriu como medir a velocidade instantânea de micro e nanopartículas em suspensão num líquido ou num gás. Essa descoberta contraria a perentória frase que Albert Einstein proferiu em 1907 e onde garantia que, “devido à rápida randomização do movimento, é impossível medir, na prática, a velocidade instantânea, pelo menos de partículas ultramicroscópicas”. De acordo com o relatório publicado esta terça-feira na revista Nature, o método encontrado por Carlos Brites, Mengistie Debasu, João Rocha e Luís Carlos (todos dos Departamentos de Física e de Química da Universidade de Aveiro) vai permitir desenvolver os processos de refrigeração. E até evitar desastres nucleares.

Para entender a importância desta descoberta, basta recuar até 11 de março de 2011: se nessa altura já soubéssemos como medir a velocidade a que viajam as pequenas partículas em suspensão a cada instante, o acidente nuclear de Fukushima provocado pelo tsunami podia ter sido evitado, porque a central teria um sistema de arrefecimento central e de transferência de calor muito mais eficiente. Isto porque, tal como o indica o relatório dos cientistas portugueses, é possível calcular a velocidade instantânea balística das nanopartículas através de medições da temperatura do fluido onde elas viajam, algo que é possível graças a técnicas de emissão de luz (luminescência).

A ciência chama de “movimento Browniano” ao movimento aleatório de partículas muitíssimo pequenas em suspensão num líquido ou num gás. Esse movimento é criado pela colisão das partículas com as moléculas que compõem o fluido onde elas se encontram. Em 1905, Albert Einstein debruçou-se sobre o assunto e escreveu que o movimento Browniano era “uma consequência do movimento térmico das moléculas de água”, como explica a Universidade de Aveiro no documento enviado à imprensa. Nessa época, esta teoria foi um dos pilares que permitiu provar que os átomos e as moléculas existiam de facto.

Albert Einstein estava errado, mas porque não havia tecnologia suficiente para provar o contrário. As partículas movem-se sem regra e muito rapidamente em intervalos de tempo muito curtos: é o chamado regime balístico. O que descobrimos agora é que o movimento Browniano “é muito sensível à variação da temperatura” e por isso o termómetro pode mesmo ser o melhor amigo de quem quer fazer estas medições à pequeníssima escala. Até porque isso permitirá em breve melhorar os sistemas de refrigeração e alimentar essa indústria em cerca de dois mil milhões de dólares. E não estamos apenas a falar de centrais nucleares ou das indústrias tecnológicas: esta descoberta, que leva consigo a bandeira portuguesa, também nos pode levar a entender com maior clareza como é que o calor é transmitido de um lado para o outro à escala celular.